Feminismo

Artigo | Primavera Lilás: As Mulheres Avançam

O Encontro Nacional Feminista ocorrerá em 2020 e deve movimentar as organizações feministas

Brasil de Fato | Natal (RN)

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Organizada por mulheres do campo, da floresta e das águas, Marcha das Margaridas ocorre desde 2000, sempre em Brasília (DF) / Pedro França/Agência Senado

Estamos vivenciando uma crise econômica, política, ambiental e social, que tem impactado de forma muito dura a vida de todos nós, que vivemos do fruto do nosso trabalho, que precisamos sair de casa todos os dias para garantir a comida na mesa, a roupa e o próprio teto.

Todas essas crises têm impactado de forma negativa os valores humanos, como solidariedade, amor ao próximo e cuidado com a natureza e com as pessoas. Esses impactos são vivenciados de forma ainda mais dura pelas mulheres. O aumento do índice de violência contra as mulheres, a busca de retirar direitos que lutamos muito para conquistar, refletem o fato de que nossa liberdade, como diz Angela Davis: “é uma luta constante”.

Esse mês de agosto, as mulheres deixaram evidente que estão nessa luta constante, e que dela não vão sair, sem a vitória. Não desistiremos dos nossos direitos, nem de ser o que somos, e vamos juntas avançar na construção de um Brasil para todas as pessoas.

Agosto trouxe à tona um processo de luta e organização das mulheres que é anterior, que existe há vários anos, mas que no atual momento do Brasil se une e coloca como um polo aglutinador das forças progressistas desse país.

As camponesas do MMC estão em luta permanente contra a reforma da previdência desde que a reforma chegou no congresso. No dia 13 de agosto, a marcha das mulheres indígenas marcou a primeira vez que as mulheres indígenas saíram em marcha enquanto mulheres. Elas sempre estiveram à frente das lutas dos seus povos, mas agora, após muitos anos de acúmulo e debate, resolvem realizar uma marcha que traz a força da mulher indígena, para reivindicar seus direitos. Essa marcha acontece um dia antes da sexta Marcha das Margaridas, e a ela se soma. A Marcha das Margaridas é um processo de luta e organização das mulheres do campo, das florestas e das águas, que movimenta muito mais do que as 100 mil mulheres que estiveram na Marcha em Brasília esse ano. Movimenta mulheres desde a base, em cada comunidade onde são debatidos os textos e são construídas as propostas das mulheres para melhorar a vida no campo, na floresta, nas águas, e também das cidades.

Essas duas marchas abriram o caminho para outras duas construções com as quais as mulheres pretendem ampliar suas forças e construir um novo amanhã. Durante a abertura da sexta Marcha das Margaridas, foi lançado o Encontro Nacional Feminista, que ocorrerá em 2020 e deve movimentar as organizações feministas e as feministas das organizações daqui até lá. Esse encontro representará a aliança feminista contra os retrocessos na vida das mulheres.

No dia 15 de agosto, como se coroasse esse processo de luta e organização, foi também lançada a Frente Parlamentar Feminista Antirracista, que é composta por movimentos feministas e deputadas federais de diferentes partidos, que refletem a pluralidade e a diversidade das mulheres brasileiras – negras, jovens, com deficiência, periféricas, indígenas, brancas, rurais, do campo, das florestas e das águas. A Frente tem o objetivo de fazer ecoar no Congresso Nacional a voz das mulheres. A frente é a luta feminista ocupando mais um espaço, estamos nas ruas, nas universidades, no campo, nas florestas, nas águas e agora também no parlamento.

Essas ações, e inúmeras outras que tem sido protagonizadas por mulheres nos últimos 5 anos, como “Pílula fica e Cunha sai”, “A previdência é nossa ninguém tira ela da roça”, e “#EleNão”, demonstram que as mulheres estão dispostas à luta por vida digna, por liberdade e autonomia para si e para a sociedade como todo.

Quando uma mulher avança, o machismo retrocede!

*Agrônoma, militante do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC).

Edição: Marcos Barbosa