precarização

Artigo | Por que não podemos comemorar o recorde de pessoas ocupadas no Brasil?

Maioria dos empregos gerados reside na informalidade, alcançando o recorde de 41,4 % do total de ocupados

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Aumento dos postos de trabalho não deu respostas à um grande número de pessoas que anseiam por uma oferta de emprego / Tânia Rego/Agência Brasil

Na última semana a divulgação dos dados da PNAD contínua nos revelou que o mercado de trabalho brasileiro bateu o recorde do número de ocupados desde o início da pesquisa em 2012. Chegamos ao terceiro trimestre deste ano com um total de 93,8 milhões de pessoas ocupadas, ou seja, um acréscimo de 459 mil pessoas frente ao trimestre anterior.

Para alguns analistas isto pode sinalizar uma tendência de melhora nos termos do mercado de trabalho, e, portanto, resultado da recuperação da atividade econômica. Mas será que podemos afirmar isto e comemorar estes números? Vejamos em meio a outros indicadores oferecidos pela pesquisa.

Um primeiro elemento a ser observado é que ainda que tenhamos o maior número de pessoas trabalhando não vemos estes resultados refletidos na diminuição das taxas de desemprego, o que ocorre é na verdade uma persistência do elevado número de desocupados que chega a 11,8% da população economicamente ativa.

Isto porque o aumento do nível da ocupação deve ser analisado tendo em vista que na mesma proporção há um recorde do número pessoas em idade para trabalhar e que procura emprego, chamamos isso de taxa de participação, que atinge no momento 62% desta parcela da população, ou seja, um aumento do número de pessoas que podem trabalhar e, que, de fato estão à procura de emprego.

Uma explicação para isto, é a reincorporação de pessoas na busca de emprego que no último período haviam desistido de procurar pela falta de perspectiva de oportunidades, os chamados desalentados, e de pessoas subutilizadas, aquelas que estavam subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas ou que potencialmente poderiam trabalhar mas por algum motivo não puderam procurar emprego no momento da entrevista.

O mercado de trabalho brasileiros nos últimos 4 anos tem sido marcado pelo expressivo aumento das taxas de desalento e de subutilização, dando corpo há uma espécie de exército de reserva no qual ao primeiro sinal de recuperação de emprego voltam a pressionar o mercado de trabalho em busca de oportunidades.

Deste modo, o aumento do número de oportunidades de emprego não foi suficiente para incorporar o grande contingente de pessoas que ainda estão à margem do mercado de trabalho. Em outras palavras, o aumento dos postos de trabalho não deu respostas à um grande número de pessoas que ainda anseiam por uma oferta de emprego.

A tendência, inclusive, é que se aumente ainda mais as taxas de participação, uma vez que permanecem significativos os percentuais de população desalentada (4,2%) e subutilizada (24 %) que futuramente poderão exercer ainda mais pressão no mercado de trabalho.

Um outro importante elemento a ser destacado é a qualidade dos empregos que foram gerados, a maioria reside na informalidade, alcançando o recorde de 41,4 % do total de ocupados.

A categoria “empregado sem carteira assinada no setor privado” chegou ao seu ápice na série histórica com 11,8 milhões de pessoas, um aumento de 2,9%, e a categoria conta própria totalizou 24,4 milhões de pessoas um aumento de 1,2% de trabalhadores.

Estes postos de trabalho são historicamente conhecidos por serem empregos mais vulneráveis, pois não são regidos pela legislação trabalhista, deixando os trabalhadores mais desprotegidos e por serem empregos de menores rendimentos em relação ao emprego formalizado.

É em meio a um dos piores cenários conjunturais pelo qual passa o mercado de trabalho brasileiro que assistimos o recorde no número de pessoas trabalhando, contudo, se olharmos de perto, permanecem grandes contingentes de pessoas em situação de desemprego, desalento e subutilização e para aqueles que conseguem ocupar uma vaga, se empregam em postos de trabalho precarizados, desprotegidos e com baixos rendimentos.

Não há o que se comemorar.

*Iriana Cadó, economista e especialista em economia social do trabalho.

Edição: Rodrigo Chagas