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Secura é isso!

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O Gereba e um amigo dele fizeram até uma música brincalhona sobre isso, um xote chamado “Hoje choveu em Uauá” - Creative Commons
Um dos irmãos dele, nessa fase de moradia em Uauá, só conheceu chuva quando tinha quatro anos

Meu amigo Gereba, de quem já falei aqui, é um grande músico e fez parte de um grupo muito bom, o Bendegó, que fez sucesso há algumas décadas. A família dele é do norte da Bahia e morou em várias cidades da região. Uma dessas cidades é Uauá, no Raso da Catarina, região considerada a mais seca do Brasil.

Há histórias de que bandos de cangaceiros quando se sentiam ameaçados iam para o meio do Raso da Catarina. Eles sabiam como sobreviver lá, de onde tirar a água que precisavam. Os seus perseguidores não ousavam ir atrás.

O umbu, fruto comum na região, era um dos segredos deles. O umbuzeiro tem umas bolotas na raiz que funcionam como reservatório de água. Quando chove, o que acontece raramente, essas bolotas crescem ficam bem grandes, e na seca as árvores se alimentam da água que tem nelas. É só cavar debaixo dos umbuzeiros, achar algumas bolotas dessas, que a gente tem água.

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Voltando ao Gereba e à secura da região, ele me contou que um dos irmãos dele, nessa fase de moradia em Uauá, só conheceu chuva quando tinha quatro anos de idade. Quando começou a chover, chuva forte de verdade, o menino ficou alucinado, vendo aquilo como um milagre. Correu para a praça e se esbaldou rolando no barro.

O Gereba e um amigo dele fizeram até uma música brincalhona sobre isso, um xote chamado “Hoje choveu em Uauá”.

Um parêntese aqui: o nome Uauá provoca muito curiosidade. O que significa? Conto aqui: em tupi, uauá é o nome do vagalume.

Eu contei ao Gereba que uma vez estava em Poço de Fora, povoado perto de Uauá, e fazia três anos que não chovia lá.

Aí me lembrei da minha primeira viagem num navio vapor no rio São Francisco, em 1969. Fiz vários amigos nordestinos nessa viagem, e o pessoal, muito gozador, com tempo sobrando na viagem que durava sete dias, brincava sobre qual estado tinha a região mais seca.

Um deles, cearense, brincou que no sertão baiano as vacas davam leite em pó. Um paraibano disse que era verdade, e que lá as vacas usavam óculos ray-ban para enxergar a grama verde. Um alagoano disse que no sertão da Paraíba as pessoas não usavam papel higiênico quando iam ao banheiro, usavam espanador.

Um baiano falou o que eu achei mais divertido. Fez pose de quem ia falar uma grande verdade e sapecou: “No Ceará tem sapo de dez anos que não sabe nadar”.

 

*Mouzar Benedito é escritor, geógrafo e contador de causos. Leia outros textos

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Douglas Matos