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E eu virava uma mocinha de 14 anos...

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A notícia de que assumi o tal emprego impressionou até dirigentes do Sindicato dos Jornalistas - Unsplash
Achava que eram cartas inventadas. Mas para minha surpresa eram todas de verdade

Um dos empregos que tive como jornalista foi na revista Querida, que se destinava a meninas de 11 a 15 anos de idade. 

Antes dele eu estava morando em Brasília, e gostando, mas precisava voltar para São Paulo, por causa de umas coisas como o emprego da minha mulher, que era aqui, e a doença de uma cunhada. 

Recebi um telefonema da diretora da revista me chamando para ser um dos editores e topei. Uns amigos ficaram pasmos: como é que eu trocava um emprego de editor regional do Jornal do SBT em Brasília, que na época era bom, para ser um dos editores de uma revista que consideravam sem a menor importância?

Cheguei à revista com algumas curiosidades. Uma delas sobre as cartas publicadas na revista, muitas vezes com respostas de uma psicóloga, um médico, um sexólogo ou uma astróloga. Achava que eram cartas inventadas. Mas para minha surpresa eram todas de verdade. Chegavam quatro a cinco mil cartas por mês e havia um jornalista encarregado de ler, selecionar todas por assunto, escolher algumas para publicar, entre elas as que julgava merecerem respostas de especialistas.

Mais causos: Coluna do Mouzar

Então, muitas cartas publicadas que me pareciam absurdas eram verdadeiras. Os fã-clubes também eu achava que eram de mentira. Tinha fã-clube de tudo quanto é artista e pediam para publicar seu endereço na revista, para atrair outras fãs. Eram de verdade também, e me causavam espanto. Um sujeito qualquer aparecia na televisão um dia e logo em seguida surgia um fã-clube dele.

Um dia chegou uma carta pedindo a publicação do endereço do “Fã-clube do piloto do helicóptero do Gugu”. O Gugu Liberato tinha um programa em que ia de helicóptero a alguns lugares e umas meninas ficaram fanáticas pelo piloto dele.

A notícia de que assumi o tal emprego impressionou até dirigentes do Sindicato dos Jornalistas. Tanto que resolveram publicar no jornal do sindicato uma informação sobre isso, até com foto minha. Não me importei.

E quando me perguntavam como é que eu troquei a produção de matérias sobre política nacional por matérias sobre adolescentes, eu respondia: “Eu grito ‘Shazam’, me transformo numa mocinha de 14 anos e escrevo sobre meu primeiro beijo, minha primeira menstruação.... Simples, né?

 

*Mouzar Benedito é escritor, geógrafo e contador de causos. Leia outros textos

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Daniel Lamir