Política

Nas ruas, clima ainda é de desinformação sobre motivos para impeachment

Questionados se apoiam ou não afastamento de Dilma Rousseff, entrevistados em SP mostram descrédito na política

São Paulo (SP)

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Processada por questões orçamentárias, o motivo pelo qual Dilma provavelmente será afastada é um ponto de confusão e desinformação / Lula Marques/Agência PT

No dia em que a admissibilidade de processo de impeachment é votada no Senado, que pode afastar a presidenta Dilma Rousseff (PT) por 180 dias do cargo, pessoas entrevistadas pelo Brasil de Fato na capital paulista mostram-se desesperançosos e desacreditados da política.

O ritmo do Terminal Parque Dom Pedro II, no centro da cidade, seguia normalmente. Entre as pessoas que se recusaram a falar, algumas por timidez e muitas alegando "não entender de política" e, por isso, preferiam não dar opinião. É nítido também o sentimento de que os gabinetes estão cada vez mais alheios ao cotidiano das pessoas.

"Eles falam por eles mesmos lá dentro. Dizem que nos representam, mas não é verdade", diz a vendedora Deise Moura, 33 anos. Ela ainda não tem um posicionamento definitivo sobre o processo de impeachment. "Se ela [Dilma] fez algo errado, ela deveria pagar. Mas acho que deveria ter sido investigado melhor", questiona.

A vendedora se diz a favor de que a população tenha acesso irrestrito a informações dos governantes. "A gente tem que saber um pouco mais de todos os políticos. O acesso à informação é muito vantajoso", disse. Mas, para Deise, não haverá alteração significativa na crise econômica com Michel Temer (PMDB) assumindo o cargo de presidente. "Eu acho que não vai mudar, porque ele vai governar para os ricos. Mas parece que ele está prometendo fazer uma revolução ali dentro, começando por cortar muitos ministérios", apontou.

O operador de injetora Josualdo*, 38 anos, tem a mesma sensação. "A gente vota, acreditando que eles vão mudar algo, mas depois não os conhecemos mais. Promessas são fáceis". Ele relata que em 2014 não votou nem no PT e nem no PSDB. E, sobre o impeachment, está em cima do muro.

"Por um lado, vejo que a Dilma fez bastante coisa para nós pobres, para os negros: faculdade, Bolsa Família. Por isso, deste ponto de vista, acho o impeachment uma injustiça. Mas por outro, tem essa crise, dizem que ela desviou verba”, disse Josualdo. Questionado sobre a responsabilidade de Dilma, ele afirma "que ela não governa sozinha", mas enxerga o ambiente da política institucional como "uma máfia". "Aquilo [Congresso] é uma cúpula. Não adianta. São muito os corruptos", avaliou.

Processada por conta de atrasos em repasses do Tesouro Nacional para bancos públicos, o motivo pelo qual Dilma provavelmente será afastada é um ponto de confusão  e desinformação entre as pessoas. "Que crime ela cometeu mesmo?", questiona Josualdo. "É um crime contra a população? Econômico? Sinto que isso não está bem explicado", reclamou.

No entanto, para a estagiária Jéssica Cândida, 24 anos, "não houve crime" e esta é a razão que a faz ser contra o processo instaurado contra a petista. A estudante, que não votou em Dilma, acha que a presidenta deveria terminar o governo. "Se quisermos mudar algo, temos que esperar uma outra eleição", disse.

É o mesmo que pensa a cabeleireira Milka Correia, 21 anos. Ela é contudente ao dizer que considera o impeachment um golpe.  "Ela não cometeu nenhum crime. E colocar o Temer é piorar a situação, porque ele é acusado de corrupção". Milka afirma que não votou em Dilma porque ainda não tinha título de eleitor na época, mas que ela apoia o governo. "E tem um componente de machismo nesse golpe, né? É a primeira presidente mulher do país", avaliou.

A atendente de cobrança Maria Teresa Rocha, 37 anos, diz que não apoia o impeachment por causa de Temer. "Apoiaria se não fosse ele que entrasse. Ele teria que mostrar que vai fazer diferente", declarou. Para ela, que votou em Dilma nas eleições em 2010, a presidenta "errou muito". Maria afirma que o que a fez se decepcionar com o governo foram "coisas que ela prometeu e não cumpriu", por isso, nas eleições de 2014, votou nulo.

Quem apoia firmemente a saída de Dilma é o vigilante José Carlos de Jesus, 43 anos. Ele diz que há tempos não vota mais em ninguém, pois tem o título de eleitor do estado da Bahia, região do município de Itabuna, e nunca regularizou em São Paulo. "Eu acho é bom ela sair. Ela roubou muito. E olha o tanto de desemprego", criticou. A presidenta, no entanto, não responde por crime de corrupção. Ele se mostra ainda desesperançoso, seja qualquer o governo que entre. "Disseram que vai melhorar com ele. Mas sempre dizem isso. É só, ó [aponta para o pescoço], gogó", declarou.

A professora Vanda*, 58 anos, prefere não dar nenhuma sentença."Não tenho muito interesse, porque sei que nada muda", afirmou.

No Terminal Sacomã, na zona sul de São Paulo, o representante comercial aposentado Nelson* lia a Revista Veja. Para ele, "passou da hora" de Dilma sair do governo. Ele concorda com o impeachment porque se diz contra o PT desde o começo. Ele sempre vota no PSDB. "Única vez que tive que fazer uma escolha fora, foi entre [Paulo] Maluf e [Luiza] Erundina [ambos deputados estaduais e concorriam a prefeitura de São Paulo, em 1988]. E votei no Maluf [na época, do PDS e, atualmente, do PP]", disse.

"Mas o PT não é o único partido corrupto. Só tirando todo mundo que está ali", criticou. Para ele, as pautas prioritárias para a mudança do cenário político são a reforma tributária e a reforma da previdência.

No Sacomã também estava a aposentada Rituko Ariki, 72 anos. Ela votou em Dilma nas últimas eleições presidenciais, mas afirma não saber se o processo de impeachment é correto ou não. "Olha, não entendo de política. Mas foi o que senti. Votei nela porque queria uma mudança. Só homem, só homem. Achei que uma mulher poderia mudar um pouco as coisas", disse. E Rituko acha, mesmo não tendo opinião formada, que a presidenta não deveria deixar o cargo. "Acho que não é bom ela sair agora", disse. A impressão dela é que a oposição atrapalhou o trabalho da petista. "As pessoas só reclamam e não fazem nada. Cada um tem que fazer sua parte também. E trabalhar pelo Brasil. Entender como a gente interfere no governo", disse.

* Entrevistados não quiseram informar o sobrenome

Edição: Camila Maciel