CRÔNICA

Dois pares de olhos

"A vida é uma memória muscular"

Recife

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Roberto Efrem Filho - ou Beto, como gosta - é do Recife e, vez ou outra, atrapalha-se com as palavras, nas redes sociais ou, agora, nestas páginas. / Arquivo pessoal

 

Subiu a Dalva de Oliveira com a cidade sobre os ombros. Pesava. A cada metro diagonal da ladeira, uma praça ou um prédio pendia e Ele, inseguro, contorcia-se para evitar maiores deslizamentos. No balanço, a Ponte de Ferro chegou a se chocar com a Ponte do Limoeiro; ruiu o casario da esquina direita da Rua Velha com o Pátio de Santa Cruz; um boy, 14 anos, duas perfurações na pele escura, a polícia disse “bala perdida”, a polícia disse “acidente”, a polícia disse “resistência”, morreu. A Torre Malakoff chorou o cais. Em cima, no Alto Santa Terezinha, o Clube Bela Vista O recebeu. A festa já havia começado. Com ela, Ele. Entre os casais de dançantes, Ele desatou sua dor. Solidão, Miró, é se deixar fechar os olhos no pescoço do Outro e, num passo desencontrado, perceber que os olhos do Outro se perdiam abertos e constrangidos no salão. Solidão, Miró, é aquela corda espessa nas mãos de Roger, as gotas de Rivotril numa noite de domingo e adeus, adeus, adeus. Solidão, Miró, é desconhecer quem empunhou a arma e lhe ausentou a vida. A vida é uma memória muscular. Ele, então, dançou. E quando “Si yo pudiera” anunciou seus primeiros acordes e os dançantes mais experimentados ocuparam seus lugares no velho salão, a cidade também dançou. A Rua da Concórdia descansou os dedos à nuca da Rua do Hospício; o Mercado de Casa Amarela ensaiou um dois-pra-cá-dois-pra-lá íntimo e lento com o Mercado de Afogados; Miguel adormeceu menino e miúdo, no colo da mãe, com um vento de agosto que algum movimento dEle suscitou. As janelas do Edifício Pernambuco raiaram centenas de baobás na Praça da República. Ele recolheu a dor restante, saiu do clube, desceu a Dalva e singrou o Recife, agora não mais sobre os ombros, agora não mais uma cidade, agora um par. Dois pares de olhos úmidos e cerrados.