GOLPE

Forças conservadoras atentam contra a democracia no Brasil, apontam especialistas

Entrevistados indicam que a resistência às políticas contra conquistas dos trabalhadores é o desafio dos movimentos

São Paulo

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Maioria dos integrantes do Senado Federal responde a processos na Justiça. / Geraldo Magela/Agência Senado

O processo de impeachment de Dilma Rousseff está na etapa final. Na segunda-feira, 29 de agosto, dia histórico em que a presidenta compareceu ao Senado para fazer a sua própria defesa, o Brasil de Fato realizou um debate para analisar o momento político atual e as perspectivas para o futuro. Participaram do debate a historiadora Joana Monteleone, o economista Gustavo Codas e Gilberto Cervinski, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

Durante o debate os analistas abordaram a natureza do golpe contra a presidenta Dilma, assim como a composição do bloco que o conduz. Quem analisou em detalhe os atores do golpe foi Gilberto Cervinski:

Nós não temos dúvida que aqui no Brasil o que está ocorrendo é parte de uma estratégia do setor empresarial, daqueles setores do capital mais hegemônico. Vemos isso na FIESP, no capital internacional, em vários setores da economia, que historicamente quando a classe trabalhadora teve períodos positivos de ganhos, posterior a isso as elites brasileiras aplicaram golpes e um processo muito duro contra a classe trabalhadora de retirada de direitos. E geralmente com medidas de extrema perseguição aos setores organizados da classe trabalhadora.”

Analisando a história recente, Gustavo Codas, que foi assessor de Relações Internacionais da Presidência do Paraguai na gestão de Fernando Lugo, denunciou as ações antidemocráticas que setores conservadores estão tomando para retornar ao poder por vias não eleitorais.

Com este processo do impeachment da presidenta Dilma, as forças conservadoras tentam colocar por via do impeachment, do golpe que está em curso, limites aos processos de transformação da sociedade. O que nós vemos na região é que, de um tempo pra cá, tem uma contraofensiva conservadora, baseando-se numa desestabilização econômica, junto com uma desestabilização política como a que vivemos no Brasil, mas que se vive também na Argentina e na Venezuela.”

Os três analistas coincidiram em que o golpe em curso é também um ataque às mulheres. Em resposta a uma questão feita online por uma leitora do Brasil de Fato, Joana Monteleone abordou essa questão:

É um golpe que atinge todas as mulheres, num momento em que o feminismo tem colocado pautas importantes pra sociedade, pautas da violência contra a mulher, do direito ao corpo, do direito ao aborto. Então esse é um momento chave para que novos direitos tenham aparecido; o movimento feminista ressurgiu nos últimos anos com uma força muito grande e houve um contrafluxo, uma resposta a esse movimento na destituição da presidenta Dilma, que é contra a mulher. Então essa misoginia aparece, por exemplo, nos ministérios sem mulheres. Então eu acho que o feminismo e a luta por direitos das mulheres é uma maneira de resistência, e daqui pra frente o feminismo vai ser uma bandeira muito importante pra essa resistência.”

Os entrevistados indicam que a resistência frente a políticas de Estado contra os direitos e as conquistas dos trabalhadores e trabalhadoras é o desafio dos movimentos populares. Eles concordam na análise de que o processo de golpe não seria somente contra Dilma Rousseff, mas significa uma ofensiva contra a democracia.