Umbanda

Axé Ilê Obá, legado de luta e resistência da cultura afro-brasileira em São Paulo

Terreiro carrega o legado de luta e resistência da cultura afro-brasileira em SP e foi o primeiro tombado na cidade

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Posse Ya Paula de Yansã no terreiro Alé Ilê Obá / Reprodução

Chegar ao Axé Ilê Obá e subir as escadarias que dá acesso ao amplo barracão é uma experiência única de encontro com a ancestralidade e acolhimento em um espaço mantenedor de Axé. Localizado em Jabaquara, zona sul da capital, o Terreiro Axé Ilê Obá (http://www.axeileoba.com.br/) carrega o legado de luta e resistência da cultura afro-brasileira em São Paulo e foi o primeiro terreiro tombado na cidade, ou seja, reconhecido como patrimônio justamente por um órgão público, o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico).

Enquanto aguardava a Yalorixá Paula Egydio para a entrevista, observei que membros da casa realizavam atividades de cuidado e manutenção do espaço. Ao centro do barracão, está a coroa de Xangô, onde se encontram todos os fundamentos da religiosidade do Ilê, mais tarde saberíamos que tudo ali foi estrategicamente construído com orientação da espiritualidade, da orixalidade. “Nenhum ponto aqui no Axé Ilê Obá, estrutural e de fundamento, foi feito por coincidência”, compartilha Mãe Paula.

Ao redor as paredes brancas contrastam com o piso de azulejos vermelhos e exibem os quadros dos Orixás, encomendados por mãe Sylvia de Oxalá como forma de fortalecer o respeito à tradição ao culto e cultura dos Orixás. Não foi a primeira que estive no Axé Ilê Obá, porém é e sempre será gratificante retornar a lugar religioso sagrado que emana amor, respeito e sabedoria.

Logo devo ressaltar que entrevistar Mãe Paula de Yansã e escutá-la sobre a história do Axé Ile Obá, as lutas e conquistas do Paio Caio de Xangô e da Mãe Sylvia de Oxalá, afirma o fato de que é fundamental falarmos sobre a diversidade religiosa brasileira, essencialmente as afro-brasileiras, que embora sejam historicamente criminalizadas, são fundamentais para a memória cultura afro religiosa em nosso pais.

Como tudo começou

A história do Axé Ilê Obá começa na década de 50, no centro da capital paulista, quando Pai Caio de Xangô, tocava a Congregação Espirita Beneficente Pai Jerônimo Terreiro de Umbanda e Candomblé, no bairro do Brás. O culto já mesclava práticas da Umbanda com o Candomblé Ketu e Angola.

Após inúmeros fatores, entre eles o aumento de consulentes, Paio Caio sentiu não apenas a necessidade de mudar para um outro local, mas também a de se iniciar no Candomblé de nação Ketu e assim cumprir com sua responsabilidade e comprometimento religioso.

Durante as viagens feitas a cidade de Salvador entre 1950 e 1960 ele foi orientado por Mãe Menininha do Gantois e Tia Massi do Engenho Velho a formar um terreiro de Candomblé consagrado a seu orixá Xangô. Isso o direcionou em suas atividades religiosas.

A especulação imobiliária na região central fez com que Pai Caio transferisse o Terreiro para o Jabaquara, onde outros terreiros já estavam estabelecidos. Inicialmente a comunidade religiosa vai para a Rua Mucuri. Porém, somente em 1975 se estabelecem na rua Azor Silva, local onde o templo funciona até hoje.

Mãe Paula relata que ao buscar um espaço de construção do “Palácio para Xangô”, ele [Paio Caio] procurou um local onde atendesse os requisitos da religião, cuja crença está nos Orixás serem os elementos da natureza. Na época, Jabaquara ainda era um Distrito de São Paulo, menos urbanizado e próximo a mata do estado,fundamental para os rituais do Candomblé.

Sacerdote e artista, Paio Caio construiu o Axé Ilê Obá com determinação, esforço e coragem para enfrentar o preconceito, a perseguição e tortura.

Ele [Paio Caio] era um guerreiro para manter a religião viva, para manter a tradição, o culto e cultura dos Orixás, dando continuidade a sua missão de vida”, comenta mãe Paula.

A segunda geração foi coberta pelo Alá de Oxalá

Por 34 anos Pai Caio de Xangô esteve no comando do Axé Ilê Obá e preparou sua sobrinha Sylvia Egydio, sem que ela soubesse do fato, para ser sua sucessora. Definindo desta forma o critério de sucessão por hereditariedade.

No inicio, Mãe Sylvia de Oxalá ajudava no terreiro, mas não estava em seus planos se dedicar à vida religiosa do Candomblé e muito menos ser a Yalorixá da casa fundada pelo seu tio, Caio Egydio.

Ela fugia um pouco do terreiro, era uma mulher muito ocupada, achava que não conseguiria conciliar as tarefas”, lembra Paula Egydio, ao falar da mãe.

No entanto, mesmo tendo apenas três anos de santo quando Paio Caio desencarnou, em 1985, a iaô Sylvia de Oxalá, com orientação ética e religiosa das tradicionais casas de Candomblé da Bahia e do Rio de Janeiro, foi conduzida ao cargo para dar continuidade ao trabalho iniciado pelo seu tio e sacerdote, Pai Caio de Xangô.

Mãe Paula ressalta que “no candomblé a hierarquia é de extrema importância” e o fato do Paio Caio não ter falado em público que Mãe Sylvia seria sua herdeira, fez com que esta enfrentasse muitas críticas até pegar todos os fundamentos religiosos necessários.

Ela era uma mãe. Teimosa, tinha suas opiniões bem formadas e um planejamento de vida com ela mesma. Assim lutava contra qualquer tipo de preconceito.” É assim que Paula Egydio saudosamente define Mãe Sylvia.

Essa sua característica incisiva e forte a manteve firme no propósito de garantir sua responsabilidade com a religiosidade. Após sua posse como Yalorixá, enfrentou outro grande desafio, o terreiro corria o risco de ser vendido e demolido para que um mercado fosse construído ali. Ela dividia a posse do terreno com outros familiares que não eram ligados ao candomblé. Para adquirir posse integral, Mãe Sylvia de oxalá, ofereceu em troca sua própria casa. A partir daí, começou sua luta para conseguir o tombamento do terreiro como patrimônio histórico e cultural, e assim proteger esse legado religioso e de culto aos Orixás.

A estruturação do terreiro de candomblé com as casas dos Orixás e as árvores sagradas, permitiu a entrada no processo de tombamento. Mãe Sylvia que já estava munida de todos os documentos necessários e devidamente orientada pelas casas da Bahia começou a jornada para afirmar a importância do Axé Ilê Obá como uma espaço de sociabilidade e representatividade para o culto das religiões de origem negra na identidade cultural paulista e brasileira, em 1987.

Três anos depois, o Axé Ilê Obá foi o 1º Terreiro de Candomblé tombado no estado de São Paulo pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) como patrimônio histórico e cultural.

No dia 14 de agosto de 1990 recebeu o tombamento por sua importância como espaço de preservação das tradições afro religiosas. (https://www.youtube.com/watch?v=KE_k9TMMqew)

Liderança religiosa e politica, Mãe Sylvia de Oxalá, conduziu o Axé Ilê Obá por 29 anos. Sempre atou junto à comunidade com a preocupação em difundir trabalhos no compromisso em prevenir, combater e erradicar o preconceito, a discriminação racial, a xenofobia e a intolerância.

Além disso, idealizou e fundou o “Acervo da Memória e do Viver Afro Brasileiro Caio Egydio de Souza Aranha”, importante território conquistado para preservar e divulgar a cultura afro-brasileira em São Paulo. Hoje, o Acervo está inserido no “Território de Cultura Afro-brasileira Mãe Sylvia de Oxalá” (homenagem póstuma).

Ser filha de Mãe Sylvia de Oxalá é muito emocionante, gratificante e honroso pra mim. Ela vivia para o Orixá e falava que o que dependesse dela lutaria e morria por ele”, frisa Mãe Paula, ao ser questionada sobre como é ser herdeira desse honroso legado.

Terceira geração: continuidade de um legado

Em agosto de 2014, a Yalorixá Sylvia de Oxalá se despediu do Ayê e seguiu para sua nova morada no Orun. Ela que se preocupou em preparar a sucessão da casa para sua filha Paula de Yansã, a deixa com a missão de perpetuar diuturnamente o legado ancestral do culto aos Orixás no Axé Ilê Obá.

Por surpresa da vida, eu com 26, minha mãe com 76, veio a falecer e eu tive que entender o sistema [do terreiro]. Não havia o que questionar. O sonho de Pai Caio era construir um Palácio pra Xangô e fez. Minha mãe, mulher, negra, sacerdotisa, não deixava a peteca cair e lutava”, conta Mãe Paula sobre o processo de sucessão e a continuidade do culto aos Orixás.

Iniciada no candomblé apenas com um ano de idade, Mãe Paula de Yansã sabia que um dia seria “diuturnamente” a Yalorixá da casa. Ela foi conduzida ao cargo em agosto de 2015, juntamente com seu irmão e também sacerdoteEbomi Péricles de Oxaguian, responsável pela manutenção do culto e da hierarquia dentro do Terreiro. Além disso, contam com uma equipe com cargos específicos no Candomblé e de extrema importância que ajudam conduzir o processo de culto aos Orixás.

Sozinho a gente não faz nada. Eu sou herdeira, mas tenho uma equipe maravilhosa, que me orgulho muito nos bastidores, se não nada funciona. Eu sou apenas um elemento na condução disso”, reconhece Mãe Paula, ao falar da forma de organização casa que possui cerca de 200 filhos e filhas, como são chamados os seus integrantes.

Três gerações conduziram a casa de Xangô, o Palácio do Rei. A Mãe Sylvia construiu a transição para que a terceira geração recebesse a condução do Axé sem maiores complicações. Uma vez que com ela foi um processo conturbado.

A relação de amor e sintonia de Mãe Sylvia com seus filhos foi fundamental para que continuassem. “Esse amor de dentro de mim, essa ligação eterna que fez com que eu vestisse as armaduras e fosse para frente… Não é fácil a condução de uma casa de Candomblé, de um Terreiro, é muita responsabilidade, muita dedicação, amor e respeito pelo que você faz”, afirma Mãe Paula.

Memória cultural afro religiosa como resistência

A disseminação da tradição e culto aos Orixás segue perpetuada pela terceira geração do Axé Ilê Obá, que realiza palestras, apresentações e da a oportunidade para a comunidade ir ao local conhecer o que e o candomblé, o que é Orixá e exercitar o respeito ao culto do outro.

É forte o nosso trabalho na disseminação do conhecimento e participação para as pessoas terem a honra do contato com o sagrado” ressalta Mãe Paula.

A sacerdotisa ainda salienta que desmitificar o que é a religião afro-brasileira no imaginário social é fundamental na luta contra a intolerância e pelo respeito ao culto aos Orixás.

Precisamos urgentemente nos unir, todas as casas, de Candomblés e Umbandas. Muitas já fazem esse trabalho de se relacionar com outras casas, mas é preciso harmonia para tentar nos defender e desmitificar as acusações que não tem fundamento no campo religioso”, afirma.

A ascensão do conservadorismo no País acirra a perseguição às religiões afro brasileiras. Praticado por 0,3% da população brasileira, segundo dados do IBGE, os adeptos relatam situações de terreiros incendiados, além de agressões físicas e verbais.

O Disque 100, principal canal da Ouvidoria de Direitos Humanos para registro de denúncias, passou a receber esse tipo de violência. Quando o serviço foi ativado para as denúncias de discriminação por religião em 2011, foram contabilizados apenas 15 casos. Em 2015 esse número subiu para 556 denúncias. Dessa forma, o canal contabilizou um aumento de 3.706% nos registros de denúncias por intolerância religiosa no Brasil.

Desde 2007, o 21 de janeiro foi instituído como a data de Combate à Intolerância religiosa, em reflexão e memória da Yalorixá Gildásia dos Santos, vítima de um dos casos mais drásticos de intolerância religiosa no Brasil.

Neste dia, os povos de terreiros, movimentos e organizações populares, coletivos culturais realizam inúmeras atividades contra a violência sistemática a que os adeptos das religiões afro brasileiras são submetidos.

*Iris Pacheco é Umbandista, Jornalista e Especialista em Teologia das Religiões Afro Brasileiras