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O sonho e a luta de um Pankararu na universidade

Geovann José dos Santos veio de Pernambuco e ingressou este ano no curso de Direito da UFPR

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Estudante indígena afirma que o atual modelo de universidade conduz ao individualismo / Daniel Giovanaz

Geovann José dos Santos pertence à etnia Pankararu e nasceu há 26 anos em uma comunidade próxima ao município de Petrolândia, na região do Vale do Rio São Francisco, em Pernambuco. Aos treze, após o divórcio dos pais, migrou com a mãe para a zona urbana.

Dos três irmãos, ele é o único que faz faculdade. Em 2015, iniciou o curso de Ciências Biológicas na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no interior de São Paulo, mas decidiu mudar de área: “Acho que a visão que nós indígenas temos se assemelha mais àquilo que propõem as ciências humanas”.

Desde o início do ano, Geovann estuda Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR). O primeiro desafio foi a moradia. Como Curitiba não tem uma casa para receber estudantes de baixa renda, ele chegou a cogitar a ideia de dormir no chão de uma das pró-reitorias da universidade. Após provar que a mãe é beneficiária do Bolsa Família, conseguiu uma ajuda de custos emergencial para alimentação e habitação.


Cada dia de luta será o Dia do Índio


Em sala de aula, ele afirma que alguns professores ignoram a presença dos estudantes indígenas. “Eles acabam passando uma metodologia de ensino homogênea, que eles consideram universal. Mas a gente teve uma educação diferenciada, mais baseada na oralidade”, analisa. “Esse é um desafio muito grande, e não há nenhum tipo de apoio pedagógico”.

O vínculo entre a universidade e o mercado é, segundo Geovann, um dos problemas mais graves da educação nas sociedades não-indígenas. “A gente é levado a entrar em uma lógica que fomenta o sistema capitalista, o individualismo”, critica o estudante, que decidiu cursar Direito justamente para enfrentar esse modelo. Cerca de 13% do território brasileiro é formado por reservas indígenas, cada vez mais ameaçadas por interesses mercadológicos. “E a gente só vai poder garantir a posse coletiva dessas terras quando adquirir esse conhecimento institucionalizado, da academia”, completa.

Questionado sobre a importância do dia 19 de abril, Geovann defende que a data deve ser lembrada sob uma perspectiva política: “Enquanto não forem reconhecidos os nossos direitos, enquanto houver agressão, enquanto o sistema tentar tirar nossas terras, nós vamos lutar. E cada dia de luta será o Dia do Índio”.

Edição: Ednubia Ghisi