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Bárbara Lia ainda lê, faz poesia e cobra atitudes das mulheres

Escritora nascida em Assaí, norte do Paraná, faz de personagens femininas as protagonistas de suas histórias

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Em sua obra, as mulheres são protagonistas e os homens, coadjuvantes. “Já basta eles estarem à frente na vida real” / Maria Alice Bragança

Barbara Lia puxa da estante alguns livros de poesia que encadernou manualmente. São títulos impressos em sua própria casa e costurados com barbante, em formato de trança. Cada um deles faz parte da coleção que Bárbara nomeou como 21 Gramas – o peso do beija-flor, ou, também, conforme algumas teorias, o peso da alma humana. “Sempre escrevo sobre mim”, confessa a escritora. “Não sou capaz de relatar o que não vi, não vivi, não senti”.

Ao todo, ela reúne 12 livros (a maioria, romances) publicados por editoras e 40 coletâneas de poesias produzidas por ela, de forma artesanal. Em 2004, lançou o primeiro título: um pequeno exemplar de bolso intitulado “O sorriso de Leonardo”, que chegou ao público pela Kafka Edições Baratas. “Comecei a escrever mais e mais depois de me aposentar. Antes, trabalhava o dia todo: lia e escrevia conforme possível, e não tinha todo o tempo que tenho agora”, conta.

Uma parte de sua produção poética e as atividades literárias da escritora são publicadas em seu blog. “Antes, o site se chamava Chá para as borboletas. Depois, mudei: agora o projeto é Chapar as borboletas”, ri. A brincadeira com as palavras, prática típica dos poetas, permitiu a Bárbara ressignificar o título virtual de seu trabalho, compondo entre o nome antigo e o atual uma mensagem de transição.

Herança de família

A escritora relembra sua infância, quando lia almanaques e os poemas favoritos do pai, de autores como Gonçalves Dias e Castro Alves. “Eu não queria ser poeta porque pensava que teria que escrever como eles. Depois, mais velha, percebi que a poesia pode ser tudo, tem liberdade de temas e de formas”, explica. Em Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque descobriu a beleza dos versos simples e das composições populares, que inspiraram seus primeiros passos como escritora.

Por muito tempo frequentou a Biblioteca Pública do Paraná, no centro de Curitiba, onde passava tardes lendo obras de diversos autores. Durante um período, em 2011, Bárbara voltou sua atenção ao trabalho completo de Fernando Pessoa, que acabava de ser disponibilizado na internet. Leu tudo o que o escritor português produziu, empreitada que resultou numa série de poemas inspirados em Pessoa e seus heterônimos (nome dado à prática de alguns autores que criam outras personalidades para assinar seus textos, como se fossem pessoas reais). “Eu nunca escrevia sonetos e nessa época dei vida a vários, emprestando a voz desses personagens”, rememora Bárbara. “Neles dialoguei com os amores de Ricardo Reis, com o livro do desassossego, compus a neve se despedindo de Caeiro”, relata, em referência a um de seus poemas. Neste, a neve canta sua saudade de Alberto Caeiro, o heterônimo mais ligado à natureza dentre os mais de 70 personagens criados por Pessoa.

Em sua obra, as mulheres são protagonistas e os homens, coadjuvantes. “Já basta eles estarem à frente na vida real”, comenta a escritora. Mostra a capa de três de seus livros – Constelação de Ossos, Forasteira e As Filhas de Manuela –, cada um deles com uma mulher virada de costas. “Elas estão assim porque eu virei as costas para o mundo”, diz.

Apesar da atmosfera feminista em torno de si e sua casa, ela se considera "fêmea". Para Bárbara, a designação representa quem tem mais prática do que discurso, quem mais é e age do que fala. “Acredito que as mulheres precisam tomar posse, ter atitudes. Eu me separei do meu ex-marido porque ele não me deixava escrever. Não tive medo. Depois do divórcio, entrei de vez na literatura”, relata.

Entre as memórias, lembra-se de quando recebeu uma proposta de trabalho, mas o salário era equivalente à metade do valor que um homem recebia para executar as mesmas tarefas dentro da mesma empresa. Revoltada, recusou a oferta. “Essa liberdade feminina pode ter um preço, ou às vezes pode nos deixar a sós. Mas precisamos tomar posse. Temos que entender que somos tão importantes quanto os homens e levar essa percepção para a nossa vida prática”.

Edição: Ednubia Ghisi