2018

Doria, Bolsonaro, Huck: professor analisa cenários das eleições para a direita

Para Luís Felipe Miguel, da UnB, direita não defende seu programa de forma aberta

Brasil de Fato | Brasília (DF)

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Ambos representam a dificuldade do campo conservador em encontrar um nome competitivo para 2018. / Reprodução

Dois dos “novos nomes” da direita que pretendiam disputar o Palácio do Planalto viram suas pretensões se desfazerem rápida e recentemente: Luciano Huck e João Doria. Ambos representam a dificuldade do campo conservador em encontrar um nome competitivo para 2018.  

Em entrevista ao Brasil de Fato, Luis Felipe Miguel, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), diz que a direita vive esse momento por não poder defender seu programa de forma aberta para o conjunto da população, cuja maioria tem preferido Lula, segundo as pesquisas.

Confira a entrevista completa:

O que explica a dificuldade da direita em encontrar um nome eleitoralmente viável?

Exatamente porque o sujeito que quer se colocar como candidato da direita fica em uma situação muito ambígua: para garantir o apoio dos setores da burguesia, do capital internacional, dos grupos privilegiados em geral, ele tem de ter o discurso oposto ao que permite ganhar votos majoritários. O ajuste fiscal, o fim dos direitos trabalhistas, a desnacionalização da economia.

Nenhuma dessas propostas jamais foi capaz de ganhar uma eleição nacional no Brasil em toda história. Tivemos governos eleitos que tentaram implementar isso, mas seu discurso de campanha nunca pode ser esse. Nesse momento, é curioso a gente verificar que os pré-candidatos da direita estão no momento de se mostrar o mais pró-mercado possível. Mas eles não vão poder chegar à campanha eleitoral com esse discurso. Então o que eles vão fazer? Voltar ao discurso da corrupção, mas isso está desgastado pelo governo atual, de direita, e talvez o mais corrupto de todos os tempos. Esse é o problema.

No Brasil, com sua desigualdade abissal, por mais que eles tenham uma campanha de influenciar a opinião pública, não há como chegar na rua e dizer que vai se acabar com o SUS. O Ministro da Saúde até disse, mas teve que recuar. Não tem como dizer que você vai acabar com a escola pública e é contra política de transferência de renda. Não há como defender o Estado mínimo em um país como o nosso e ambicionar ganhar uma eleição. A direita tem esse problema, seu discurso não passa pelo teste das urnas. 

Eles teriam outra alternativa a esse cenário?

Eu acredito que uma alternativa que não deve ser descartada é a introdução do parlamentarismo. É a maneira que eles têm de retirar os problemas nacionais da disputa eleitoral, porque a disputa para o Congresso tende a ser paroquializada. Então não se tem esse embate e, com isso, eles podem obter a maioria do Congresso. E, com o parlamentarismo, controlar a máquina do Estado. Não terá batido o martelo do parlamentarismo porque os candidatos deles têm os seus sonhos pessoais. Do ponto de vista da racionalidade do campo da direita, é a melhor a opção.

A democracia foi uma concessão arrancada da burguesia. Quanto mais o povo tem capacidade de interferir, mais problemático se torna a manutenção da dominação da forma como eles desejam. Tudo que pode restringir a capacidade de influência popular é benéfico para a direita. 

Eles podem tirar da cartola algum nome. Falaram de Luciano Huck, têm inventado coisas completamente estapafúrdias. É a ideia de um nome que seja capaz de fugir do debate. Se for debater as questões centrais da agenda, eles não têm condições de angariar maioria. 

No fundo, há uma contradição entre democracia e interesses de mercado. É isso?

Sim. Há uma característica nova na forma de fazer política. Apesar de ainda termos o controle da informação pelas corporações, há uma circulação de informações maior. Aquela prática antiga de fazer acertos de portas fechadas e uma campanha pública completamente oposta é cada vez mais difícil de ser mantida. Falam de Henrique Meirelles, de Paulo Rabello, do Partido Novo, que são os candidatos do mercado. Aí tem o Bolsonaro tendo que publicamente acenar com desnacionalização da economia e Estado mínimo, mas a base de direita dele não necessariamente está de acordo com essa agenda. Isso vai ter impacto conforme for ganhando maior visibilidade. Eles estão em uma sinuca complicada.

 A eleição se mostra sempre um momento de tensão para a reprodução das relações de dominação. Mesmo com baixa educação política, se existe o mínimo de campanha eleitoral, as grandes diferenças entre os campos acabam se tornando visíveis.

Edição: Simone Freire