Literatura

O Sertão, o mundo das contradições e a travessia do amor

Publicado em 1956, é um livro explosivo

Brasil de Fato | Recife (PE)

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O escritor desafinou e afinou esta grande obra, inicialmente pensada como parte da trilogia "Corpo de Baile" / Divulgação

“O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam.”

Esse trecho, explica o sentido profundo de Grande Sertão Veredas, o sentido da travessia, das batalhas, da ação e reflexão, contradições e mudanças que movem, transformam e constroem a realidade do mundo. Guimarães Rosa desafinou e afinou esta grande obra, inicialmente pensada como parte da trilogia "Corpo de Baile", mas seus personagens foram crescendo e se tornando obra única e própria.

Publicado em 1956, é um livro explosivo, a mistura de gêneros literários do modernismo com regionalidades e neologismos e forte influência barroca com a narrativa carregada de contradições e ambiguidades expressas no encontro dos personagens centrais, Riobaldo e Diadorim.

Segundo Antônio Cândido, Grande Sertão Veredas supera o regionalismo com o regionalismo, criando uma nova categoria literária surregionalismo para tratar de temas universais.

Riobaldo é Homem incomum, "fora do lugar", Jagunço que pensa melhor do que luta, religioso que pactua com o diabo pela incerteza de sua própria coragem, e se apaixona por outro. Como narrador e não se preocupa com a ordem cronológica, mas com o rumo de suas memórias. Em conversa com o personagem ausente, o "moço", "Senhor", revolve suas lembranças, quando conhece Reinaldo/Diadorim, menino que segura sua mão na travessia do São Francisco.

Diadorim por sua vez é "guerreira donzela", disfarçada de homem para existir, e depois lutar e vingar a morte de seu pai. Movida pelo ódio e determinação, no meio de jagunços, nem o amor de Riobaldo a faz quebrar o silêncio que esconde e denuncia o feminino.

O contraste entre a presença forte, determinada e rude e o silêncio lírico e poético de Diadorim, atravessa a vida de Riobaldo, que realiza seu plano ao mesmo tempo que perde seu amor. Diadorim é seu guia, o leito e a margem que o arrasta para toda a potencialidade transformadora que o leva ao único lugar de todas as suas buscas, a condição de ser.



*Diva Braga é mineira, publicitária e militante da Consulta Popular.

Edição: Monyse Ravenna