Carta

Artigo | De Darcy para Lula: chore hoje, lute amanhã

Cada vez que um político nacionalista revisa a institucionalidade, as classes dominantes apelam à repressão

Darcy Ribeiro foi um dos maiores antropólogos brasileiros e autor do livro O Povo Brasileiro. / Luciana Whitaker

Meu caro Lula,

Outra vez eu me sirvo deste menino que faz o tal Tijolaço para ser meu cambono. Medíocre, é verdade, mas é quem está à mão, fazer o quê?

Para ver se revolvia a sua terra pouco fértil, mandei-lhe uma emanação, aqui do éter, para que ouvisse o que falei no enterro do Gláuber Rocha. Claro que não porque você esteja morto, como eu e ele, mas porque te quero sugerir que, como ele, esta noite, chore.

Eu disse lá: “O Gláuber chorava, chorava convulsivamente. O Gláuber chorava a dor que todos devíamos chorar,  a dor de todos os brasileiros. O Gláuber chorava as crianças com fome, O Gláuber chorava um país que não deu certo, o Gláuber chorava a brutalidade, a mediocridade, a estupidez”… 

Pois então, meu caro Lula, sinta-se livre hoje para chorar. Não por você, que sei, por já ter tido a sua idade e um câncer como você, sei que não liga mais para si mesmo. Nem eu, que me amava tanto e tão profundamente, dava muita importância a mim, a não ser pelo que podia fazer, dizer e escrever. E nesta ordem.

Chore, Lula, chore. Mas chore só hoje.

Que amanhã, como você se acostumou, é dia de ir cedo para a fábrica. Porque é muito parecido, não é? Moldar ideias é como moldar metais: é duro, cheio de asperezas e sujeito a acidentes que nos machucam. E é pior, até, porque não tem descanso, nem fim de semana, e a falta de uma rede nos faz doer as costas de macunaímas.

Lula, os estatutos desta gafieira onde me encontro – não sei se é celeste ou infernal, porque não entendo um céu sem pecados e nem um inferno sem virtudes – impedem-me de te revelar o futuro.  Posso apenas te dizer que não é fácil como o de quem morre e vira santo, porque depois que a gente desencarna, até os cínicos nos aplaudem.

Quando a gente está vivo, nos acusam de tudo. A mim, usaram uma foto para dizer que eu me aliava a banqueiros do jogo do bicho. Como é que eu ia ser Secretário de Cultura do Rio de Janeiro, fazer o Sambódromo e cuidar do Carnaval sem encontrar os bicheiros das Escolas de Samba?

Nos limites em que Deus controla minha língua – sou justo, não me reprime nos diálogos que travamos, porque Deus é onisciente mas aceita a dúvida, ao contrário dos bobalhões togados que te condenaram hoje, posso te contar só um pouquinho.

Posso contar, apenas, o que já escrevi, e mando este menino que cavalgo mentalmente agora, vá buscar no meu “O Povo Brasileiro”:

Cada vez que um político nacionalista ou populista se encaminha para a revisão da institucionalidade, as classes dominantes apelam para a repressão e a força.

Eu mesmo sofri isso, como auxiliar de Jango. Só me deixaram voltar aos Brasil quando acharam – como vão achar você – prestes a morrer de um câncer que me levou um pulmão. Por isso, te digo, o que é ser preso perto de estar na iminência da morte?

Não é a primeira vez que escrevo sobre você. A primeira foi quando ainda estava por aí, em 1989, e desabafei:

Estou me cansando de ouvir falar de Lula com descaso. Qualquer advogadinho idiota, porque formado, se acha melhor que ele, mais preparado para governar. Um intelectual desses que leu meia dúzia de livros ou escreveu qualquer bobagem, um tecnocrata que desempenhou bem ou mal algum cargo, todos se acham melhores que Lula e falam dele sem sombra de respeito. Por que? Essa gente pensa que o exercício do poder, em postos de alta responsabilidade, cabe a uma categoria particularíssima de pessoas, na qual não incluiriam jamais um ex-operário ou um líder sindical, ainda que muito bem-sucedido.

Não errei, não é?

Nem eu nem você quisemos ser mártires – e eles, os grandões, também não querem, porque não há mídia que seja capaz de vencer mártires.

Mas estes caras são tão imbecis, tão idiotas, que nos fazem isso. Como eles são filhos e netos de senhores de escravos, acham que nos atar ao tronco e vergastar, vai encher de medo a senzala.

Na hora, sim, que ninguém é bobo de querer o chicote no lombo, mas lhes vai endurecendo o couro das mentes e  deixando que elas não aceitem mais a servidão.

Então, Lula, chore esta noite e acorde amanhã livre de rancores. Como um negro fugido, que os capitães de mato querem enjaular, seja sabido.

Eles verão um nordestino, que mal escapou de ser gabiru, virar ainda mais gigante.

Agora, por favor, não me obrigue mais a estas comunicações psicográficas e deixe que eu as reserve para a Dona Diva, aquela negra linda da Feira Literária de Parati, que é linda e 20 e tantos anos mais nova que eu -que a Catherine Deneuve nos abençoe.

Quando eu mandar, daqui, uma edição revisada de O Povo Brasileiro, prometo, cuido do que você é, a metamorfose ambulante com que se define.

Mas, antes, estou observando a borboleta voar.

* Fernando Brito é editor do site Tijolaço

Edição: Tijolaço