Justiça

Milhares de pessoas se despedem da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro

Do lado de fora da Câmara dos Vereadores, uma multidão prestou homenagens à parlamentar

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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A cerimônia, que aconteceu no Salão Nobre da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, foi restrita a amigos e familiares / Pablo Vergara

“Companheira me ajuda que eu não posso andar só, eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor”. Foi com esses versos que milhares de pessoas se despediram da vereadora Marielle Franco (Psol) durante seu velório e do motorista Anderson Pedro Gomes na tarde desta quinta-feira (15). A cerimônia, que aconteceu no Salão Nobre da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, foi restrita a amigos e familiares.

Do lado de fora do parlamento municipal, uma multidão de pessoas fez vigília e prestou as últimas homenagens à vereadora, de 38 anos, assassinada na noite de quarta-feira (14), após participar da roda de conversa “Jovens negras movendo as estruturas”, no bairro da Lapa, no centro da cidade.

Marielle era justamente uma mulher negra que movia estruturas. Ela tinha chegado há apenas um ano no parlamento municipal carioca, com mais de 40 mil votos, sendo a quinta mais votada nas últimas eleições, e incomodava ao pautar no plenário discussões sobre feminismo, aborto, racismo e fazer denúncias contra o massacre da juventude negra nas favelas cariocas.

Para o deputado federal Chico Alencar (Psol-RJ), a atuação política de Marielle comprova que seu assassinato é um quebra cabeça fácil de ser montado. “Ela foi morta, destroçada, destruída por facínoras, com indícios fortíssimos de grupos de extermínio e execução. A precisão dos tiros na cabeça é de quem tem experiência de matança. Agora só nos resta ter forças para cobrar com toda a veemência uma apuração séria. Sem essa de que 90% dos crimes de homicídios não são apurados no Brasil. Tem que ser! Nós vamos aclamar, insistir, não deixar cair no esquecimento. É muito grave isso que aconteceu, é um crime contra a democracia no Brasil”, afirmou. 

Procurada pelo Brasil de Fato a assessoria de imprensa da Polícia Civil afirmou em nota que o novo chefe de Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, se reuniu, na manhã desta quinta (15), com o deputado estadual Marcelo Freixo e os delegados Fábio Cardoso e Giniton Lages, que estão assumindo as titularidades da Divisão de Homicídios e da Delegacia de Homicídios da Capital (DH/Capital), respectivamente. O encontro teve por objetivo reiterar o compromisso da Instituição nas investigações da morte da vereadora.

Durante a vigília em frente a Câmara Municipal, milhares de pessoas se manifestaram contra a atuação violenta da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Entre palavras de ordem, cartazes e cantos, as pessoas pediram, principalmente, pelo fim da instituição.

Despedidas

Marielle foi enterrada, também em cerimônia reservada a familiares e amigos, no cemitério de São Francisco Xavier, no Caju, zona norte do Rio, no final da tarde desta quinta-feira (15). O motorista Anderson foi enterrado no mesmo horário no Cemitério de Inhaúma, também na zona norte. A escritora Eliane Alves Cruz, amiga de Marielle esteve na cerimônia e disse estar ainda em estado de choque com a morte da vereadora.

“É uma perda muito grande, mas é uma semente que morre para nascer uma floresta, essa morte na verdade vai fazer brotar o que estava adormecido. Muitas pessoas estão acordando para a violência brutal que a gente sofre. Mesmo ela ocupando o lugar que ela ocupa, olha o que aconteceu. Isso quer dizer que nenhuma de nós está a salvo”, ponderou. 

Eliane conhece Marielle há muitos anos. Ela foi uma incentivadora de seu trabalho como escritora. Além disso, era cliente no salão de beleza de sua madrasta, no bairro da Tijuca. O salão era conhecido como “Quilombo da Tijuca”, por ser um dos poucos a trabalhar exclusivamente com estética afro no bairro de classe média carioca.

Para a estudante Nathalia Silva, de 19 anos, Marielle era uma das poucas referências de força e representatividade negra na política nacional. “Quando descobri a Marielle, me senti muito representada, eu percebi que poderia ser possível, através da instituição fazer a mudança. Com a ideia de progresso a gente acha que as coisas melhoraram, mas recebemos a notícia de que uma militante negra morreu. A gente é alvo, nós negros, somos dados como perigo. Acho que esse momento temos que aprender com os que se foram, trabalhar e se fortalecer para continuar lutando. É uma questão de respeito”, pondera.

Na avaliação de Luís Lobianco, ator do Porta dos Fundos, um dos tantos artistas que estavam presentes no velório de Marielle, é necessário fortalecer as mobilizações para que a população esteja vigilante neste momento.  

“Quando uma pessoa que representa tanta gente é executada dessa maneira, todas as pessoas que ela representa morrem um pouco também. Morre um pouco a esperança. Acho que é muito importante estar aqui, olhar nos olhos de outras pessoas, compartilhar esse sentimento de perda, a nossa cidade deixando de ser a nossa cidade. E aí eu faço a mesma pergunta que ela fez há alguns dias atrás, quantas pessoas vão precisar morrer para que alguma coisa mude?”, questionou.

O crime teve forte repercussão na mídia nacional e internacional, além de grandes mobilizações durante todo o dia pelas principais cidades do país. Marielle é lembrada pelo sorriso largo e contagiante, mas também por ser fortaleza quando necessário. Marielle não caminhava sozinha e continua não estando só.

Edição: Vivian Virissimo