Denúncia

Família de jovem assassinada por PM recebe ameaças após denúncia à Ouvidoria

Namorado e pais da vítima relataram abusos e intimidação por parte da polícia

Brasil de Fato| São Paulo (SP)

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Rhunan Carlos dos Santos e Sueli Maria de Lima, namorado e mãe de Brenda, morta com tiro nas costas por um policial militar à paisana / Reprodução

Na última segunda-feira (2), Brenda Lima de Oliveira, de 20 anos, e seu namorado Rhuan Carlos dos Santos, de 19 anos, voltavam de moto de uma lanchonete quando resolveram passar em frente à casa que pretendiam alugar para morar juntos. Poucos metros depois de entrarem na rua, os jovens foram atingidos por um tiro.

Os disparos partiram da arma do policial Jonathas Almeida Lima e Lima, de 21 anos, que estava à paisana e atirou da varanda de sua casa. Atingida pelas costas, Brenda morreu no local. A mesma bala atingiu Rhunan, que ficou ferido.

A família, indignada com a violência gratuita, denunciou o caso à Ouvidoria Geral da Polícia Militar. No documento lavrado pela Ouvidoria, Rhunan conta que, assim que foi abordado pelo policial, foi questionado se tinha passagem pela polícia, tatuagens e se estava armado. Ainda segundo o relato do namorado de Brenda, ao invés de chamarem a ambulância, mais viaturas foram direcionados ao local e apenas meia hora depois do disparo o socorro médico foi acionado.

A denúncia, porém, atraiu ainda mais problemas às suas vidas, na forma de intimidação por parte de outros PMs. Segundo Adnaldo Silva de Oliveira, pai de Brenda, policiais militares passaram a fazer uma "ronda" diária em frente às residências de amigos e familiares das vítimas.

"Eles estão passando na residência da avó da minha filha. As viaturas de polícia ficam passando e encarando, todos os dias. Revistam as pessoas de lá de perto, os amigos dele, e pedem o celular para ver se tem alguma filmagem", revela.

Além disso, quando a família foi buscar os pertences de Brenda no Instituto Médico Legal, não os encontrou. Segundo funcionários, o material teria sido incinerado. Ariel de Castro Alves, advogado e coordenador da Comissão da Infância e da Juventude do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana de São Paulo (Condepe), aponta que o procedimento é irregular.

"O ouvidor-geral de Polícia, Benedito Mariano, está encaminhando pedido de instauração de inquérito na corregedoria para que o caso não seja apenas investigado pelos colegas do batalhão que ele [Jonathas] faz parte, mas sim na corregedoria geral da PM", explica. 

Castro acrescenta que o ouvidor solicitou ao Ministério Público que acompanhe também as  investigações.

Outro lado

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública não respondeu aos questionamentos feitos pelo Brasil de Fato até o fechamento desta reportagem. 

Em relatos feitos à imprensa, a polícia contou que horas antes da moto onde estavam Brenda e Rhunan passarem na rua do PM Jonathas, uma pessoa havia atirado uma bomba caseira na casa do militar. O PM, por ter se sentindo ameaçado, teria efetuado o disparo.

A versão não convence Castro. "Ele diz que estava sendo ameaçado, mas um policial que está amedrontado tem que pedir reforço, escolta, e não ficar de tocaia efetuando disparos em pessoas que passam em frente de sua residência", explica. 

A família pede justiça e não acredita na inocência do policial. "Ele não é um inexperiente, ele é um assassino, um policial assassino", desabafa o pai de Brenda.

Violência policial

Castro acredita que o caso que levou à morte de Brenda se enquadra na escalada da violência policial do estado de São Paulo. "Temos policiais agindo com carta branca, licença para matar, e sendo apoiados pelo próprio governador e a secretaria de segurança", lamenta.

O estado de São Paulo tem a maior proporção de mortes em decorrência de intervenção policial do Brasil, segundo o 11º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Do total de homicídios no último período, 17,4% foram causadas por policias. A proporção no Brasil é de 6,9%.

Edição: Diego Sartorato