POLO NAVAL

Golpe faz esperança virar sucata em Rio Grande

Maior esperança de superação do atraso secular da Metade Sul do Rio Grande está sendo transformado em sucata

Brasil de Fato RS | Rio Grande (RS)

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A inauguração do Polo Naval no governo Lula colocou a cidade de Rio Grande como protagonista da indústria brasileira / Foto: Digulvação

Até 2003, a Metade Sul gaúcha estava relegada a segundo plano em termos de investimentos pesados. Porém, a partir do Governo Lula isto começou a mudar. A inauguração do Polo Naval colocou a cidade de Rio Grande como protagonista da indústria brasileira. Com a adaptação do casco da plataforma P-53 e a construção do maior dique-seco do Hemisfério Sul, o Rio Grande do Sul passou a figurar, entre os anos de 2004 e 2014, no mapa mundial da construção naval.

Os empregos e os empreendimentos brotavam, o comércio lucrava, a construção civil crescia e a receita municipal teve um crescimento espetacular. Um exemplo vem da arrecadação do ISSQN, o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza. Em 2013, no auge do Polo, o município arrecadou R$ 140 milhões. Em 2017, baixou para R$ 91 milhões, uma perda de R$ 49 milhões. No caso do ICMS, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, outro tombo brutal. A arrecadação caiu de R$ 215 milhões em 2015 para R$140 milhões no ano passado.

Não apenas Rio Grande e os municípios vizinhos de Pelotas e São José do Norte foram beneficiados com a presença da indústria naval.  Todo o Estado ganhou, fornecendo matéria prima. O polo metalmecânico de Caxias do Sul, por exemplo, foi um dos fornecedores de insumos, criando um ciclo de produção industrial sustentável no Estado. 

Quadro da depressão

Trabalhadores cobram providências do governo | Foto:  STIMMMERG

O golpe sofrido pelo Polo Naval, com a queda de Dilma Rousseff, fez com que seu vice, Michel Temer, realizasse mudanças drásticas e na contramão do conteúdo produtivo nacional. Seu governo promoveu o desmonte da indústria, que havia sido estimulada e alavancada. 

Hoje, em Rio Grande e arredores, o quadro é de depressão. Investimentos paralisados, comércio fechando, empregos extintos e uma plataforma que enferruja a céu aberto. Antes de Temer, a indústria naval de Rio Grande oferecia  24 mil empregos diretos e 108 mil indiretos espalhados pelo Estado. Dos 24 mil postos de trabalho fechados do Polo, 11 mil ainda foram recuperados, com os trabalhadores sofrendo defasagem de salários. O restante deixou a cidade ou caiu na informalidade. Antes com falta de operários e técnicos, Rio Grande hoje possui cerca de três mil desempregados. Nos estaleiros Ecovix, EBR e QGI restam apenas 150 trabalhadores.  

É uma situação que obriga quem se qualificou para o Polo a tomar outras medidas para sobreviver. É o caso de Paulo Roberto da Silveira, de 32 anos. À época do boom da indústria naval, ele pediu demissão da loja em que trabalhava para fazer um curso de soldador no Senai. Passou a receber R$ 3,4 mil por mês. No final de 2016, foi demitido. Hoje, sustenta a família fazendo bicos na construção civil.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Metalúrgicas e de Material Elétrico de Rio Grande e São José do Norte (STIMMERG), Benito Gonçalves, protestou diante da decisão da Petrobrás, após o golpe de 2016, de demitir o pessoal que atuava nas plataformas P-75 e P-77. Na época, foi cancelado o contrato para construção dessas plataformas no Brasil. Temer optou por finalizá-las na China. Para Gonçalves, a presidência da Petrobrás não levou em consideração a geração de empregos e toda a cadeia produtiva ativada em torno da construção naval. 

Salário pela metade

Em Rio Grande, as mudanças para pior saltam à vista. Uma breve caminhada pelo centro chama a atenção pelo número expressivo de lojas de portas cerradas.  O presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio local, Paulo Francisco da Silva Arruda, explica que parte dos comerciários foi atraída pelos benefícios oferecidos na construção naval e, desempregados, tentaram recuperar seus antigos postos. “Muitos deles não encontraram seus antigos empregos e partiram para o comércio informal”, comentou.

O secretário municipal de Desenvolvimento, Inovação, Emprego e Renda, Marcos Mazzoni, revela que a média salarial dos trabalhadores nos bons tempos  do Polo Naval era de R$ 2,5 mil. Hoje, porém, caiu para a média de R$ 1,3 mil, praticamente a metade do salários anterior. O impacto para Rio Grande tem sido brutal. 

R$ 62 milhões de impostos perdidos

“A cidade perdeu de arrecadar cerca de R$ 62 milhões em impostos somente no ano de 2017, além de uma queda vertiginosa do PIB per capita  que antes era R$ 17 mil reais, mas chegou a atingir o patamar dos R$ 40 mil reais no auge do polo naval”, revela Mazzoni.

A rede hoteleira de Rio Grande e região é uma das que mais sofre com a ausência de profissionais de outras cidades que também atuavam na indústria naval. A rede de hotéis Atlântico, com três unidades na cidade, chegou a ter uma taxa de ocupação em 2015 de 70%, de trabalhadores do polo naval. Atualmente,  não passa de 30%. Quem também voltou ao passado foram as imobiliárias. Após  um período de euforia, retrocederam ao patamar anterior à instalação do Polo. 

O prefeito do Rio Grande, Alexandre Lindenmeyer (PT) acentua que, para retomar a indústria naval gaúcha, será preciso interesse político. “Ao primeiro olhar, é mais barato produzir na China, o que é uma leitura simplista e equivocada, pois não leva em consideração todo o valor agregado na implantação e consolidação da indústria, toda a rede de fornecedores de bens, a qualificação e formação profissional nas instituições de ensino”, avalia. 

Navios só saem com ajuda da maré

Para o prefeito, o desmonte promovido por Brasília leva à constatação que o atual governo gaúcho é fraco na política de desenvolvimento, optando pela majoração de impostos, principalmente através do ICMS, o que afasta novos investimentos. Enquanto outros estados criaram legislações adequando-se à questão fiscal da politica nacional, o Rio Grande do Sul afugentou qualquer possibilidade de investimentos futuros. A falta de ação já é refletida na manutenção da dragagem do Porto do Rio Grande, uma responsabilidade do governo Sartori que não a cumpre. Hoje em dia, para os navios saírem da barra, é necessário esperar que a maré suba…

O impacto também é sentido na FURG, a Fundação Universidade de Rio Grande. A instituição aderiu a programas estratégicos, criados para qualificação de mão-de-obra especializada como o Prominp, o Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural e o Pronatec, o  Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego. Segundo o vice-reitor Danilo Giroldo, que também é diretor-presidente do Arranjo Produtivo Local (APL), a comunidade acadêmica acompanhou desde o início o processo de criação do Polo, participando dos polos regionais do Prominp, coordenados pela própria Petrobrás. Paralelamente, em 2007, a FURG aderiu ao Reuni, o Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades. Com investimentos do Reuni, foram criados cursos de graduação e pós-graduação voltados para as áreas de atuação do Polo. “Um estudante que ingressou no curso de Mecânica Naval em 2013 e o conclui em 2018, vai encontrar um cenário totalmente diferente e adverso na sua área de atuação”, exemplifica. 

Sucata para a Gerdau

O  corte nos investimentos e nas políticas públicas frustrou todo o planejamento do sistema de educação técnica e de empresários e fornecedores, inclusive de outras regiões do estado.

Em meados de agosto, a Ecovix, proprietária do Estaleiro Rio Grande, conseguiu aprovar o plano de recuperação judicial da empresa, afastando a possibilidade de sucateamento de todo estaleiro. Agora, a empresa busca interessados na compra do complexo, avaliado em cerca de R$ 4 bilhões. 

Ainda assim, com o cancelamento do contrato de montagem da P-72, por parte da Petrobrás, os blocos de aço que integrariam a plataforma, estão sendo vendidos como sucata para a siderúrgica Gerdau, mesma empresa que forneceu a matéria-prima num primeiro momento para a Ecovix…

Rio Grande tem um legado que traz esperança pela retomada das atividades de construção naval, por possuir três estaleiros consolidados na região, o que permite uma grande capacidade para docagem e reparo de navios e plataformas. A diversificação de atividades pode ser uma alternativa viável, ajudando no esforço para que a participação do conteúdo local atinja um nível razoável mais elevado que os 25% atuais. Já existe um projeto de lei no Congresso para elevá-lo a 40%. O que ainda é pouco, mas já poderia garantir a sobrevivência da construção naval no país. Ainda existe esperança.


Este conteúdo foi originalmente publicado na versão impressa (Edição 5) do Brasil de Fato RS. Confira a edição completa.

Edição: Marcelo Ferreira