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Março das Mulheres | Como elas contribuíram para a construção de Brasília

Pesquisadora e personagens da época ajudam a resgatar as diferentes contribuições de mulheres na formação da capital

Brasil de Fato | Brasília (DF)

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Na construção de Brasília, mulheres exerceram diferentes papéis / Arquivo Público do DF



Na historiografia tradicional, são comuns narrativas que trazem personagens masculinos como vitrine das diferentes transformações, em especial naquilo que se refere aos fatos que despontam como mais marcantes ao longo da história.

Nos registros que documentam, por exemplo, o processo de criação e de construção de Brasília (DF), vendida ao país, na década de 1950, dentro de um projeto de modernidade e transformação nacional, não é diferente: homens em variadas posições, de engenheiros a arquitetos, de peões de obra a funcionários públicos do mais alto escalão, dominam as narrativas como atores que teriam conduzido as grandes transformações para erguer a cidade anunciada como a “capital da esperança”.  

No entanto, muito além dos enredos tradicionais, a história oficial teria ignorado, ao longo do tempo, a participação das mulheres no processo de formação da nova capital, erguida entre 1956 e 1960. É o que afirma a historiadora Tânia Fontenele, coordenadora do Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher (Ipam) e estudiosa do tema.

Produtora do documentário “Poeira e Batom: 50 Mulheres na Construção de Brasília” e curadora da exposição “Memórias Femininas da Construção de Brasília”, esta última atualmente em cartaz na cidade, a pesquisadora destaca que diferentes pioneiras atuaram naquele período, vindas das mais diversas partes do Brasil.  

Apesar de não estarem exatamente nos canteiros de obra e de serem uma minoria numérica – segundo o Censo do IBGE de 1959, as mulheres representavam cerca de 34% da população do Distrito Federal à época –, personagens femininas contribuíram em diferentes frentes para formar a cidade que hoje ostenta o título de patrimônio cultural da humanidade.

A coordenadora do Ipam cita como um dos casos mais emblemáticos a trajetória da desenhista Mercedes Parada, que veio do interior de Goiás para acompanhar o marido, o engenheiro Joffre Mozart Parada – primeiro profissional da área a chegar à cidade e responsável pela condução do projeto de construção da rodovia Transbrasiliana (BR-14).

Tânia Fontenele destaca que Mercedes atuou diretamente na elaboração dos primeiros mapas de Brasília, confeccionados para esquadrinhar fazendas e outros terrenos passíveis de desapropriação pelo governo. Com isso, a pioneira contribuiu para a composição da silhueta da nova capital.  

“A Dona Mercedes participou das medições, das plantas, desenhou os mapas, mas [nos registros] tem o nome dos auxiliares e de todos e não tem o nome dela. É uma injustiça histórica porque ela trabalhou dia e noite nesses mapas, mas só quem levou os créditos foi o marido”, afirma a pesquisadora.  

O resgate da história do período por meio dos relatos de personagens da época mostra ainda que as mulheres exerciam diferentes papéis, incluindo aqueles considerados incomuns para os padrões da geração de 1950. É o caso da trabalhadora Neiva Chaves Zelaya, que veio de Sergipe e atuou como motorista fazendo fretes na capital.  

A aposentada Lya Sayão, hoje com 73 anos, era ainda adolescente no período, mas cultiva na memória a admiração pela atuação de Neiva, já falecida.

“Era uma coisa inusitada na época. Ela já tinha sido motorista de ônibus praticamente em Goiânia, então, pra ela, era moleza. Ela era diferente. Aquela situação era muito legal. Eu achava o máximo”, vibra. 

Tânia Fontenele sublinha que as mulheres tiveram papel essencial no processo de formação urbana, como é o caso das que moravam no acampamento da Vila Planalto, reduto de operários da obra de construção do Palácio do Planalto, sede do chefe do Poder Executivo.  

Hoje tombado como patrimônio histórico, o espaço se consolidou e se estruturou como bairro graças à mobilização de diferentes personagens femininas que atuavam pela garantia de direitos da população local.

“A existência da Vila Planalto até hoje se dá pelo fato de as mulheres terem se mobilizado. Todas contribuíram. Foram lavadeiras, cozinheiras, professoras”, exemplifica a historiadora.  

A pesquisadora afirma ainda que, independentemente das diferenças de classe social entre elas, as mulheres compartilhavam dificuldades semelhantes naquilo que se refere à lida com uma cidade ainda sem estrutura. Além disso, elas teriam sido fundamentais à permanência dos homens na nova capital.

“Esposas de engenheiros, arquitetos tinham um pouco mais de conforto, mas todas moraram em casas de madeira, todas tiveram que enfrentar a precariedade da falta de água, de luz, era uma cidade em construção. Então, foram mulheres absolutamente corajosas. Tem dados que comprovam que os homens, se não tivessem o apoio das mulheres, teriam muita dificuldade de ficar na cidade também”. 

A pedagoga Wanda Corso, uma das pioneiras de Brasília, vivenciou na pele a realidade das famílias na época. Vinda de Minas Gerais para acompanhar o marido, que trabalhou na construção da sede do Executivo, ela resgata hoje na memória, aos 93 anos, a intranquilidade e as durezas do período.

“Na construção do Planalto, eles trabalharam dia e noite. Teve uma época em que, pra entregar o Palácio pronto, meu marido ficou até doente. Trabalhava a noite inteira, por três dias seguidos. E a gente estava ali, dando força aos maridos. Era triste”,  relembra.



Wanda Corso, aos 93 anos, relembra histórias da construção de Brasília. Cristiane Sampaio/BdF

Na época, Wanda também atuou como prefeita comunitária e teve papel de liderança na formação da Vila Planalto, especialmente na fundação da primeira creche pública do bairro – uma demanda das trabalhadoras da época –, onde atua ainda hoje como diretora, apesar da idade avançada.

De onde vem a energia para tanta caminhada? Segundo ela, do mesmo lugar de onde a família tirou inspiração para mudar de estado na década de 1950, atraída pelo processo que impulsionava a vinda de trabalhadores para a nova capital. Um entusiasmo que atravessou décadas, de acordo com a incansável Wanda.

“A força que a gente tinha era a de ajudar na construção dessa cidade e de [poder] ver [depois] a cidade do jeito que ela é hoje, com esse desenvolvimento todo. Pra mim, é uma vitória muito grande. Uma vitória incomparável”.

Edição: Guilherme Henrique