ÁSIA

Governo do Sri Lanka diz que atentados foram represália a ataque na Nova Zelândia

Segundo último balanço, explosões deixaram ao menos 310 mortos; Estado Islâmico reivindicou a autoria dos ataques

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Três dos oito atentados tiveram como alvo templos católicos onde fiéis comemoravam Páscoa; hotéis também foram atacados / Foto: Jewel Samad/AFP

As autoridades do Sri Lanka afirmaram nesta terça-feira (23) que os atentados suicidas contra igrejas cristãs e hotéis de luxo que aconteceram no domingo (21) de Páscoa foram cometidos por radicais muçulmanos em resposta ao massacre ocorrido em março na Nova Zelândia, quando um homem fortemente armado atirou contra duas mesquitas, deixando 50 mortos. 

“As investigações preliminares revelam que o que ocorreu no Sri Lanka foi uma retaliação ao ataque contra muçulmanos em Christchurch”, afirmou o ministro da Defesa do país, Ruwan Wijewardene, sem dar mais detalhes. 

Cerca de 40 pessoas suspeitas de terem participado dos atentados de domingo foram presas. Os investigadores afirmam que o ataque foi cometido pelo grupo islâmico National Thowheeth Jama’ath (NTJ). Pouco conhecida no Sri Lanka, a organização não possui grande expressividade, o que levantou dúvidas sobre ela ter condições de realizar um ataque tão sofisticado. 

O ministro afirma, no entanto, que trabalha com a tese de que o grupo não atuou sozinho. “Este National Thowheeth Jama’ath, que realizou os ataques, tinha ligações estreitas com o JMI, conforme foi agora revelado”, afirmou Wijewardene, em uma aparente referência à organização Jamaat-ul-Mujahideen India.

Desde o domingo, o governo do país passou a divulgar uma série de informações dispersas a respeito da autoria dos atentados. Em um primeiro momento, Wijewardene disse que os suspeitos foram identificados como “extremistas religiosos”, sem dizer a qual grupo eles pertenciam. Já o ministro da Saúde, Rajitha Senaratne, apontou desde o início o NTJ como autor dos ataques. 

Entretanto, o que chamou mais atenção foi a informação de que o governo do Sri Lanka já havia sido avisado de que um atentado contra templos religiosos estava sendo planejado. Segundo membros da polícia local, um memorando interno advertindo sobre a iminência de um ataque já estava circulando há cerca de 11 dias. Alguns documentos chegavam a mencionar a estocagem de explosivos. 

O primeiro-ministro do país, Ranil Wickremesinghe, negou ter sido informado sobre o risco de um atentado e disse que irá “verificar por que precauções adequadas não foram tomadas”. Já o ministro da Justiça, Rauff Hakeem, disse que a ocorrência dos ataques representa um “fracasso colossal por parte dos serviços de inteligência”. 

Estado Islâmico reivindica autoria dos atentados

Engrossando o caldo de informações desencontradas, o grupo terrorista Estado Islâmico (EI) reivindicou nesta terça-feira (23) os ataques cometidos no Sri Lanka. Em um comunicado divulgado pela agência de notícias Amaq, ligada aos terroristas, o EI afirmou que os alvos eram cristãos e cidadãos de países que bombardeiam territórios ocupados pela organização. 

“Uma fonte de segurança informou a agência Amaq que os autores do ataque eram soldados do Estado Islâmico e tinham como alvo cidadãos dos países da coalizão liderada pelos EUA e cristãos do Sri Lanka”, afirma o comunicado. O texto, no entanto, não dá mais informações ou evidências a respeito da atuação do EI nos ataques. 

Após o anúncio, o premiê do Sri Lanka afirmou que os atentados realizados na Páscoa realmente têm relação com o EI. 

Os ataques

Por volta das 8h45 (horário local) do domingo de Páscoa, seis ataques simultâneos ocorreram em pontos diferentes do Sri Lanka. Quatro deles aconteceram na capital, Colombo, e tiveram como alvo três hotéis de luxo e uma igreja. Os outros dois templos atingidos ficam localizados em Negombo, no oeste do país, e em Batticaloa, no leste.

Poucas horas depois das explosões iniciais, mais dois atentados foram registrados. O primeiro, em uma pensão de Dehiwala, no subúrbio de Colombo. O segundo, no subúrbio de Dematagoda, também na capital, atingiu um condomínio de casas. 

No momento das explosões, os templos católicos, alvos de três entre os oito ataques, celebravam o Domingo da Ressurreição, uma das datas mais importantes do calendário cristão. No Sri Lanka, país de maioria budista, o catolicismo é uma religião minoritária e seus adeptos passam por frequentes casos de perseguição. 

Segundo o último balanço, ao menos 310 pessoas morreram. O número deve aumentar, já que cerca de 500 pessoas ficaram feridas, muitas delas em estado grave. 

Divisão étnica e religiosa

Localizado na frente da ponta sul do subcontinente indiano, na Ásia, o Sri Lanka é uma ilha de 65 mil km² e possui 21,4 milhões de habitantes. Dois terços deles são cingaleses, grupo étnico predominante no país. Os tâmeis, segunda maior etnia, representam em torno de 15% da população e se concentram nas regiões norte e nordeste do Sri Lanka. 

A maior parte dos habitantes, cerca de 70%, são budistas – e cingaleses quase em sua totalidade. Já os hindus, principalmente tâmeis, são 12% da população. Os muçulmanos representam 10%, e os cristãos – em sua maioria católicos –, cerca de 7%. A nação conta ainda com comunidades menores de outras religiões.

A origem multiétnica e religiosa ainda causa uma grande tensão no país, que de 1983 a 2009 passou por um conflito entre a maioria cingalesa e os tâmeis. Segundo estimativas, a guerra causou entre 80 mil e 100 mil mortes durante seus 26 anos de duração. 

Após o fim do conflito, os ataques contra minorias religiosas, em especial contra a comunidade muçulmana, voltaram a crescer. Um dos maiores exemplos da intensificação desses ataques ocorreu em março de 2018, quando distúrbios entre budistas e muçulmanos levaram o governo do Sri Lanka a declarar estado de emergência nacional. Na ocasião, três muçulmanos foram mortos.

A perseguição religiosa contra cristãos também aumentou. Segundo dados da Aliança Nacional de Cristãos Evangélicos do Sri Lanka, que representa aproximadamente 200 igrejas, no ano passado foram registrados cerca de 86 casos de discriminação e ameaças contra a orientação religiosa. Entre janeiro e abril de 2019, a organização registrou 26 incidentes do mesmo tipo.

Edição: Aline Carrijo