ÁSIA

Sri Lanka: quatro perguntas e respostas para entender ataques que deixaram 290 mortos

Três dos oito atentados tiveram como alvo templos católicos onde fiéis comemoravam Páscoa; hotéis também foram atacados

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Nenhum grupo reivindicou a autoria dos ataques até o momento, mas o governo do país acusa a organização islâmica National Thowheeth Jama’ath / Foto: Ishara S. Kodikara/AFP

Durante as comemorações do domingo de Páscoa (21), oito atentados a bomba contra templos católicos e hotéis de luxo deixaram ao menos 290 pessoas mortas e 500 feridas no Sri Lanka. Nenhum grupo reivindicou a autoria dos ataques até o momento, mas o governo do país acusa a organização islâmica National Thowheeth Jama’ath (NTJ) de ter causado as explosões. 

Por conta da variedade étnica e religiosa do país – de maioria budista –, diversos casos de perseguição contra minorias cristãs e muçulmanas foram registrados nos últimos anos. No entanto, atentados da proporção do que ocorreu neste final de semana não são comuns. 

O Brasil de Fato preparou quatro perguntas e respostas que ajudam a explicar o que ocorreu no Sri Lanka. 

1 - O que se sabe até agora?

Por volta das 8h45 (horário local) do domingo de Páscoa, seis ataques simultâneos ocorreram em pontos diferentes do Sri Lanka. Quatro deles aconteceram na capital, Colombo, e tiveram como alvo três hotéis de luxo e uma igreja. Os outros dois templos atingidos ficam localizados em Negombo, no oeste do país; e em Batticaloa, no leste.

Poucas horas depois das explosões iniciais, mais dois atentados foram registrados. O primeiro, em uma pensão de Dehiwala, no subúrbio de Colombo. O segundo, no subúrbio de Dematagoda, também na capital, atingiu um condomínio de casas. 

No momento das explosões, os templos católicos, alvos de três entre os oito ataques, celebravam o Domingo da Ressurreição, uma das datas mais importantes do calendário cristão. No Sri Lanka, país de maioria budista, o catolicismo é uma religião minoritária e seus adeptos passam por frequentes casos de perseguição. 

Segundo um comunicado feito nesta segunda-feira (22) pelo porta-voz da Polícia do Sri Lanka, Ruwan Gunasekara, ao menos 290 pessoas foram mortas. O número ainda deve aumentar, já que cerca de 500 pessoas ficaram feridas, muitas em estado grave.

A maior parte das vítimas dos atentados são residentes do Sri Lanka, no entanto, ao menos 32 estrangeiros morreram durante as explosões. Autoridades locais informaram que entre os mortos estão cidadãos da Bélgica, Estados Unidos, China, Reino Unido, Índia e Portugal.

Após os atentados, o presidente do Sri Lanka, Maithripala Sirisena, emitiu um comunicado pedindo que os cidadãos “não sejam enganados por rumores”. Segundo ele, “as investigações estão em curso para descobrir que tipo de conspiração está por trás destes atos cruéis”. 

O governo do país também decidiu “bloquear todas as plataformas de redes sociais para evitar a disseminação de informações incorretas”. O bloqueio permanecia em curso nesta segunda-feira (22). O país também iniciou um toque de recolher que teve início às 18h do horário local e se encerrou às 6h de hoje. 

Nesta segunda-feira, uma nona explosão foi registrada nas cercanias de uma das igrejas atingidas. A detonação aconteceu enquanto o esquadrão antibomba tentava desativar um explosivo encontrado em uma van. Até o momento não há relato de mortos ou feridos. 

2 - Quem foram os autores?

Ao divulgar o balanço de vítimas mais atualizado, o porta-voz da Polícia do Sri Lanka informou que 24 pessoas foram detidas suspeitas de terem participado dos ataques. Ainda segundo ele, os detidos estão sendo interrogados pela divisão de investigação criminal da polícia. 

Desde o domingo, o governo do país passou a divulgar uma série de informações dispersas a respeito da autoria dos atentados. Segundo o ministro da Defesa, Ruwan Wijewardene, os suspeitos foram identificados como "extremistas religiosos" e fazem parte de um mesmo grupo. O ministro não deu detalhes sobre qual seria esse grupo. 

Já o ministro da Saúde, Rajitha Senaratne, culpa membros da organização islâmica National Thowheeth Jama’ath (NTJ) pelos ataques. Senaratne também informou que sete das oito explosões foram cometidas por terroristas suicidas e que todos eram cidadãos do Sri Lanka. 

Segundo o jornal norte-americano The New York Times, a presidência do país foi advertida há cerca de 10 dias sobre a possibilidade de um atentado do NTJ contra templos católicos. O primeiro-ministro do Sri Lanka, Ranil Wickremesinghe, afirmou, no entanto, que não foi informado pela presidência e disse que o país terá que “verificar por que precauções adequadas não foram tomadas”. 

Acredita-se que o NTJ seja um grupo criado por volta de 2016 como uma dissidência do Sri Lanka Thowheed Jamath (SLTJ). Pouco conhecida no país, a organização não possui grande expressividade, o que levanta dúvidas sobre se ela teria condições de realizar um ataque tão sofisticado. Além disso, nos últimos anos os muçulmanos foram vítimas de inúmeros casos de perseguição religiosa, e não os perpetradores de ações dessa magnitude.

O governo do Sri Lanka informou que trabalha com a hipótese de que o NTJ tenha atuado em conjunto com grupos terroristas radicados em países como Paquistão e Filipinas. Até o momento nenhum grupo reivindicou a autoria dos atentados. 

3 - Qual é a divisão étnica e religiosa do Sri Lanka? 

Localizado na frente da ponta sul do subcontinente indiano, na Ásia, o Sri Lanka é uma ilha de 65.000 km² e possui 21,4 milhões de habitantes. Dois terços deles são cingaleses, grupo étnico predominante no país. Os tâmeis, segunda maior etnia, representam em torno de 15% da população e se concentram nas regiões norte e nordeste do Sri Lanka. 

A maior parte dos habitantes, cerca de 70%, são budistas – e cingaleses quase em sua totalidade. Já os hindus, principalmente tâmeis, são 12% da população. Os muçulmanos representam 10%, e os cristãos – em sua maioria católicos –, cerca de 7%. A nação conta ainda com comunidades menores de outras religiões.

A origem multiétnica e religiosa ainda causa uma grande tensão no país, que de 1983 a 2009 passou por um conflito entre a maioria cingalesa e os tâmeis. Segundo estimativas, a guerra causou entre 80.000 e 100.000 mortes durante seus 26 anos de duração. 

Após o fim do conflito, os ataques contra minorias religiosas, em especial contra a comunidade muçulmana, voltaram a crescer. Um dos maiores exemplos da intensificação desses ataques ocorreu em março de 2018, quando distúrbios entre budistas e muçulmanos levaram o governo do Sri Lanka a declarar estado de emergência nacional. Na ocasião, três muçulmanos foram mortos.

A perseguição religiosa contra cristãos também aumentou. Segundo dados da Aliança Nacional de Cristãos Evangélicos do Sri Lanka, que representa aproximadamente 200 igrejas, no ano passado foram registrados cerca de 86 casos de discriminação e ameaças contra a orientação religiosa. Entre janeiro e abril de 2019, a organização registrou 26 incidentes do mesmo tipo.

4 - Qual foi a reação internacional?

Diversos chefes de Estado condenaram o atentado e enviaram condolências ao Sri Lanka. O presidente Jair Bolsonaro se pronunciou em sua conta no Twitter. Segundo ele, “mesmo neste dia sagrado, o extremismo deixa rastros de morte e dor. Em nome dos brasileiros, condeno os ataques que deixaram centenas de vítimas no Sri Lanka, inclusive em igrejas, onde se celebrava a Ressurreição de Cristo. Que Deus possa confortar os que agora sofrem”.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também se pronunciou sobre o caso. O mandatário enviou condolências ao “grande povo do Sri Lanka” e afirmou que os EUA estão “prontos para ajudar”. 

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse esperar que os responsáveis por “um crime tão cínico e execrável cometido em meio às celebrações da Páscoa sejam punidos como merecem” e afirmou que está à disposição para apoiar o país contra “a ameaça do terrorismo internacional”. 

Na Europa, a primeira-ministra britânica, Theresa May, cujo país colonizou o Sri Lanka até 1948, disse que os atentados são “atos de violência realmente terríveis. Segundo ela, o mundo deve se unir “para tentar fazer que ninguém nunca tenha de praticar sua fé com medo”. 

A chanceler alemã, Angela Merkel, condenou os atentados e afirmou que "o ódio religioso e a intolerância que se mostraram de maneira tão terrível hoje não devem vencer”. “É chocante que pessoas que se reuniram para celebrar a páscoa foram deliberadamente alvo de um ataque cruel”. 

O Papa Francisco também lamentou as mortes. “Soube com tristeza e dor as notícias sobre os graves ataques, que precisamente hoje, Páscoa, levou luto e dor às igrejas e outros lugares onde as pessoas estavam reunidas no Sri Lanka” e expressou sua “afetuosa proximidade com a comunidade cristã, atingida enquanto estava reunida em oração, e a todas as vítimas dessa violência tão cruel”. 

Em comunicado, a Organização das Nações Unidas informou que o secretário-geral António Guterres “está indignado com os ataques terroristas a igrejas e hotéis no Sri Lanka no domingo de Páscoa, um dia sagrado para cristãos em todo o mundo. Ele lembra que a santidade de todos os lugares de culto. Ele espera que os perpetradores sejam rapidamente levados à justiça”.

Edição: Aline Carrijo