Bolívia

Golpe: Evo renuncia diante de atos violentos e pressão de militares; SIGA

Presidente boliviano destacou que a renúncia é pela busca de pacificação; vice-presidente Garcia Linera também renunciou

São Paulo | Brasil de Fato (SP)

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A convocação de novas eleições não foi suficiente para conter o propósito de golpe de Estado / Bas Czerwinski/AFP

Após comunicado das Forças Armadas da Bolívia, que pediu a renúncia do presidente, Evo Morales anunciou a saída do governo. “Conspiram contra a democracia. Tenho obrigação de buscar essa paz”, disse, destacando que a saída tem como propósito a pacificação. Ao encerrar o pronunciamento, falou sobre o compromisso com as populações mais humildes e que continuará com este propósito. "Vamos seguir lutando como sempre fizemos."

O vice-presidente Álvaro Garcia Linera também renunciou. “Policiais perseguiram campesinos. Famílias de trabalhadores foram intimidadas, sequestradas, suas casas queimadas, roupas destruídas”, descreveu. Ele destacou a lealdade a Evo. “Sou um vice-presidente leal a nosso presidente indígena e campesino”, declarou. 

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Novas eleições

Evo Morales anunciou, na manhã deste domingo (10), a convocação de novas eleições. O comunicado foi feito ao lado de organizações sociais no hangar presidencial, na cidade de El Alto. Nas últimas duas semanas, a violência se intensificou no país após o candidato opositor Carlos Mesa não aceitar o resultado que reelegeu Morales. O mandatário também anunciou mudanças no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

“Decidi, em primeiro lugar, renovar todos os membros do Tribunal Superior Eleitoral; nas próximas horas a Assembleia Legislativa Plurinacional, de acordo com todas as forças políticas, estabelecerá os procedimentos para isso; segundo, convocar novas eleições gerais que, por meio da votação, permitam eleger democraticamente suas novas autoridades, incorporando novos atores políticos ”, afirmou o presidente.

Evo Morales e Álvaro García Linera foram reeleitos com 2,8 milhões de votos e mais de dez pontos percentuais de diferença em relação ao segundo colocado, Carlos Mesa, no pleito de 20 de outubro. O setor mais radical da oposição queria forçar a realização de um segundo turno. Morales aceitou uma auditoria dos resultados e convidou a Organização dos Estados Americanos (OEA), Paraguai, México, Espanha e as Nações Unidas para acompanhar o processo de revisão.

 

Repercussão internacional

Enquanto o país ainda vive horas de incerteza sobre a condução do governo, movimentos sociais convocam protestos para denunciar a violação constitucional. Em El Alto, a 19 km do centro de La Paz, jornalistas denunciam vários focos de violência e repressão aos manifestantes afins ao governo de Evo Morales. Sob a denúncia de ruptura da democracia diante das pressões militares e a violência desatada contra os militantes do MAS-IPSP, atos foram convocados em diferentes regiões do mundo. 



Na Argentina, a frente Pátria Grande convocou um ato no centro da capital Buenos Aires para prestar solidariedade ao povo boliviano. 

Já no Brasil, as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo chamaram uma manifestação para às 17h30, em frente à embaixada boliviana em Brasília e outra manifestação para amanhã (12) às 13h, no mesmo local. Também são esperados protestos em São Paulo, convocados por entidades sindicais e estudantis.



Também a Federação Mundial de Juventudes Democráticas (FMJD), entidade criada em 1945, durante o pós-guerra para articular a luta anti-imperialista no mundo, convocou atos em frente às embaixadas bolivianas em todo o mundo, exigindo o respeito à democracia e à paz. 

 

 

 

Os países-membro da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA-TCP) exige "respeito aos direitos civis e à integridade física do presidente Evo Morales Ayma" e responsabilizam os opositores Carlos Mesa e Luis Fernando Camacho de qualquer tipo de atentado contra a vida do líder boliviano. 

Além disso, o Grupo Puebla, que reuniu os ex-presidentes Ernesto Samper (Colômbia), Fernando Lugo (Paraguai), José Pepe Mujica (Uruguai), Dilma Rousseff (Brasil) além de outras autoridades, como Celso Amorim (ex-chanceler brasileiro) , em Buenos Aires, com a recepção do presidente eleito argentino, Alberto Fernández destacou que "a oposição optou pela intransigência, radicalização e ruptura democrática, abrindo um grave antecedente de um novo golpe de estado na larga história de interrupções democráticas do país". 

Na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro e o partido governante PSUV entraram em estado de mobilização durante toda a semana.  O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel denunciou "foi quebrada a legalidade e se deve velar pela integridade física de Evo, de outros líderes e do povo boliviano". 

Enquanto isso, o governo mexicano ofereceu asilo político a Evo Morales e denunciou o ataque à sua sede diplomática em La Paz, que também asila ex-funcionários do governo boliviano, ameaçados pela oposição. O presidente Andrés Manuel López Obrador também convocou uma reuniã extraordinária do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA) para discutir o vacio de poder na Bolívia. 

Os porta-vozes dos Ministérios de Relações Exteriores da Rússia e da China também classificaram de um "golpe orquestrado" e chamaram as forças políticas bolivianas a retomar a paz e a constitucionalidade no país.

Na Bielorússia,o governo instou as partes a estabelecer um diálogo nacional para pacificar o país. "As ideias contrárias não devem servir de desculpa para dar início a ações ilegais com consequências imprescindíveis".

Na Síria, a chancelaria se solidarizou com Morales e destacou  que valoriza a luta dos povos da América Latina contra a "hegemonia dos Estados Unidos e sua ingerência nos assuntos dos países latinoamericanos".

Até o momento, não se sabe a localização exata de Morales, que denunciou ter recebido uma ordem de prisão ilegal. As ruas de La Paz amanheceram esvaziadas, depois de uma noite de confrontos, que finalizou com vários feridos e 33 ônibus queimados. 

Nessa segunda-feira, foi anunciada suspensão de serviço de teleférico – um dos principais transportes públicos a capital –  por falta de segurança aos trabalhadores. A segunda vice-presidenta do Senado, Jeanine Áñez, do partido Democratas, voltou a afirmar que pode assumir a presidência interina do país se lhe conferem “garantias institucionais”. A OEA reforçou um chamado à convocação de uma sessão da Assembleia Legislativa Plurinacional da Bolívia para dar início a um novo processo eleitoral e condenou saídas "inconstitucionais" no país. 

O Palácio Queimado, antiga sede do governo, segue cercado pela polícia, enquanto se espera a chegada da manifestação que iniciou na cidade de El Alto,  rumo à praça Francisco, na região central capitalina, para demonstrar apoio ao MAS-IPSP e a  Evo Morales.

 

Edição: Camila Maciel