antifascismo

Fórum do Sul Global na China discute memória histórica e multipolaridade

Encontro de mais de 25 países analisam reformas da ONU e alternativas de desenvolvimento para uma nova ordem mundial

Pesquisadores da China, América Latina e Europa debatem a reconstrução da ordem internacional durante o Fórum Acadêmico do Sul Global, em Xangai.

Intelectuais da América Latina, Ásia e África, representando universidades, institutos de pesquisa e organizações multilaterais, se reuniram para a terceira edição do Fórum Acadêmico do Sul Global 2025. O evento contou com a participação de mais de 120 pesquisadores, consolidando-se como espaço de reflexão sobre os desafios do Sul Global frente à reorganização do sistema internacional.

Desde sua primeira edição, em 2023, o fórum conecta experiências históricas de resistência e solidariedade a debates contemporâneos sobre multipolaridade, desenvolvimento sustentável e reforma de organismos multilaterais. O objetivo é que o evento seja um espaço de reflexão sobre os desafios e perspectivas do Sul Global frente à reorganização do sistema internacional.

O painel Além da Guerra Fria: O Sistema de Yalta, a ONU e a Ordem Internacional Pós-Guerra destacou a importância de resgatar a memória histórica e fortalecer a participação do Sul Global em fóruns internacionais.

`Centenas de pesquisadores vieram de todo o mundo para debater o futuro do sul global

Wang Xiaoquan, chefe da Divisão de Pesquisa do Instituto de Estudos da Rússia, Europa Oriental e Ásia Central da Academia Chinesa de Ciências Sociais, contextualizou a história da Organização das Nações Unidas (ONU) e os desafios contemporâneos da instituição, destacando a necessidade de reformas que aumentem a representatividade do Sul Global.

Wang abriu o painel destacando o papel histórico da ONU e do Sistema de Yalta — acordos costurados em 1945 na Conferência de Yalta que consolidaram a divisão do mundo entre Ocidente e Oriente — na construção da ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial.

O professor ressaltou a importância de reforçar o multilateralismo e a autoridade da ONU diante de crises contemporâneas, como conflitos regionais e o ressurgimento de forças de extrema direita. contextualizou a história e os desafios contemporâneos da instituição, destacando a necessidade de reformas que aumentem a representatividade do Sul Global.

“O ensino da história da ONU deve ser incorporado aos currículos e à educação cotidiana, explicando seus pontos de virada e seu caráter político. Precisamos apoiar a reforma institucional para que a ONU mantenha sua autoridade e contribua para a ordem global.”

O pesquisador explicou que a ONU nasceu da vitória antifascista e que seus princípios formam a base de justiça internacional, incluindo soberania, igualdade e resolução pacífica de conflitos. Wang alertou que grandes potências, muitas vezes, bloqueiam decisões coletivas, limitando a efetividade da organização.

“Hoje, a ONU enfrenta desafios graves, como crises climáticas, conflitos regionais e ressurgimento de forças de extrema direita, exigindo reformas que fortaleçam sua autoridade no cenário internacional.”

Especialistas do Brasil e da América Latina estiveram presentes, como o pesquisador venezuelano Carlos Ron, do Instituto Tricontinental

‘O neoliberalismo reproduz as condições que deram origem ao fascismo’

Carlos Ron, pesquisador do Instituto Tricontinental para Pesquisa Social, abordou como o Sistema de Yalta e a fundação da ONU moldaram a posição periférica da América Latina e Caribe frente às potências hegemônicas, reproduzindo desigualdades e estruturas de dependência.

“O Sistema de Yalta impôs sobre nossa região a doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos, reforçando estruturas coloniais e violando direitos humanos em nome da luta contra o comunismo”, explicou.

Nesse sentido, Ron destacou a importância da solidariedade e do não-alinhamento aos EUA. “Essa lógica relegou nossa região à periferia interna dos Estados Unidos, perpetuando desigualdades estruturais. Precisamos fortalecer a ONU e defender seus princípios para alcançar equilíbrio global.”

O pesquisador ressaltou que surgiram iniciativas de resistência, como o espírito de Bandung e a Conferência Tricontinental em Havana, que colocam o anti-colonialismo e o desenvolvimento no centro da agenda do Sul Global.

Ron também avaliou que talvez a ONU tenha falhado em sua “implementação seletiva”, mas não em seus ideiais de origem e, por isso, precisa ser valorizada e fortalecida. “A luta pelo direito internacional é uma necessidade fundamental. Abandonar esses ideais seria abandonar a humanidade.”

Carlos Ron encerrou sua intervenção traçando um paralelo histórico entre os ataques da Alemanha nazista a petroleiros venezuelanos em 1942 e ações recentes envolvendo ameaças militares e até ataques a embarcações no Caribe por parte dos Estados Unidos, alertando para os riscos de repetição de conflitos hegemônicos caso a ONU e o direito internacional não sejam respeitados.

‘Não existe apenas uma alternativa’

Biljana Vankovska, professora ciência política e relações internacionais da Universidade Ss. Cyril and Methodius em Skopje, na Macedônia do Norte, trouxe a perspectiva histórica da ex-Iugoslávia e do movimento não-alinhado, mostrando alternativas de desenvolvimento fora da hegemonia neoliberal.

“A experiência da Iugoslávia mostra que os países do Sul podem construir caminhos próprios de desenvolvimento fora da hegemonia neoliberal”, exemplificou.

A internacionalista reforçou que resgatar experiências históricas de solidariedade e internacionalismo é essencial, especialmente diante da limitação da liberdade de pensamento nas novas gerações.

“O mantra dominante atual é que não há alternativa ao capitalismo neoliberal, ao liberalismo político, à democracia multipartidária, à Otan e à União Europeia. Qualquer questionamento dessas organizações é visto como ameaça à segurança, e o pensamento crítico é desencorajado”, explicou.

Vankovska destacou a importância de resgatar experiências históricas de solidariedade e internacionalismo, lembrando que gerações mais jovens têm recebido educação com valores muito diferentes daqueles que moldaram a resistência anti-colonial e a cooperação internacional.

“Cresci acreditando na humanidade, na solidariedade e no anti-colonialismo. Hoje, essas experiências estão praticamente esquecidas e movimentos como os Partisans da Iugoslávia se tornaram irrelevantes”, lamentou.

‘A multipolaridade exige parcerias reais e cooperação cultural’

Na esteira do debate sobre as novas configurações para o modelo global, a economista Ana Esther Ceceña, professora do Instituto de Economia da Universidade Nacional Autônoma do México, chama a atenção para o fortalecimento do Brics que se coloca, cada vez mais, como um expoente na reconfiguração do poder internacional que busca consensos.

Ceceña destacou a importância das rotas comerciais estratégicas e a redistribuição de poder global como elementos centrais para o fortalecimento do Sul Global. Além disso, analisou o poder econômico e territorial dos Estados Unidos e do bloco ocidental após a Segunda Guerra Mundial, destacando o papel do “American Way of Life” e da concentração de riqueza e tecnologia.

“Ao terminar a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos concentravam 50% do PIB mundial e haviam fortalecido seu complexo militar-industrial. Isso permitiu estabelecer as bases da ordem ocidental, tanto territorial quanto economicamente”, explicou.

‘A Europa precisa reconhecer o Sul Global como ator central’

A diretora do Centro de Estudos Europeus da East China Normal University, Men Jing, analisou a política externa da União Europeia e a necessidade de repensar relações com o Sul Global.

“A Europa precisa sair da posição de exportadora de normas e reconhecer que o Sul Global tornou-se um ator central na remodelação da ordem internacional”, avaliou.

Men defendeu que parcerias genuínas e cooperação cultural são essenciais para que a Europa reconstrua sua influência de forma equilibrada em um mundo multipolar.

O painel evidenciou a necessidade de fortalecer a participação do Sul Global em fóruns internacionais, resgatar a memória histórica e buscar alternativas de desenvolvimento que respeitem a soberania e diversidade de experiências, reforçando a importância de uma ordem global mais justa e equitativa.

Editado por: Maria Teresa Cruz

|

Newsletter