Intelectuais da América Latina, Ásia e África, representando universidades, institutos de pesquisa e organizações multilaterais, se reuniram para a terceira edição do Fórum Acadêmico do Sul Global 2025. O evento contou com a participação de mais de 120 pesquisadores, consolidando-se como espaço de reflexão sobre os desafios do Sul Global frente à reorganização do sistema internacional.
Desde sua primeira edição, em 2023, o fórum conecta experiências históricas de resistência e solidariedade a debates contemporâneos sobre multipolaridade, desenvolvimento sustentável e reforma de organismos multilaterais. O objetivo é que o evento seja um espaço de reflexão sobre os desafios e perspectivas do Sul Global frente à reorganização do sistema internacional.
O painel Além da Guerra Fria: O Sistema de Yalta, a ONU e a Ordem Internacional Pós-Guerra destacou a importância de resgatar a memória histórica e fortalecer a participação do Sul Global em fóruns internacionais.

Wang Xiaoquan, chefe da Divisão de Pesquisa do Instituto de Estudos da Rússia, Europa Oriental e Ásia Central da Academia Chinesa de Ciências Sociais, contextualizou a história da Organização das Nações Unidas (ONU) e os desafios contemporâneos da instituição, destacando a necessidade de reformas que aumentem a representatividade do Sul Global.
Wang abriu o painel destacando o papel histórico da ONU e do Sistema de Yalta — acordos costurados em 1945 na Conferência de Yalta que consolidaram a divisão do mundo entre Ocidente e Oriente — na construção da ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial.
O professor ressaltou a importância de reforçar o multilateralismo e a autoridade da ONU diante de crises contemporâneas, como conflitos regionais e o ressurgimento de forças de extrema direita. contextualizou a história e os desafios contemporâneos da instituição, destacando a necessidade de reformas que aumentem a representatividade do Sul Global.
“O ensino da história da ONU deve ser incorporado aos currículos e à educação cotidiana, explicando seus pontos de virada e seu caráter político. Precisamos apoiar a reforma institucional para que a ONU mantenha sua autoridade e contribua para a ordem global.”
O pesquisador explicou que a ONU nasceu da vitória antifascista e que seus princípios formam a base de justiça internacional, incluindo soberania, igualdade e resolução pacífica de conflitos. Wang alertou que grandes potências, muitas vezes, bloqueiam decisões coletivas, limitando a efetividade da organização.
“Hoje, a ONU enfrenta desafios graves, como crises climáticas, conflitos regionais e ressurgimento de forças de extrema direita, exigindo reformas que fortaleçam sua autoridade no cenário internacional.”

‘O neoliberalismo reproduz as condições que deram origem ao fascismo’
Carlos Ron, pesquisador do Instituto Tricontinental para Pesquisa Social, abordou como o Sistema de Yalta e a fundação da ONU moldaram a posição periférica da América Latina e Caribe frente às potências hegemônicas, reproduzindo desigualdades e estruturas de dependência.
“O Sistema de Yalta impôs sobre nossa região a doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos, reforçando estruturas coloniais e violando direitos humanos em nome da luta contra o comunismo”, explicou.
Nesse sentido, Ron destacou a importância da solidariedade e do não-alinhamento aos EUA. “Essa lógica relegou nossa região à periferia interna dos Estados Unidos, perpetuando desigualdades estruturais. Precisamos fortalecer a ONU e defender seus princípios para alcançar equilíbrio global.”
O pesquisador ressaltou que surgiram iniciativas de resistência, como o espírito de Bandung e a Conferência Tricontinental em Havana, que colocam o anti-colonialismo e o desenvolvimento no centro da agenda do Sul Global.
Ron também avaliou que talvez a ONU tenha falhado em sua “implementação seletiva”, mas não em seus ideiais de origem e, por isso, precisa ser valorizada e fortalecida. “A luta pelo direito internacional é uma necessidade fundamental. Abandonar esses ideais seria abandonar a humanidade.”
Carlos Ron encerrou sua intervenção traçando um paralelo histórico entre os ataques da Alemanha nazista a petroleiros venezuelanos em 1942 e ações recentes envolvendo ameaças militares e até ataques a embarcações no Caribe por parte dos Estados Unidos, alertando para os riscos de repetição de conflitos hegemônicos caso a ONU e o direito internacional não sejam respeitados.
‘Não existe apenas uma alternativa’
Biljana Vankovska, professora ciência política e relações internacionais da Universidade Ss. Cyril and Methodius em Skopje, na Macedônia do Norte, trouxe a perspectiva histórica da ex-Iugoslávia e do movimento não-alinhado, mostrando alternativas de desenvolvimento fora da hegemonia neoliberal.
“A experiência da Iugoslávia mostra que os países do Sul podem construir caminhos próprios de desenvolvimento fora da hegemonia neoliberal”, exemplificou.
A internacionalista reforçou que resgatar experiências históricas de solidariedade e internacionalismo é essencial, especialmente diante da limitação da liberdade de pensamento nas novas gerações.
“O mantra dominante atual é que não há alternativa ao capitalismo neoliberal, ao liberalismo político, à democracia multipartidária, à Otan e à União Europeia. Qualquer questionamento dessas organizações é visto como ameaça à segurança, e o pensamento crítico é desencorajado”, explicou.
Vankovska destacou a importância de resgatar experiências históricas de solidariedade e internacionalismo, lembrando que gerações mais jovens têm recebido educação com valores muito diferentes daqueles que moldaram a resistência anti-colonial e a cooperação internacional.
“Cresci acreditando na humanidade, na solidariedade e no anti-colonialismo. Hoje, essas experiências estão praticamente esquecidas e movimentos como os Partisans da Iugoslávia se tornaram irrelevantes”, lamentou.
‘A multipolaridade exige parcerias reais e cooperação cultural’
Na esteira do debate sobre as novas configurações para o modelo global, a economista Ana Esther Ceceña, professora do Instituto de Economia da Universidade Nacional Autônoma do México, chama a atenção para o fortalecimento do Brics que se coloca, cada vez mais, como um expoente na reconfiguração do poder internacional que busca consensos.
Ceceña destacou a importância das rotas comerciais estratégicas e a redistribuição de poder global como elementos centrais para o fortalecimento do Sul Global. Além disso, analisou o poder econômico e territorial dos Estados Unidos e do bloco ocidental após a Segunda Guerra Mundial, destacando o papel do “American Way of Life” e da concentração de riqueza e tecnologia.
“Ao terminar a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos concentravam 50% do PIB mundial e haviam fortalecido seu complexo militar-industrial. Isso permitiu estabelecer as bases da ordem ocidental, tanto territorial quanto economicamente”, explicou.
‘A Europa precisa reconhecer o Sul Global como ator central’
A diretora do Centro de Estudos Europeus da East China Normal University, Men Jing, analisou a política externa da União Europeia e a necessidade de repensar relações com o Sul Global.
“A Europa precisa sair da posição de exportadora de normas e reconhecer que o Sul Global tornou-se um ator central na remodelação da ordem internacional”, avaliou.
Men defendeu que parcerias genuínas e cooperação cultural são essenciais para que a Europa reconstrua sua influência de forma equilibrada em um mundo multipolar.
O painel evidenciou a necessidade de fortalecer a participação do Sul Global em fóruns internacionais, resgatar a memória histórica e buscar alternativas de desenvolvimento que respeitem a soberania e diversidade de experiências, reforçando a importância de uma ordem global mais justa e equitativa.
