Cinema

Risco de descontinuidade de políticas públicas preocupa cineastas

Fim das bolsas para a Escola de Cinema de Cuba foi um dos temas mais comentados durante mostra em Tiradentes (MG)

Especial para o Brasil de Fato

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Exibição ao ar livre durante 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais / Divulgação

Cineastas de diferentes estados presentes na 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes manifestaram preocupação com as consequências da crise econômica e política para a produção audiovisual brasileira. O maior temor é com uma possível descontinuidade de políticas públicas municipais, estaduais e federais que garantem financiamento e oxigenação para o setor.

Durante a mostra, que se encerrou no último fim de semana, o tema esteve presente em diversas mesas de discussão e ganhou mais repercussão após os responsáveis pela Escola Internacional de Cinema e Televisão de Cuba (EICTV) anunciarem que o governo federal interrompeu o diálogo sobre a concessão de bolsas a estudantes do país. Nos últimos anos, a Secretaria de Audiovisual, vinculada ao Ministério da Cultura, financiava até 75% do curso aos alunos brasileiros selecionados.

Segundo Guido Pádua, que coordena a seleção dos estudantes, o convênio com o governo existia há anos. “Com todas essas mudanças que estão ocorrendo, as pessoas que vinham discutindo conosco a continuidade das bolsas ou saíram da Secretaria de Audiovisual ou se afastaram deste processo. E então nós estamos sem diálogo. Ninguém retomou essa conversa conosco”, afirma.

Em nota, o Ministério da Cultura informou que o termo de cooperação que garantia as bolsas desde 2009 não encontra respaldo na legislação que rege parcerias com o setor privado. “A Lei 13.019/2014 não admite parcerias com entidades estrangeiras, ainda que sem fis lucrativos, sem que tenham constituição jurídica em território brasileiro”, acrescenta o texto. O Ministério da Cultura diz ainda que reconhece a importância da EICTV e empregará esforços em busca de uma alternativa que permita manter os atuais bolsistas e oferecer novas bolsas em processos transparentes.

A EICTV surgiu a partir de um projeto do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez. Ela oferece oito especializações e, eventualmente, traz cineastas de destaque dos Estados Unidos como professores convidados. Passaram por lá nomes como Francis Ford Coppola e George Lucas. A iniciativa já formou profissionais de mais de 50 países, entre eles diretores brasileiros com carreira reconhecida, como Eliane Caffé e André Klotzel.

Em março, haverá uma nova seleção. Guido Pádua acredita que dificilmente os novos alunos contarão com ajuda financeira do governo brasileiro. O curso dura três anos e custa ao todo R$ 15 mil euros (R$ 5 mil por ano). As inscrições para o processo seletivo se encerram em 3 de março e as provas são aplicadas nas cidades de Belo Horizonte, Recife, Florianópolis, Belém e Brasília. Os selecionados têm direito à hospedagem, alimentação, transporte até a EICTV, assistência médica e material didático. Em cada turma de 40 alunos, entre quatro e seis vagas são destinadas a brasileiros.

Minas Gerais

A redução dos investimentos a nível estadual também preocupa. A situação em Minas Gerais chama a atenção do mineiro Thiago Mata Machado, diretor do documentário Os Residentes, longa-metragem premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes em 2011. “O programa Filme em Minas foi descontinuado justamente no momento mais claro de consolidação de uma cena mineira do cinema. A cena mineira que vinha se desenvolvendo nos últimos anos na conjugação entre aporte financeiro das políticas públicas e exibição nos festivais, sobretudo a Mostra de Tiradentes”, avalia Thiago.

O programa Filme em Minas surgiu em 2003 com o objetivo de fomentar as produções audiovisuais do estado e já publicou sete editais. O último deles foi em 2014, quando foram distribuídos R$ 7,05 milhões. Desde que Fernando Pimentel tomou posse como governador, em janeiro de 2015, ainda não houve edital. A Secretaria de Cultura de Minas Gerais nega que o programa acabou e diz que essa informação está sendo propagada como forma de pressão sobre o governo mineiro. De acordo com o órgão, um novo edital será publicado este ano.

Vila das Artes

Em Fortaleza, a decisão da Secretaria de Cultura da cidade (Secultfor) tomada no dia 12 de janeiro de promover uma demissão coletiva na Vila das Artes levou um grupo de alunos a lançarem uma petição online pela manutenção do projeto. A Vila das Artes foi inaugurada em 2006 e oferece cursos artísticos, entre eles o de cinema.

O cineasta Pedro Diógenes, um dos quatro diretores premiados na Mostra de Cinema de Tiradentes de 2010 com o longa-metragem Estrada para Ythaca, começou a sua formação na Escola de Audiovisual da Vila das Artes, em Fortaleza. Nesta 20ª edição, novamente uma produção cearense conquistou o Troféu Barroco: o curta-metragem Vando Vulgo Vedita, dirigido por Andréia Pires e Leonardo Mouramateus. Para Pedro Diógenes, o desenvolvimento do cinema em seu estado se deve às políticas públicas de financiamento aliadas ao desenvolvimento de espaços de formação como a Vila das Artes e os cursos da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade de Fortaleza (Unifor).

Diógenes diz estar angustiado com as possíveis mudanças. “O apoio do poder público é muito importante para a cidade e para um estado pobre como o nosso. A Vila das Artes completou 10 anos muito bem-sucedidos e de repente a gente não sabe se ela vai continuar. O crescimento do número de produções cearenses se deve à Vila das Artes. Se o Ceará é um dos estados com mais filmes na Mostra de Cinema de Tiradentes, se deve a ela”, avaliou.

O crítico Cléber Eduardo, curador da Mostra de Cinema de Tiradentes, já ministrou aulas na Vila das Artes e lembra da experiência. “Fiquei muito impressionado com a estrutura curricular do curso de cinema. Foi frustrante voltar para a faculdade onde eu dava trabalhava na época e onde havia uma grade curricular tradicional. Os professores que dão aulas lá em Fortaleza voltam de outra forma”, apontou.

Segundo a Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor), em uma reforma administrativa do município, houve a princípio exonerações e extinção de nove cargos na Vila das Artes. No entanto, após uma reavaliação, todos os cargos foram recriados. A nova diretoria deverá ser apresentada em breve. Mas atividades já estariam ocorrendo normalmente.

O futuro do cinema brasileiro neste cenário econômico é uma incógnita na opinião de Cléber Eduardo. Segundo ele, a dúvida sobre o volume de recursos que será destinado nos próximos anos via leis de incentivo deixa o setor inquieto. “Do ponto de vista econômico, 2017 ainda não vai ser o ano que vamos sentir um impacto forte porque os filmes serão aqueles que foram beneficiados por políticas públicas de 2015 e 2016. O impacto maior poderá vir em 2018”, destacou.

O curador da Mostra de Cinema de Tiradentes cobra uma posição dos atuais governantes. “Qual a perspectiva que o estado tem da cultura? Que noção do cinema se tem? Os governos atuais acham que o cinema é um investimento estratégico de formação de uma sociedade? Ou acham que é um enfeite? É uma dúvida que temos. Ainda não se colocaram em relação a isso”, questionou.