Dignidade

“Ninguém dá emprego para trans", diz escritor João Nery

Durante encontro de psicologia, autor falou sobre visibilidade trans

“A documentação é o primeiro passo, sem nome tu não existe”, diz Nery / Guilherme Santos/Sul21

Há sete anos, a vida de João W. Nery é pautada por viagens, entrevistas e falas em eventos, cenário completamente diferente do restante de sua trajetória até então, marcada pelo medo e clandestinidade. Considerado o primeiro homem trans operado no Brasil, nos anos 1970 ele passou por uma cirurgia de redesignação sexual, quando o procedimento ainda era considerado ilegal. A possibilidade de trocar de nome no registro civil, para poder viver plenamente como um homem perante a sociedade, não existia. Na época, aos 27 anos, Nery fez a única coisa que via como uma solução: obteve um novo documento masculino, que no entanto o fez virar uma “nova pessoa”, como se nunca houvesse sido registrado anteriormente.

Foi apenas quando já havia se passado 30 anos, ao ter certeza de que não seria condenado por falsa identidade, que viu a possibilidade de contar sua história, publicando o livro “Viagem Solitária- — Memórias de um Transexual Trinta Anos Depois”, em 2011. A partir daí, tornou-se uma das personalidades transexuais mais conhecidas no Brasil, inclusive emprestando seu nome para o projeto de lei da Identidade de Gênero, dos deputados Jean Wyllys (PSOL) e Érika Kokay (PT), que possibilitaria a retificação de nome no registro civil a todas as pessoas cujo nome não coincida com a identidade de gênero.

Aos 68 anos, Nery trabalha em um livro sobre transexualidade e velhice, tema que nunca viu ser abordado em publicações literárias até agora, até devido ao alarmante dado de que pouquíssimas pessoas trans sobrevivem para se tornarem idosas: a expectativa de vida de mulheres trans e travestis é de 35 anos. Devido a problemas de saúde, ele diminuiu um pouco a rotina de viagens e divide seu tempo também com um trabalho voluntário feito através do Facebook de auxílio para transhomens de todo o país. No ano passado, deu consultoria para Glória Perez, que colocou em sua novela A Força do Querer um personagem trans, tema do qual Nery fala com entusiasmo.

A bengala que o auxilia a caminhar denuncia a fragilidade da saúde de Nery em comparação a alguns anos atrás, quando alcançou a fama devido ao lançamento do livro. A vontade de fazer a diferença na vida de pessoas transexuais, no entanto, permanece a mesma.

Na sexta-feira (17), Nery conversou com oSul21 no Plaza São Rafael, onde estava hospedado para participar do primeiro Encontro Gaúcho de Psicologia, promovido pelo Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul. Por quase uma hora, ele falou de sua trajetória, dos desafios que o movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) ainda enfrenta e, especialmente, dos transhomens, população invisibilizada e estigmatizada em diversos aspectos.

Falta de acesso à saúde, moradia, tratamento adequado e emprego são apenas alguns dos problemas que eles enfrentam, e Nery faz tudo que está a seu alcance para para auxiliar outros transhomens. Se pudesse, afirma que construiria um abrigo para pessoas transexuais que são expulsas de casa. Ele lamenta que, em sua maioria, crianças e adolescentes trans acabem nas ruas, muitas vezes se prostituindo desde cedo. “Uma travesti é expulsa de casa aos 12 anos e vai para onde? É uma criança, e não tem abrigo para ela. Então ela fica na rua e se prostitui, e ninguém fala em pedofilia, em abandono dos pais, em expulsão de casa”, afirma.

Confira a entrevista completa:

Sul21 – Lendo um pouco sobre a sua trajetória, me deparei com essa questão de que quando você trocou de nome, acabou perdendo todo o histórico escolar e passou a ser considerado um analfabeto. Como se deu isso?

João Nery – Eu fiz a cirurgia [Nery fez uma mamoplastia masculinizadora e uma neouretra] com 27 anos, em 1977, quando era ilegal, e depois eu não podia entrar na Justiça pra mudar meu nome porque seria obviamente negado. E como eu ia trabalhar com cara de homem e documento de mulher? Então eu fui num cartório e tirei um novo documento masculino, alegando precisar servir o exército e nunca ter sido registrado. Aí eu consegui, mas como não foi uma troca através de um processo judicial, foi um crime, eu perdi todo o meu histórico escolar, virei um analfabeto. E aí passei 30 anos escondido no armário, trabalhando de pedreiro, cortador de confecção, vendedor, motorista de táxi, diversas profissões. Hoje estou desempregado sem aposentadoria, vivo das vendas do meu livro.

Sul21 – Um dos avanços conquistados nesses anos todos foi justamente a possibilidade de se retificar o nome no registro civil. Qual a importância dessa conquista, na sua avaliação?

João Nery – Sim, o Judiciário, passando por cima do Legislativo, assim como no casamento igualitário, decidiu que é possível não só mudar o nome no cartório diretamente , o que diminui a burocracia, como também despatologiza a transexualidade. Ou seja, o laudo psiquiátrico fico inócuo. E isso é muito importante, embora pela Organização Mundial de Saúde ainda constasse como uma doença mental. Mas essa decisão do Supremo não preenche totalmente as necessidades das pessoas trans. Eu acredito que tenha se baseado na Lei de Identidade de Gênero do Jean Wyllys e da Érika Kokay, que leva meu nome, mas o quinto artigo da lei fala da proteção dos menores. Ou seja, um menor que seja trans e que o pai não aceite, não concorde, ou que o maltrate, como a maioria, não vai ter como se defender. Na lei do Jean ele poderia recorrer à Defensoria Pública. Então fica esse buraco que agora tenta ser preenchido pelo nome social, o menor pode usar o nome social na escola, no SUS, mas não tem validade legal, para votar por exemplo continua o constrangimento.


“A documentação é o primeiro passo, sem nome tu não existe”, diz Nery| Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21 – Apesar das conquistas, ainda há muito a avançar em termos dos direitos das pessoas trans. O que você considera que são as principais pautas em que ainda é preciso melhorar?

João Nery – Quase tudo. A documentação é o primeiro passo, sem nome tu não existe. Mas não basta ter um nome, você tem que ter emprego, e ninguém dá emprego para trans. Agora a Gol empregou uma trans como comissária. Nós temos um site chamado Trans Empregos, que é uma ideia minha e da Márcia Rocha, que é uma travesti empresária, em que entramos em contato sobretudo com multinacionais que estão abertas à diversidade, não só de gênero, mas também pessoas com deficiência por exemplo. Estamos conseguindo empregar muita gente, o Carrefour já empregou 25 trans. Mas empresas brasileiras têm uma certa resistência.

Nós não temos abrigos para trans, só conheço dois particulares, um em São Paulo e no Rio a Casa Nem, que está indo à falência porque não tem auxílio da Prefeitura, do Estado, nada. Ou seja, uma travesti é expulsa de casa aos 12 anos e vai para onde? É uma criança, e não tem abrigo para ela. Porque se for para o masculino vai ser estuprada, agredida, e no feminino não vai poder entrar porque tem documentação masculina. Então ela fica na rua e se prostitui, e ninguém fala em pedofilia, em abandono dos pais, que é mais que abandono, é expulsão. É muito sério, sobreviver trans na nossa cultura é muito difícil. Então você não tem nome, não tem trabalho, não tem onde morar, e se você conseguir sobreviver – porque a idade média de uma travesti é de 35 anos de idade… Ou ela morre de bala bem dirigida, ou de AIDS, ou de drogas, ou se suicida. Então chegar na velhice é muito difícil, é raríssimo.

Agora estou escrevendo um novo livro, que é sobre velhice trans. Não existe um único livro publicado sobre esse assunto, apenas algumas teses. Então você imagina a minha dificuldade em entrevistar trans velhos. De transhomem velho eu só conheço eu mesmo, porque também é um movimento relativamente novo, as transmasculinidades só se tornam um segmento propriamente representativo a partir de 2011, quando eu publico o Viagem Solitária e apareço na mídia. Então eu tenho no Facebook um perfil só para atender homens trans, nele eu criei 26 grupos secretos, um para cada Estado, e dentro desse grupo eu tenho profissionais que são capazes de atender trans. Esse é outro problema. Você imagina um transhomem vai no endocrinologista e ele diz “eu não vou dar testosterona para lésbica”, não sabe nem diferenciar identidade de gênero de orientação sexual. Isso se não chamar pelo nome feminino. Isso porque a maioria das universidades do Brasil não tem cadeira de gênero e sexualidade.


“Ninguém fala em cárcere privado, como não fala em pedofilia no caso das crianças travestis” | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21 – Sim, os profissionais não estão preparados.

João Nery – Não estão. Nem na área na saúde, nem humanas, psicólogos, assistentes sociais, ninguém sabe lidar com corpo trans. Tem psicólogo que o garoto chega lá e diz “sou transhomem” a pessoa responde “ah, não sei o que é isso, volta daqui a dois meses que eu vou dar uma pesquisada”, e ainda cobra meia consulta. Essa é a realidade brasileira. A maioria dos garotos têm depressão, síndrome do pânico, se não forem expulsos de casa são trancados no quarto para não passar vergonha para os pais na vizinhança, é quase um cárcere privado. Mas ninguém fala em cárcere privado, como não fala em pedofilia no caso das crianças travestis.

E os jornais ainda publicam “o travesti”, com o nome antigo, e ainda fica feliz se mata uma delas, porque é a visão de “vamos limpar a sociedade daquela marginália suja que nos ameaça enquanto homem e mulher. Que bicho é esse que não é homem nem mulher”? Mas a medicina está cansada de saber que existem os intersexos, mas ninguém fala, é um tabu. E é um número alto, de 1 a 2 mil nascimentos. Mas o que faz a medicina? Assim que nasce, vamos operar, não pode ficar ambíguo, tem que dar um nome, tem que batizar. E geralmente feminizam, porque é mais fácil. E a criança chega aos 9, 10 anos e vai perguntar para os pais o que são as cicatrizes das cirurgias, e muitas vezes o gênero que a criança escolhe não é o mesmo que o médico havia escolhido. Então o suicídio entre os intersexo são muito grandes. Claro que há 49 corpos diferentes de intersexo, há grande variedade e muitas pessoas morrem sem saber que são intersexo. Mas isso é um dado biológico, enquanto o gênero é adquirido, e como tal varia na cultura, na história, é quase infinito. Nova York oficializou 31 gêneros mas eu acho que tem muito mais. Nós enquanto somos vivos somos mutáveis em termos de corpo, identidade, orientação sexual.

Sul21 – Existe essa discussão do que determina a pessoa como homem ou mulher. Há relatos de pessoas trans que são questionadas se são homens ou mulheres “de verdade” para fazer o tratamento.

João Nery – Primeiro que a pergunta de o que é ser homem e o que é ser mulher não tem resposta. Eu vi uma enquete em grupo de homens heterossexuais cisgêneros* de o que é ser homem. Teve três respostas, a primeira foi gostar de mulher. Bom, então lésbica é homem. A segunda resposta foi ter um pênis. Então homem que sofre um acidente ou alguma doença, e não são poucos os que perdem o pênis por falta de assepsia, por câncer, deixa de ser homem. E a terceira resposta, que foi a que ganhou, era que ser homem é não ser mulher. Ou seja, é negar o outro. Eu nunca vi uma mulher responder ‘eu sou mulher porque não sou homem’.

Esse protocolo todo do SUS é uma palhaçada porque são pessoas cisgêneras, baseadas em protocolos inventadas, porque a APA, que é a Associação Psiquiátrica Americana, tem essa categorização como doença mental, disforia. Nem todo transexual tem disforia, tem sofrimento com seu próprio órgão genital, nem todo transexual quer se operar. Mas tem que ter um problema fisiológico, diz o psiquiatra que cuida em São Paulo de um grupo de trans, que é um problema genético, do hipotálamo. Eles pesquisam e não encontram nada, mas eles querem uma causa fisiológica, querem dizer “eu sou normal, você é doente”.

Sul21 – Que outros desafios você começou a perceber, a partir desse novo livro, que as pessoas trans encontram na velhice?

João Nery – Quando a gente fica velho, não tem asilo. Se você descobrir algum transexual num asilo, me avisa. Eu descobri um, uma mulher que teve que se vestir de homem. Inclusive muitas travestis que chegam à velhice acabam se suicidando socialmente, para poder ou ser aceito à família de novo ou ter acesso à saúde. Você ter que abrir mão do seu gênero, da sua identidade, de como se identifica, para poder ter um auxílio de saúde e familiar. É muito sério e muito triste.

São questões muito graves, e a sociedade não está nem aí para a gente. Pelo contrário, usam a gente como paródia. Agora teve uma novela da Glória Perez pela primeira vez um transhomem, que foi inspirada parcialmente no Viagem Solitária. Eu dei consultoria para ela gratuita. E o próprio livro aparece, e é um livro que salva vidas, eu já pude constatar isso. É a primeira autobiografia sobre o assunto, eu falo desde a minha infância até a velhice.

Sul21 – Você mencionou que o movimento de transhomens é mais recente, e os transhomens são sempre invisibilizados, até dentro do movimento LGBT. Por que você acha que acontece isso?

João Nery – Olha, por que você acha que a mulher é mais invisibilizada que o homem até hoje? Em todos os níveis, no trabalho, na política, na ciência, na literatura. Você acha que isso é gratuito? Claro que não é por ser menos inteligente. A sociedade faz a mesma coisa com os transhomens, são pessoas que nasceram sendo consideradas mulheres. “Como uma mulher ousa virar homem? Isso é uma ousadia, querer o nosso poder. Não existe, é lésbica, ‘sapatona’, ‘caminhoneira’, ‘mulher-macho’, mas não é homem”. Eu acho que essa é uma das explicações.

A segunda, eu diria que o feminino é muito mais ameaçador para a cultura que o masculino. Daí a perseguição muito maior às travestis e mulheres trans. Elas se tornaram visíveis no Brasil a partir da década de 1960 mais ou menos, como prostitutas e as transformistas como artistas. Elas estão na luta há muito mais tempo, a elas devemos o nome social. Os homens surgem no Brasil em 2011, em 2005 um transhomem até foi presidente da Parada Livre de São Paulo, mas foi um caso isolado. Sempre teve transhomens, mas não se falava sobre.

Nos presídios não têm ala para transhomens, alguns têm ala LGBT, como aqui no Rio Grande do Sul, mas no presídio masculino. Essa questão da troca de documentos, o Tribunal não pensou em muitas coisas. Por exemplo, se você muda o nome de feminino para masculino, perde o direito à pensão, porque só mulher tem direito, você não tem presídio. Muitos jovens usam drogas ilícitas e têm medo de serem presos, já pensou um transhomem num presídio masculino? Morrem. Não tem para onde ir, assim como quando a gente fica velho.

Sul21 – Daonde você se inspirou para escrever o Viagem Solitária?

João Nery – Eu acredito que foi um livro que li na adolescência, chamado O Poço da Solidão, de uma escritora inglesa chamada Radclyffe Hall, publicado originalmente em 1928. E o livro é proibido na Inglaterra inicialmente. E aí há uma manifestação de autores e pelos direitos humanos e conseguem publicar o livro dela depois de um tempo. Para mim, é a história de um transhomem, mas na época é retratado como uma mulher homossexual. É passado no final do século 19, ela é riquíssima, filha única, mas se sente um menino. Então você imagina, ter que usar aqueles vestidos até o pé, corpete. E quando eu li, eu disse ‘sou eu’. No livro, ela se torna uma escritora famosa, e eu pensei ‘essa é a minha história, o que eu vivo outras pessoas devem viver. Eu não posso morrer e deixar de registrar isso’. Eu acredito que ela exerceu uma grande influência em mim, não que a autora seja trans nesse caso, mas sim a personagem.

Quando eu me recuperava da cirurgia aos 27 anos, eu publiquei o meu primeiro livro autobiográfico, que foi o Erro de Pessoa, João ou Joana?, publiquei pela Record em 1984. A Glória Perez leu e chegou a fazer um seriado na época, mas o Boni não deixou ir ao ar, achou que era precipitado demais esse tema. Por isso que ela me procurou agora, mas nem sabia que eu tinha escrito o Viagem Solitária, quando ela soube, ela enlouqueceu e inclusive mudou a ideia inicial, que era escrever sobre transexualidade feminina. E eu acho que ela tratou muito bem do tema.

Sul21 – Estamos vendo mais representações de personagens trans em seriados, filmes, novelas. Mas existe uma polêmica de pessoas cis interpretando esses personagens, qual a sua opinião?

João Nery – Olha, nessa questão eu acho que o mais importante é ser um bom ator. Agora, sem dúvida nenhuma você vê atores cis fazendo papéis de trans, mas não vê atores trans fazendo o papel de cis. Até existe, mas é muito raro. Há uma discriminação, e como há grandes atores trans, e que precisam de emprego, por que não dar a vez a quem precisa e merece? Evidente que há muitos atores cis fazendo papéis de trans maravilhosamente bem, como no filme A Garota Dinamarquesa. Eu não tenho nada contra, mas também acho que tendo a oportunidade de dar emprego para as pessoas trans, seria ótimo.

Sul21 – Qual a tua trajetória no ativismo? Veio apenas depois da publicação do livro?

João Nery – Sim, porque eu passei 30 anos no armário para não ser preso, e mais ou menos digamos que o crime prescreveu. Eu até dei entrevistas de costas antes disso, para não ser identificado, por segurança. Quando chegou o Viagem Solitária, o advogado me disse que não poderiam fazer nada contra mim, então eu fui e depois que eu fui na Marília Gabriela é que tudo aconteceu. Acho que até hoje é uma das melhores entrevistas que eu já dei. Então eu não podia aparecer, mas depois que eu apareço foi uma loucura de convites de todos os programas que você possa imaginar, de televisão, rádio, jornal, nacional, internacional, tive convites, como psicólogo também, de palestrar em tudo que é Congresso, Seminário, há seis anos que só faço viajar. De um tempo para cá adoeci e tive que dar um tempo, mas enquanto eu puder falar e puder andar vou estar militando pela causa.

*Termo utilizado para se referir a pessoas não-trans, ou seja, pessoas cuja identidade de gênero corresponde ao gênero designado ao nascer. 

 

Edição: Sul21