Ataques

Milhares de pessoas marcham na Argentina em defesa da universidade pública

Professores, estudantes, pesquisadores, junto a outras categorias, se mobilizaram contra o corte de investimentos

“Na Casa Rosada há um grupo de empresários empenhados em destruir a universidade pública", denunciam os docentes / La Mella

“Nem a tempestade perfeita, nem o presidente imperfeito vão nos impedir”, assegurou de baixo de uma intensa chuva um dos milhares de docentes protestando em frente ao Congresso argentino. Em Buenos Aires, outros milhares de estudantes, pesquisadores, autoridades acadêmicas, representantes sindicais e trabalhadores de outras categorias das 57 universidades públicas se preparavam para marchar rumo à Casa Rosada, sede da Presidência da Argentina, em defesa da educação pública, nessa quinta-feira (30).

“A universidade argentina é a única produtora dos conhecimentos necessários para que nós, argentinos, tenhamos o futuro que merecemos. Por isso estamos aqui todos juntos. O governo, evidentemente, pretende que isso acabe, pretende jogar fora as conquistas e direitos do povo. A luta vai nos colocar à altura das circunstâncias”, sentenciou  Walter Merkis, secretário geral da Federação Argentina de Trabalhadores de Universidades Nacionais (Fatun), horas depois do início do protesto, já em frente a uma Praça de Maio repleta e uma coluna de mais de 300 mil pessoas, que lotaram a Avenida de Maio até a Avenida 9 de Julho. 

A marcha, convocada por estudantes, docentes e demais trabalhadores dos 57 centros universitários de todo o país, foi crescendo ao passo do calor da intransigência do governo do presidente Mauricio Macri, exemplificada na postura do ministro da Educação, Alejandro Finocchiaro, que, após quatro semanas de conflito, continua negando as demandas orçamentárias e salariais dos manifestantes.

“Na Casa Rosada há um grupo de empresários empenhados em destruir a universidade pública. E aqui há centenas de milhares empenhados em defendê-la”, sintetizou Luis Tiscornia, secretário geral da Federação Nacional de Docentes, Pesquisadores e Criadores Universitários (Conadu Histórica). 

“Não queremos cortes nem achaques ao orçamento para as universidades, nem em nossos salários. Queremos que cresçam na mesma medida que a inflação. Faremos uma greve nacional em rechaço ao acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), mas pedimos um plano de luta do movimento operário”, disse o secretário geral da Federação de Docentes das Universidades (Fedun), Daniel Ricci, ampliando a luta dos trabalhadores.

Foto: A Marcha Federal foi convocados por docentes, estudantes e pesquisadores | Leandro Teysseire/Página 12

Horas antes, quando a chuva obrigava que os primeiros a chegarem na Marcha Federal se aparassem baixo seus guarda-chuvas e bandeiras, o secretário geral da União Transitória de Empresas (UTE), Eduardo López, destacava a ampla convocatória da comunidade educacional: “Todos os níveis da educação estão aqui apoiando aos universitários. Para aqueles que moram na Cosa Rosada saibam que a prioridade da comunidade educacional e de cada família é a educação”.

A ampla convocatória também chegou aos sindicatos de distintos setores que se aproximaram e se solidarizaram com os trabalhadores da educação e os estudantes. Entre aqueles que haviam tentado reduzir o alcance da reivindicação durante esta semana está o ministro Finocchiaro, que assegurou que as demandas pelo aumento do orçamento durante a gestão de Macri e a salarial frente a uma inflação descontrolada eram explicadas devido a um protesto de uma “aliança kirchnerotroskista”. 

“Estamos aqui apesar do clima inclemente. Estamos reivindicando, porque a situação nas universidades é desastrosa, assim como na área científica”, denunciou um docente da Faculdade de Exatas da Universidade de Buenos Aires (UBA). “O ataque não surpreende, o ataque é contra a ciência e a universidade, contra a produção de conhecimento”, lamentou um integrante do Sindicato de Trabalhadores Docentes da UBA.

A marcha começou pouco depois das 18h, partindo do Congresso e caminhou até a Casa Rosada, onde o gabinete presidencial continuava assimilando o impacto da nova corrida do dólar, enquanto que os docentes advertiam que essa corrida também irá impactar as pesquisas universitárias. “Não aos governos que veem como um gasto a educação”, se lia entre as centenas de cartazes levantados na praça. Já no palácio presidencial, o ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, prometia mais ajuste fiscal.

Edição: Página 12 | Tradução: Vivian Fernandes