Um homem espera sozinho em um aeroporto. Sem saber se poderá seguir viagem, permanecer ou ser devolvido ao país de origem, ele aguarda uma resposta que pode decidir a própria sobrevivência. Em “Anywhere”, espetáculo da Cia Artera de Teatro cujo título pode ser traduzido como “qualquer lugar” ou, dependendo do contexto, “lugar nenhum”, essa sala de espera se transforma em um espaço de vigilância, medo e suspensão, onde existir parece depender da autorização de alguém.
Na última semana em cartaz no Sesc Ipiranga, a peça seguirá em temporada na Companhia da Revista, no centro de São Paulo, a partir do dia 20 de junho. Criado, escrito e protagonizado por Ricardo Corrêa, com direção de Davi Reis, o espetáculo dá continuidade à trajetória da Cia Artera de Teatro, fundada pela dupla há mais de duas décadas e reconhecida por trabalhos voltados às vivências LGBT.
Refúgio LGBT
Inspirado em relatos reais de refugiados e imigrantes LGBT+, “Anywhere” nasceu de uma pesquisa iniciada por Corrêa em 2018, após notícias sobre a existência de campos de concentração para homossexuais na Chechênia. Anos depois, em 2023, a investigação ganhou fôlego com um projeto contemplado pelo Programa de Ações Culturais (ProAC), que permitiu ao artista entrevistar pessoas em situação de refúgio no Brasil e aprofundar pesquisas sobre a diáspora LGBT ao redor do mundo.
“Como se sobrevive em um espaço onde sua existência é um crime?”, questiona o dramaturgo e ator Ricardo Corrêa em entrevista à Rádio Brasil de Fato.
A pesquisa passou por relatórios da Human Rights Watch, materiais da Anistia Internacional e conversas com pessoas vivendo em contextos de guerra e perseguição. Parte dessas experiências acabou atravessando diretamente a dramaturgia de “Anywhere”, que acompanha Samir, um homem retido em um aeroporto enquanto revisita memórias da infância, da descoberta da sexualidade e da própria fuga.
Vigilância
A ideia do aeroporto surgiu ainda nas primeiras etapas do processo criativo. Ricardo imaginava um personagem preso em um espaço de trânsito, submetido à vigilância constante e sem saber se poderia atravessar a fronteira. Durante a pesquisa, descobriu que um dos refugiados entrevistados havia vivido exatamente essa situação.
“Eu queria esse lugar de controle na dramaturgia porque dialoga diretamente com as histórias. Você sai de uma sociedade que controla seu corpo e vai para um espaço de trânsito que também te controla”, afirma o artista.
Antes de chegar aos palcos, “Anywhere” também tomou outras formas. O projeto originou um curta-metragem documental e um livro com o texto dramatúrgico publicado a partir da pesquisa. Entre a publicação e a estreia teatral houve um intervalo de quase um ano, atravessado por negativas em editais culturais e negociações para viabilizar a montagem.
Fugas
A peça, no entanto, não permaneceu restrita às histórias de refugiados em regimes teocráticos ou contextos de guerra. Ao longo do processo, Corrêa percebeu que a experiência da fuga também dialogava com a própria trajetória.
“Eu sempre me perguntava o que me ligava à fuga daquele homem gay do Irã. E percebi que eu também tive as minhas fugas”, conta Corrêa.
Criado na periferia de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, o ator e dramaturgo relata uma infância marcada pela violência e pelo conservadorismo familiar. Ao revelar sua sexualidade, foi expulso de casa e submetido a tentativas de “cura gay”.
“Não era um muro de concreto, mas era uma fronteira que eu precisava atravessar”, relembra.
A partir dessa percepção, “Anywhere” ganhou um caráter mais amplo e atemporal. Em vez de apostar em estereótipos ou reproduções caricatas, a encenação busca aproximar diferentes experiências de violência, controle e sobrevivência.
“Estamos falando de geografia e de liberdade. O discurso da peça precisava ser maior”, explica.
Essa aproximação entre o refúgio LGBT internacional e o contexto brasileiro aparece também na recepção do público. Segundo Corrêa, havia um receio inicial de que a realidade de um homem gay iraniano parecesse distante da plateia brasileira. O retorno das sessões, no entanto, apontou o contrário.
“Afinal, querendo ou não, estamos em um país que lidera o ranking de assassinatos de pessoas LGBT”, observa o dramaturgo.

Teatro documental
A montagem mistura teatro documental, literatura e linguagem audiovisual. Durante a apresentação, Ricardo opera câmeras ao vivo que ampliam expressões e detalhes do corpo em um telão, criando uma atmosfera de vigilância permanente. A dramaturgia sonora, assinada por Luis Paulo “Casca” e Rodolfo Bártolo, aposta em guitarras, bateria e composições contemporâneas para fugir de clichês associados ao Oriente Médio.
“Não queríamos usar sonoridades óbvias. A música precisava trazer sensação”, afirma.
No palco, Ricardo sustenta sozinho um monólogo de 1h20, atravessando memórias fragmentadas, cenas de violência, momentos íntimos e mudanças bruscas de estado emocional. A encenação, construída em parceria com Davi Reis, explora justamente essa tensão entre documento, ficção e autobiografia.
“É um espetáculo muito puxado emocionalmente. Exige muita fisicalidade, concentração e técnica”, relata o ator.
A temporada no Sesc Ipiranga apostou em uma relação intimista com o público, colocando a plateia praticamente dentro da sala de espera criada em cena. Agora, a mudança para a Companhia da Revista marca uma nova etapa de circulação do espetáculo no centro da capital paulista.
Nova temporada
A nova temporada acontecerá aos sábados e domingos até o início de julho, em uma montagem viabilizada por bilheteria. Para a companhia, a circulação é também uma forma de ampliar o alcance da discussão proposta pela peça.
“A nossa liberdade precisa ser conquistada todos os dias”, afirma Corrêa. “Os nossos direitos precisam ser mantidos e defendidos diariamente”, completa.
Serviço
Última semana no Sesc Ipiranga
29 de maio (sexta-feira), às 21h30
30 de maio (sábado), às 18h30
31 de maio (domingo), às 18h30 — ingressos esgotados
Ingressos:
R$ 15 (Credencial Plena)
R$ 25 (meia-entrada)
R$ 50 (inteira)
Nova temporada | Companhia da Revista
De 20 de junho a 5 de julho
Sábados às 20h
Domingos às 19h
Ingressos:
R$ 50 (inteira)
R$ 25 (meia-entrada)
Ficha técnica
Criação, dramaturgia e interpretação: Ricardo Corrêa
Direção: Davi Reis
Desenho de luz: Fran Barros
Cenografia: Carlos Tibúrcio
Construção cenográfica: Matis Produções Artísticas
Trilha sonora original: Luis Paulo “Casca” e Rodolfo Bártolo
Criação de vídeos: Renato Grieco e Ricardo Corrêa
Figurino: Maitê Chasseraux
Operação de luz: Thauana Garcia
* Lugar de Memória – Observatório Cultural é uma plataforma gratuita e de fácil acesso, dedicada ao registro, à difusão e à valorização da memória, da identidade e do patrimônio cultural material e imaterial da região central de São Paulo.
