Pensada originalmente para o Museu de Arte do Rio (MAR), a exposição Funk: Um grito de ousadia e liberdade em território paulistano conta com um coletivo curador composto por Taísa Machado, Dom Filó, Amanda Bonan, Marcelo Campos e Renata Prado.
São 473 obras de diferentes linguagens, entre elas pinturas, fotografias e registros audiovisuais, que ajudam ao público visitante compreender o caminho percorrido pelo gênero musical desde a influência da música negra estadunidense, a consolidação no Rio de Janeiro até a chegada a baixada litorânea de São Paulo, até chegar à capital paulista onde ganha novos contornos.
Renata Prado destaca que o Funk é muito mais do que um gênero musical. “É muito importante a gente começar a enxergar o funk para além do baile funk, para além da musicalidade, para além da dança, porque funk é pedagogia, funk é metodologia de ensino, funk é artes visuais, funk é fotografia, funk, é obras de arte no geral”.
Neste Conversa Bem Viver, a curadora da exposição ainda fala sobre como figuras públicas ligadas ao movimento funk continuam sofrendo perseguição, mas também responde se, afinal, existe rivalidade entre o funk carioca e o paulista.
A exposição pode ser visitada até o dia 30 de agosto, de terça a domingo das 9h às 16h30 com ingressos a R$ 24,00 reais a inteira e R$ 12 reais a meia entrada, sendo que aos sábados a entrada é grátis.
Confira a entrevista completa
Brasil de Fato: Como vocês conceberam essa exposição?
Renata Prado: É muito importante a gente saber que essa exposição nasce no Museu de Arte do Rio, sob curadoria de Thaísa Machado, Dom Filó, Amanda Bonan e Marcelo Campos, onde o objetivo é falar sobre a cultura funk a partir da perspectiva carioca, trazendo todo o contexto do funk carioca desde a sua gênese, trazendo várias referências dos Estados Unidos, o que foi aquele movimento black, como isso se reflete em terras brasileiras, sobretudo no território carioca, quando essa exposição chega em São Paulo, ela vai para o Museu da Língua Portuguesa, com a necessidade de ter um recorte sobre a história do funk do cenário de São Paulo, onde entra a minha curadoria para compor esse time de curadores, que para mim foi uma honra, foi uma grande experiência trabalhar com Dom Filó e Taísa Machado, que são pessoas que fazem parte de fato a história do funk. Foi uma honra construir esse legado cultural da comunidade negra dentro de um equipamento público como o Museu da Língua Portuguesa.
Quando essa exposição vem para cá, eu faço uma curadoria trazendo o repertório histórico de São Paulo da década de 1970, 1980, 1990, e de como esse movimento funk se dá na cidade de São Paulo, como esse movimento funk se transforma no funk paulista a partir da Baixada Santista e como esse funk chega na capital de São Paulo, além de trazer uma questão muito importante a partir do conceito linguístico da cultura funk.
Estamos falando de uma exposição de funk no Museu da Língua Portuguesa, que é um espaço onde vai trabalhar, sobretudo, a língua brasileira, e o nosso falar brasileiro, ele tem um jeito “funkeado”. Pensando nessa perspectiva linguística e educativa da cultura funk, eu desenvolvo uma linha de pesquisa para construir obras de arte que destacam, de fato, a linguística do funk a partir de dialetos, a partir dos sotaques, a partir de gírias que compõem o cotidiano da língua do funk.
Estamos falando do mesmo museu que já recebeu, faz pouco tempo, uma exposição em homenagem a José Saramago, e agora recebe o funk. Isso é muito importante porque coloca em patamar igual tantas expressões culturais que a gente tem no nosso país e mostrando que o funk é também uma forma de produzir conhecimento, é também uma forma de se expressar que tá nesses mesmos níveis.
Com certeza, até porque quando a gente fala de cultura funk, muito se espera que a nossa cultura seja cultuada em espaços que não são vistos socialmente para o movimento funk. Então, relacionar uma exposição museológica com a linguística do funk em um dos maiores equipamentos culturais do Estado de São Paulo, é um avanço muito grande para a sociedade reconhecer a cultura funk como uma legítima cultura negra que faz parte do nosso país.
É muito importante a gente começar a enxergar o funk para além do baile funk, para além da musicalidade, para além da dança, porque funk é pedagogia, funk é metodologia de ensino, funk é artes visuais, funk é fotografia né, funk, é obras de arte no geral, então é muito importante a gente começar a educar os nossos olhares para começar a enxergar o funk nesse lugar.
O baile funk é a gênese de tudo isso que a gente constrói, mas limitar o funk somente a baile, limita as nossas possibilidades de construir arte dentro do universo do funk. Essa exposição mostra a potência artística da cultura funk para além dos bailes.
O funk já está ocupando o Museu da Língua Portuguesa, mas a repressão continua. São inúmeros os casos. Desde 2019, quando houve aquela invasão policial em Paraisópolis, que resultou na série de mortes, não é um caso isolado. Hoje a gente tem a figura do rapper Oruam, simbolizando muito dessa perseguição. Mas afinal, a gente está evoluindo? E você colocaria realmente o rapper Oruam como esse símbolo da repressão ao funk?
É muito importante a gente dizer que essa exposição tem um cunho político também, de fazer uma disputa de narrativa para mostrar para as pessoas de fato que a cultura funk já perdeu muitas pessoas, muitos artistas, muitos funkeiros, simplesmente por eles serem quem são. Desde artistas a frequentadores de baile, a polícia militar tem um comportamento muito comum em achar que tá tudo bem violentar esses corpos justamente por eles representarem uma cultura.
O que aconteceu no dia primeiro de dezembro de 2019 na favela de Paraisópolis, no Baile da 17, foi o assassinato de nove jovens, foi um massacre de nove jovens que frequentavam baile funk por parte da polícia militar.
O conceito museológico, ele não se perde dentro de uma exposição de funk, porque um dos conceitos da arte é garantir a memória, dentro da perspectiva do funk, a gente tem ali diversas obras que vão garantir a memória, não só desses jovens que foram assassinados pela Polícia Militar no Baile da 17, assim como tem obras de arte que garantem a memória de vários artistas que morreram, que foram assassinados nas operações de verão na Baixada Santista.
Então, você vai encontrar ali naquela exposição vários momentos de homenagem e memória a essas vidas que foram ceifadas e que construíram o legado da cultura funk, com o objetivo de dizer que basta. O fato de sermos funkeiros não deveria nos colocar em risco diante da segurança pública do estado de São Paulo.
Ao mesmo tempo que estamos ganhando espaço institucional, ainda assim a gente tem o poder público que persegue essa cultura e eu acredito que o rapper Oruam é um reflexo disso, justamente por ele também fazer parte desse universo, tanto do rap quanto do funk.
É muito importante a gente entender que é uma estratégia da mídia e do Estado em perseguir um artista como ele, mas a gente também não pode deixar de falar que isso é uma perseguição com o movimento funk. Existe uma força, uma onda institucional muito forte de querer criminalizar essa cultura e essa exposição nasce justamente para fazer o contraponto de toda essa perseguição.
Quanto você percebe que o funk de hoje é como o samba de um século atrás? Você faria alguma comparação entre esse samba que ressurgia nos morros cariocas lá pelo início do século 20 com o funk de hoje?
Sim, com certeza, até porque a gente ainda está falando sobre culturas negras, é muito importante a gente entender que toda a articulação, mobilização, existência de corpos jovens negros promovendo arte e cultura, naturalmente, teremos uma perseguição do Estado. A gente está falando de um Brasil colônia que tem o seu comportamento de perseguição com pessoas negras, indígenas, periféricas. Estamos falando de um histórico de um país que tem uma estrutura extremamente racista, mas que não se reconhece como tal. Essa perseguição do estado que começa com a cultura do samba, como isso reflete na década de 1990 no hip-hop e como a bola da vez agora é o movimento funk.
Se a gente fizer uma análise das culturas jovens negras desde a década de 1920 até os dias de hoje, a gente reconhece que existe um comportamento comum da segurança pública pública do Brasil, justamente nesse sentido de perseguir essa cultura, então da mesma forma que a gente tinha a lei da vadiagem, hoje a gente está tendo que lidar com o desprazer de ver a lei anti-Oruam tentando seguir adiante nos parlamentos.
Então é entender que o racismo só se renova. Eles incorporam uma outra forma de perseguir esses jovens e é muito importante a gente entender que tudo isso é racismo.
Hoje o Estado reconhece o Carnaval como uma das maiores potências culturais do Brasil e do mundo. Ainda assim, a gente tem escolas de samba sofrendo perseguições com seus barracões. É importante que a gente tenha os nossos espaços, que a gente tenha os nossos direitos sociais e culturais de exercer a nossa cidadania a partir da cultura.
É só a gente olhar para o histórico da Escola de Samba Vai-Vai, que é uma das escolas mais antigas da cidade de São Paulo, que se mantém em suas raízes negras e justamente pelo pavilhão Vai-Vai ser o que ele é, ele sofre uma uma perseguição muito forte do Estado.
Fugindo do lugar de escola de samba, a gente olha para os blocos de Carnaval. Por exemplo, hoje, os blocos de Carnaval da cidade de São Paulo estão tendo um corte de verbas absurdos, uma dificuldade extremamente burocrática de se colocar esses blocos porque não é interessante para o Estado fazer com que o carnaval seja construído pelo povo.
Vou te colocar na fogueira, quero saber se tem rivalidade entre o funk carioca, o funk paulista e o funk da baixada? E se quiser dizer qual é o teu preferido, qual é o melhor, o mais legítimo, fica à vontade, porque tá na fogueira, o melhor é sair sambando daí mesmo.
Bom, eu acho que quando se fala de território, sempre vai haver rivalidade, porque quem constrói esses espaços territoriais vai defender as suas identidades. E o funk é muito sobre identidade.
Então o funk carioca tem muito mais instrumentalização de tambores africanos. Você percebe ali a presença do tambor na musicalidade do funk carioca, porque a gente tá falando de uma cultura que nasce no Rio de Janeiro, que é o berço do samba samba, onde se tem uma comunidade negra muito forte.
O funk da capital de São Paulo, por exemplo, é um funk muito mais eletrônico, tem muito mais agudo, é um jeito de dançar diferente.
E quando a gente olha para a Baixada Santista, a gente encontra o funk consciente em sua essência.
Não à toa que a gente teve o assassinato de vários jovens funkeiros entre 2008 e 2012, justamente porque o funk consciente vai falar de questões politicamente conscientes.
Então essa rivalidade naturalmente vai existir, mas nós somos muito unidos. A gente é muito unido, a gente conhece todas as nossas diferenças identitárias, mas quando o assunto é funk, todos nós nos unimos em prol de uma única coisa: defender a nossa bandeira porque a gente acredita que o nosso funk é cultura.
Conversa Bem Viver

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