Cultura

‘Cinema anticolonial de Sarah Maldoror’ chega a São Paulo em mostra inédita no CCBB

Retrospectiva da cineasta francesa terá filmes restaurados, sessões comentadas e debates sobre o cinema

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O cinema anticolonial de Sarah Maldoror
Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo recebe a mostra ‘O Cinema Anticolonial de Sarah Maldoror’ | Crédito: Reprodução / @mostrasarahmaldoror / Instagram

A partir deste sábado (21), o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo recebe a mostra O Cinema Anticolonial de Sarah Maldoror – a maior retrospectiva já realizada no Brasil dedicada à obra da cineasta francesa de origem caribenha que fez do cinema uma ferramenta de resistência e transformação social. A programação, que segue até 22 de março, também acontece no Rio de Janeiro e em Salvador, com todas as atividades gratuitas.

A curadora Izabel Melo – que assina a mostra ao lado de Lúcia Monteiro e Letíria Santinon – destaca ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato a importância de trazer ao público brasileiro a obra de uma artista central para pensar o cinema político, as lutas anticoloniais e o protagonismo das mulheres na sétima arte.

“Sarah Maldoror é uma cineasta francesa, mas que tem uma origem caribenha e viveu na França. Ela tem uma relação muito profunda com as lutas anticoloniais e faz do seu cinema uma das armas nessa perspectiva”, resume Melo.

Nascida na França, Maldoror construiu uma trajetória marcada pelo engajamento: filmou em Angola, Guiné e Congo-Brazzaville, acompanhando de perto os movimentos de libertação no continente africano. Teve relação próxima com intelectuais caribenhos como Aimé Césaire e com o movimento surrealista, além de integrar companhias de teatro negro na França.

“Ela é uma figura central para pensar o pioneirismo das mulheres também nos cinemas africanos”, afirma a curadora. “É fundamental tanto para pensar nas lutas que ainda continuam hoje, quanto para uma reflexão mais ampla sobre a história do cinema e o lugar das mulheres e das produções africanas.”

A retrospectiva reúne curtas, longas-metragens e telefilmes de Maldoror, além de obras em que ela participou como assistente – como os clássicos A Batalha de Argel (de Gillo Pontecorvo) e Sem Sol (de Chris Marker). A curadoria também inclui filmes de realizadores latino-americanos que dialogam com sua obra, como a cubana Sara Gómez, o brasileiro Zózimo Bulbul e a contemporânea Safira Moreira.

“A gente montou uma curadoria que não tem necessariamente uma preocupação cronológica, mas temática. Ela organiza nosso olhar e nosso desejo de nos aproximar dessa filmografia”, explica IZabel.

Entre os destaques está Sambizanga (1972), primeiro longa-metragem de Maldoror, que será exibido na abertura da mostra (21/02, às 16h30) em cópia restaurada, com comentários de Renata Ducados, uma das filhas da cineasta.

Maldoror estudou cinema na União Soviética no início dos anos 1960, período em que a escola soviética atraía cineastas como Ousmane Sembène. Essa formação foi decisiva para sua concepção do cinema como veículo de militância.

“O entendimento do cinema como uma arma, como um veículo de militância e de busca pela revolução e transformação social, está muito presente no cinema de Sarah”, analisa. “Mas ela também tem uma dimensão poética muito pronunciada. O fato de compreender o cinema como engajamento político não prescinde de um apuro estético.”

A curadora destaca a coerência da artista ao longo da vida: “Ela consegue reunir as duas coisas na obra, e a gente percebe que, durante a vida, ela teve uma coerência muito grande na construção da obra e das escolhas em torno dos temas.”

Em um momento de intensas transformações políticas e sociais, não era simples para uma mulher negra e imigrante fazer cinema. As parcerias, explica Izabel, foram fundamentais para viabilizar materialmente sua trajetória.

“Ela é uma mulher negra, francesa, mas com origem imigrante. Não era muito simples para uma pessoa com o perfil dela fazer cinema. As parcerias são importantes porque ajudam a viabilizar, inclusive no sentido material da vida das pessoas, e proporcionam espaços de realização.”

A participação em A Batalha de Argel, por exemplo, foi um desses caminhos que permitiram a Maldoror acessar espaços no campo cinematográfico.

Cinema e política: uma resposta a Wim Wenders

A mostra chega num momento em que o debate sobre cinema e política voltou à tona com a polêmica declaração de Wim Wenders, presidente do júri do Festival de Berlim, que afirmou que cinema e política são coisas opostas. A fala gerou desconforto e boicotes – e contrasta profundamente com o espírito da obra de Maldoror.

“Exatamente. Cinema e política, aliás, cinema e as artes de forma geral, sempre caminharam juntas. Não faz sentido essa separação”, responde. “O próprio discurso que tende a separar é eminentemente político.”

Para a curadora, falar de política é falar de atuação sobre o mundo. “O cinema, sobretudo um cinema como o que Sarah Maldoror fez – e que continua se desdobrando no tempo, já que os filmes existem, são exibidos e convocam debates – é impossível pensar num cinema que não seja político, ainda que ele não se reivindique como tal. Não é o caso de Sarah. Ela sabia, ela dizia, ela se posicionava.”

Serviço

Mostra O Cinema Anticolonial de Sarah Maldoror

  • São Paulo: CCBB São Paulo (Rua Álvares Penteado, 112 – Centro)
  • Período: 21 de fevereiro a 22 de março
  • Programação gratuita (ingressos retirados no site ou uma hora antes das sessões)
  • Abertura: 21/02, 16h30 – Exibição de “Sambizanga” (cópia restaurada) com comentários de Renata Ducados, filha da cineasta

A mostra também acontece no Rio de Janeiro e em Salvador. Informações completas no Instagram @mostrasarahmaldoror e no site do CCBB.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Camila Salmazio

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