O centro de São Paulo permanece como um dos principais territórios da música, e com a música de concerto não é diferente. Reunindo tradição, patrimônio histórico e circulação cultural, espaços como o Theatro Municipal de São Paulo e a Sala São Paulo atuam ativamente na manutenção da cena clássica paulistana e na aproximação de novos públicos da chamada popularmente de música clássica.
Sediada no Complexo Cultural Júlio Prestes, a Sala São Paulo foi fundada a partir de uma estação de trem construída nos anos de 1800. O local é um equipamento público da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, inaugurado em 9 de julho de 1999. Atualmente, abriga a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e recebe artistas e grupos nacionais e internacionais.
O historiador e educador Rafael Hermanson Pomar afirma que a preservação do prédio é fundamental para a memória da cidade. “É um prédio muito significativo para um momento muito singular da história de São Paulo, que é o começo do século 19. Ajudar a preservar esse prédio, investir em restauração, em conservação, é também conservar essa memória da cidade de São Paulo, das pessoas”, diz.
Segundo o historiador, a estação de trem era um espaço de encontros que recebia pessoas do interior, de outros estados e imigrantes, enquanto São Paulo se transformava no início do século passado. “Preservar a estação, e aí, como eu disse, a Sala São Paulo, é muito importante por isso: porque ela, estando aqui, o público que frequenta os concertos passa a conhecer também essa história e se torna ator dessa preservação”, completa.
A Osesp, fundada oficialmente em 1954, passou décadas sem uma sede própria, ocupando espaços como uma sala no edifício Copan, o Memorial da América Latina e o Theatro São Pedro. A negociação para ocupar a Estação Júlio Prestes começou em 1996. Para Pomar, a chegada da orquestra e a construção da sala transformaram a região da Luz e dos Campos Elíseos.
“A chegada da Sala São Paulo, a construção da Sala São Paulo, a chegada da Osesp são processos que vão adicionar muitas camadas de significado para esse prédio. É um prédio que já era tombado como patrimônio histórico ali em 1996, quando as obras começaram, mas um patrimônio que até então era uma antiga estação de trem”, relata o historiador.
Além das apresentações, a Sala São Paulo desenvolve programas educacionais. Pomar cita o programa “Descubra a Orquestra”, voltado para a formação de professores. “A gente recebe os professores em alguns sábados ao longo do mês e eles têm o direito de trazer uma turma para um concerto didático”, afirma.
Júlia Mariana Ruoitti, de 16 anos, é uma das jovens que visitou a Sala São Paulo. Ela toca violoncelo e faz aula do instrumento na Escola de Música do Estado de São Paulo Tom Jobim (Emesp) — instituição do Governo do Estado de São Paulo e da Secretaria de Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Estado, também localizada no centro da cidade. A escola tem cerca de 2 mil alunos e 198 habilitações e cursos gratuitos de canto e instrumentos musicais.
Moradora de Carapicuíba, na zona oeste da região metropolitana, a estudante de violoncelo frequenta o centro duas vezes por semana para as aulas.
Júlia começou a tocar o instrumento aos sete anos, estimulada pelo pai, que toca violão. Ela relata que o contato com o gênero ocorreu por meio da prática instrumental e que a música clássica ainda não é uma realidade na vida de todos os jovens. “A gente não escuta música clássica no dia a dia. A gente normalmente escuta no máximo MPB, normalmente escutamos rock, funk, essas coisas que estão mais enraizadas na nossa cultura, mas não a música clássica. Eu só consegui mesmo me aprofundar na música clássica, consegui gostar da música clássica, depois de um tempo tocando música clássica”, conta a estudante.
A jovem planeja seguir carreira profissional na área. “Meu sonho é trabalhar com isso, é ganhar dinheiro fazendo o que eu gosto e entrar numa orquestra. Terminando a graduação, fazendo mestrado e aprofundando mais no meu instrumento”, diz Júlia, que tem como objetivo ingressar na Orquestra Tom Jobim ou na Orquestra Jovem do Estado.
Ela defende que o incentivo à arte deveria ser mais explorado nas escolas regulares. “A gente não recebe incentivo de qualquer coisa relacionada à arte, não só música, mas, por exemplo, desenho, a conhecer a nossa própria cultura, conhecer culturas de outros países. Para mim, a música me ajudou muito a me conhecer”, afirma.

Para o historiador Pomar, a Sala São Paulo populariza a música clássica a partir do acesso facilitado aos concertos e eventos do local. “Conferir acesso já é um primeiro passo importante. Então, concertos gratuitos, divulgação ampla e também entender quais são as demandas do público. Se, por um lado, existe esse estigma sobre a música clássica, existem outras demandas também, e a gente tenta absorver essas demandas para a programação artística”, diz.
O Theatro Municipal e a conexão com o presente
Localizado no bairro da República, o Theatro Municipal de São Paulo é outro símbolo da música clássica na cidade. Inaugurado em 1911 e inspirado em teatros europeus como a Ópera Garnier de Paris, o espaço tem capacidade para mais de 1.500 pessoas.
O local abriga corpos artísticos como a Orquestra Sinfônica Municipal, o Coro Lírico Municipal, o Coral Paulistano, o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, o Balé da Cidade de São Paulo e a Orquestra Experimental de Repertório.
A Orquestra Experimental de Repertório foi fundada em 1990 com o propósito de formar jovens para orquestras profissionais. Atualmente, o grupo é formado por músicos de 18 a 30 anos.
Leonardo Labrada, regente na Orquestra Experimental de Repertório, analisa a influência do centro na experiência musical. “Estar neste centro, pra mim, faz todo sentido. Porque a música do passado e a música que é feita hoje por compositoras e compositores vivos são um contínuo, mas se você escuta elas, elas são bem diferentes”, diz.

O regente destaca que o repertório da orquestra busca essa conexão temporal. “Não tem nenhum concerto nosso que não tenha pelo menos uma peça do século 20 ou 21. A gente tem essa questão de estar nessa memória e de estar conectado também com todas as práticas que existiram, com todos os regentes e músicos e compositores que já vieram antes”, explica.
Para Labrada, o centro de São Paulo representa essa simultaneidade. “O centro é, ao mesmo tempo, a memória e o presente. E o futuro, se a gente quiser. Dá para ver muito bem esses três recortes temporais acontecendo simultaneamente”, conclui.

Ele afirma ainda que a arquitetura do centro dialoga com os equipamentos culturais da música clássica. “Então você tem desde fachadas antigas, as contradições sociopolíticas e econômicas acontecendo no momento e o futuro de apontar, de ver as obras, de ver a verticalização da cidade, de ver, por um outro lado, também um cuidado muito grande com esses espaços e com as suas histórias. No fundo, quando a gente está trabalhando com orquestra, estamos lidando com tudo isso. A preservação da memória, do repertório que precisa da gente para ser executado, e o presente, no sentido de trabalhar com as pessoas que a gente tem hoje e conectadas com a nossa realidade.”
Para acessar a programação da Sala São Paulo, basta entrar no site: https://salasaopaulo.art.br/salasp/pt/programacao-ingressos
A programação do Theatro Municipal está disponível no seguinte link: https://theatromunicipal.org.br/programacao/
* Lugar de Memória – Observatório Cultural é uma plataforma gratuita e de fácil acesso, dedicada ao registro, à difusão e à valorização da memória, da identidade e do patrimônio cultural material e imaterial da região central de São Paulo.
