Música

Música clássica mantém tradição centenária no centro de São Paulo com espaços de concerto e formação de novos músicos

Theatro Municipal e Sala São Paulo são expoentes da música clássica no coração da capital paulista

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Complexo Cultural Júlio Prestes, na região da Luz, no centro de São Paulo
A Sala São Paulo, sediada no Complexo Cultural Júlio Prestes, é a casa da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e considerada uma das melhores salas de concertos do mundo | Crédito: Vitor Shimomura/Brasil de Fato

O centro de São Paulo permanece como um dos principais territórios da música, e com a música de concerto não é diferente. Reunindo tradição, patrimônio histórico e circulação cultural, espaços como o Theatro Municipal de São Paulo e a Sala São Paulo atuam ativamente na manutenção da cena clássica paulistana e na aproximação de novos públicos da chamada popularmente de música clássica.

Sediada no Complexo Cultural Júlio Prestes, a Sala São Paulo foi fundada a partir de uma estação de trem construída nos anos de 1800. O local é um equipamento público da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, inaugurado em 9 de julho de 1999. Atualmente, abriga a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e recebe artistas e grupos nacionais e internacionais.

O historiador e educador Rafael Hermanson Pomar afirma que a preservação do prédio é fundamental para a memória da cidade. “É um prédio muito significativo para um momento muito singular da história de São Paulo, que é o começo do século 19. Ajudar a preservar esse prédio, investir em restauração, em conservação, é também conservar essa memória da cidade de São Paulo, das pessoas”, diz.

Segundo o historiador, a estação de trem era um espaço de encontros que recebia pessoas do interior, de outros estados e imigrantes, enquanto São Paulo se transformava no início do século passado. “Preservar a estação, e aí, como eu disse, a Sala São Paulo, é muito importante por isso: porque ela, estando aqui, o público que frequenta os concertos passa a conhecer também essa história e se torna ator dessa preservação”, completa.

A Osesp, fundada oficialmente em 1954, passou décadas sem uma sede própria, ocupando espaços como uma sala no edifício Copan, o Memorial da América Latina e o Theatro São Pedro. A negociação para ocupar a Estação Júlio Prestes começou em 1996. Para Pomar, a chegada da orquestra e a construção da sala transformaram a região da Luz e dos Campos Elíseos. 

“A chegada da Sala São Paulo, a construção da Sala São Paulo, a chegada da Osesp são processos que vão adicionar muitas camadas de significado para esse prédio. É um prédio que já era tombado como patrimônio histórico ali em 1996, quando as obras começaram, mas um patrimônio que até então era uma antiga estação de trem”, relata o historiador.

Além das apresentações, a Sala São Paulo desenvolve programas educacionais. Pomar cita o programa “Descubra a Orquestra”, voltado para a formação de professores. “A gente recebe os professores em alguns sábados ao longo do mês e eles têm o direito de trazer uma turma para um concerto didático”, afirma.

Júlia Mariana Ruoitti, de 16 anos, é uma das jovens que visitou a Sala São Paulo. Ela toca violoncelo e faz aula do instrumento na Escola de Música do Estado de São Paulo Tom Jobim (Emesp) — instituição do Governo do Estado de São Paulo e da Secretaria de Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Estado, também localizada no centro da cidade. A escola tem cerca de 2 mil alunos e 198 habilitações e cursos gratuitos de canto e instrumentos musicais.

Moradora de Carapicuíba, na zona oeste da região metropolitana, a estudante de violoncelo frequenta o centro duas vezes por semana para as aulas. 

Júlia começou a tocar o instrumento aos sete anos, estimulada pelo pai, que toca violão. Ela relata que o contato com o gênero ocorreu por meio da prática instrumental e que a música clássica ainda não é uma realidade na vida de todos os jovens. “A gente não escuta música clássica no dia a dia. A gente normalmente escuta no máximo MPB, normalmente escutamos rock, funk, essas coisas que estão mais enraizadas na nossa cultura, mas não a música clássica. Eu só consegui mesmo me aprofundar na música clássica, consegui gostar da música clássica, depois de um tempo tocando música clássica”, conta a estudante.

A jovem planeja seguir carreira profissional na área. “Meu sonho é trabalhar com isso, é ganhar dinheiro fazendo o que eu gosto e entrar numa orquestra. Terminando a graduação, fazendo mestrado e aprofundando mais no meu instrumento”, diz Júlia, que tem como objetivo ingressar na Orquestra Tom Jobim ou na Orquestra Jovem do Estado. 

Ela defende que o incentivo à arte deveria ser mais explorado nas escolas regulares. “A gente não recebe incentivo de qualquer coisa relacionada à arte, não só música, mas, por exemplo, desenho, a conhecer a nossa própria cultura, conhecer culturas de outros países. Para mim, a música me ajudou muito a me conhecer”, afirma.

Júlia Mariana Ruoitti, de 16 anos, estuda violoncelo na Escola de Música do Estado de São Paulo Tom Jobim (Emesp)
Júlia Mariana Ruoitti, de 16 anos, estuda violoncelo na Escola de Música do Estado de São Paulo Tom Jobim (Emesp) | Crédito: Vitor Shimomura/Brasil de Fato

Para o historiador Pomar, a Sala São Paulo populariza a música clássica a partir do acesso facilitado aos concertos e eventos do local. “Conferir acesso já é um primeiro passo importante. Então, concertos gratuitos, divulgação ampla e também entender quais são as demandas do público. Se, por um lado, existe esse estigma sobre a música clássica, existem outras demandas também, e a gente tenta absorver essas demandas para a programação artística”, diz.

O Theatro Municipal e a conexão com o presente

Localizado no bairro da República, o Theatro Municipal de São Paulo é outro símbolo da música clássica na cidade. Inaugurado em 1911 e inspirado em teatros europeus como a Ópera Garnier de Paris, o espaço tem capacidade para mais de 1.500 pessoas. 

O local abriga corpos artísticos como a Orquestra Sinfônica Municipal, o Coro Lírico Municipal, o Coral Paulistano, o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, o Balé da Cidade de São Paulo e a Orquestra Experimental de Repertório.

A Orquestra Experimental de Repertório foi fundada em 1990 com o propósito de formar jovens para orquestras profissionais. Atualmente, o grupo é formado por músicos de 18 a 30 anos.

Leonardo Labrada, regente na Orquestra Experimental de Repertório, analisa a influência do centro na experiência musical. “Estar neste centro, pra mim, faz todo sentido. Porque a música do passado e a música que é feita hoje por compositoras e compositores vivos são um contínuo, mas se você escuta elas, elas são bem diferentes”, diz.

Leonardo Labrada, regente na Orquestra Experimental de Repertório | Créditos: Íris Zanetti

O regente destaca que o repertório da orquestra busca essa conexão temporal. “Não tem nenhum concerto nosso que não tenha pelo menos uma peça do século 20 ou 21. A gente tem essa questão de estar nessa memória e de estar conectado também com todas as práticas que existiram, com todos os regentes e músicos e compositores que já vieram antes”, explica. 

Para Labrada, o centro de São Paulo representa essa simultaneidade. “O centro é, ao mesmo tempo, a memória e o presente. E o futuro, se a gente quiser. Dá para ver muito bem esses três recortes temporais acontecendo simultaneamente”, conclui.

Theatro Municipal, no bairro da República, no centro de São Paulo | Créditos: Fundação TMSP

Ele afirma ainda que a arquitetura do centro dialoga com os equipamentos culturais da música clássica. “Então você tem desde fachadas antigas, as contradições sociopolíticas e econômicas acontecendo no momento e o futuro de apontar, de ver as obras, de ver a verticalização da cidade, de ver, por um outro lado, também um cuidado muito grande com esses espaços e com as suas histórias. No fundo, quando a gente está trabalhando com orquestra, estamos lidando com tudo isso. A preservação da memória, do repertório que precisa da gente para ser executado, e o presente, no sentido de trabalhar com as pessoas que a gente tem hoje e conectadas com a nossa realidade.”

Para acessar a programação da Sala São Paulo, basta entrar no site: https://salasaopaulo.art.br/salasp/pt/programacao-ingressos

A programação do Theatro Municipal está disponível no seguinte link: https://theatromunicipal.org.br/programacao/

* Lugar de Memória – Observatório Cultural é uma plataforma gratuita e de fácil acesso, dedicada ao registro, à difusão e à valorização da memória, da identidade e do patrimônio cultural material e imaterial da região central de São Paulo.

Editado por: Geisa Marques e Thaís Ferraz

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