Democracia

"Se o Temer tivesse um mínimo de compromisso com o povo, ele renunciaria", diz Lula

Em ato realizado em São Paulo (SP), ex-presidente voltou a defender eleições diretas e criticou a reforma trabalhista

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

,

Ouça a matéria:

Ex-presidente discursou em manifestação convocada pela Frente Brasil Popular e Povo Sem Medo / Mídia Ninja

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a defender eleições diretas e pedir a renúncia do presidente golpista, Michel Temer (PMDB), nesta quinta-feira (20). "Se o Temer tivesse um mínimo de compromisso com o povo, ele renunciaria", disse. 

O pronunciamento do petista foi feito em um ato na Avenida Paulista, em São Paulo (SP). O protesto, que reuniu milhares de pessoas, foi convocado pela Frente Brasil Popular (FBP) e contou com a adesão de diversas organizações, como a Frente Povo Sem Medo, em defesa da democracia e contra a perseguição ao ex-presidente. De caráter nacional, a mobilização ocorreu em pelo menos dez capitais do país. Não foram divulgados números oficiais da quantidade de manifestantes nas ações.

Antes do discurso, em entrevista ao Brasil de Fato, Lula agradeceu à população pelos atos de solidariedade: "Eu queria dizer ao povo brasileiro que ir para a rua é um instrumento para que a gente consiga conquistar e consolidar a democracia no Brasil. Não é fácil o processo democrático, ele sofre, no Brasil, golpes, de tempos em tempos. Eu quero agradecer às pessoas que vêm para a rua, que acreditam, que lutam, pois somente assim a gente vai consolidar a democracia no Brasil."

:: Confira como foram as mobilizações pelo país no minuto a minuto do Brasil de Fato

No pronunciamento, o petista criticou a aprovação e sanção da reforma trabalhista. "Os trabalhadores sempre estiveram dispostos a aperfeiçoar a legislação, quem não queria eram os empresários e a Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo], que sempre quiseram rasgar a CLT [Consolidação das Leis do Trabalho]." 

O ex-presidente defendeu como resposta aos retrocessos o processo de escolha do novo presidente pela população nas urnas. Na semana passada, em coletiva de imprensa após a condenação sem provas no caso do Tríplex do Guarujá, o petista já colocou à disposição do PT para ser o candidato a presidente da República em 2018.

"Esse país só tem um jeito: eleição direta, e eleger um presidente que tenha coragem de olhar na cara do povo", disse Lula, aplaudido pelos manifestantes na Avenida Paulista. "Eles sabem que se um dia vocês elegerem uma pessoa comprometida com o povo, a gente vai ter que desmontar a desgraceira que eles fizeram."

Em seu discurso, Lula também se lembrou do falecimento, na manhã desta quinta-feira (20), de Marco Aurélio Garcia, assessor especial para Assuntos Internacionais durante seu governo e o de Dilma Rousseff: "Grande intelectual que me acompanhou por este mundo nestes 30 anos", disse o petista.

Veja também como foram os protestos pelo país:

SÃO PAULO

Foto: Júlia Dolce/Brasil de Fato

Na capital paulista, o ato teve sua concentração por volta das 17h no Museu de Artes de São Paulo (MASP), na Avenida Paulista.

Além de Lula, o ato também reuniu lideranças como o senador Lindbergh Farias (PT-RJ); o membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Gilmar Mauro; o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) Guilherme Boulos; a senadora e presidenta do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann; além de representantes dos movimentos populares e sindicais que compõem a FBP.

Com faixas, cartazes e bandeiras, os manifestantes pediram a volta de Lula à Presidência da República, criticando a possibilidade de ele não poder se eleger em 2018, por conta da tentativa de condenação que setores do Judiciário promovem, como do juiz de primeira instância Sergio Moro.

Outra pauta da mobilização foi a defesa dos direitos trabalhistas, frente à aprovação da reforma trabalhista no último dia 11, considerada um desmonte de direitos para os manifestantes presentes no ato, uma vez que flexibiliza diversas regras da CLT.

RECIFE

Com manhã chuvosa na capital Recife, os pernambucanos foram os primeiros a saírem às ruas nesta quinta-feira. O ato teve início às 9h e reuniu cerca de 1 mil pessoas, entre elas militantes de movimentos populares, sindicais e trabalhadores e trabalhadoras. Os manifestantes, que também pediram "Fora, Temer!" e "Diretas Já", ocuparam as ruas em frente ao Parque 13 de Maio e demonstraram solidariedade ao ex-presidente Lula.

CURITIBA

Na capital paranaense, militantes de diferentes organizações concentraram-se na Rua XV, Centro de Curitiba (PR), durante A tarde para atividades de panfletagem, debate com a população e reflexões sobre os impactos da Operação Lava Jato ao país.

Ao longo de toda a tarde, os militantes distribuíram materiais e dialogaram com as pessoas que passavam pelo local. Além dos impactos econômicos, as pessoas que participaram da panfletagem denunciaram os retrocessos que estão acontecendo no país. Elas também criticam o modo com que a operação tem sido conduzida. 

Marisa Stédile, da direção da Federação dos Trabalhadores em Empresas de Crédito do Paraná (Fetec), fala que a decisão sem provas fere o Estado de Direito do país. Ela também avalia que a condenação é resultado de um processo que também resultou no golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff. "Ele se dá não apenas contra a figura da presidenta Dilma, mas também contra todos os programas sociais instituídos no governo do presidente Lula."

RIO DE JANEIRO

Foto: Mídia Ninja

Em solidariedade ao ex-presidente Lula e contras as reformas trabalhista e da Previdência, cerca de 5 mil pessoas se reuniram na Cinelândia, região central do Rio de Janeiro (RJ).

O presidente da regional carioca da Central Única dos Trabalhadores (CUT-RJ), Marcelo Rodrigues, caracterizou a condenação de Lula em primeira instância pelo juiz Sérgio Moro como "absurda". "Em nosso entendimento, [a medida] não condena a pessoa Lula, mas um projeto político que Lula representa", disse o sindicalista.

A deputada federal Jandyra Feghali (PCdoB-RJ) afirmou que a notícia teve grande repercussão dentro do Congresso Nacional: "Mesmo aqueles parlamentares que nunca apoiaram e nem têm simpatia por Lula estão no mesmo campo da esquerda ficaram chocados, porque ninguém que respeita a democracia pode admitir que alguém seja condenado sem provas."

SALVADOR

Com início às 16h, o ato em Salvador reuniu 5 mil manifestantes, que saíram em marcha da Praça Campo Grande, no centro da cidade, até o Campo da Pólvora, onde fica o Fórum Ruy Barbosa.

David Bacelar, coordenador geral do Sindicato dos Petroleiros da Bahia (Sindipetro), afirmou que a defesa do direito do ex-presidente Lula se candidatar nas eleições de 2018 significa, também, a defesa do Estado democrático: "Estamos aqui também em defesa da democracia e em defesa do direito do companheiro Lula ser candidato a presidente da República, para que o TRE do Rio grande do Sul, assim como fizeram com Vacari, garanta a possibilidade do Lula ser presidente. Não existem provas."

BRASÍLIA

Foto: Mídia Ninja

Na capital federal, centenas integrantes de partidos de oposição, movimentos populares e centrais sindicais se concentraram na Praça dos Três Poderes.

Nas imediações do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto, os manifestantes denunciaram as reformas de retirada de direitos do trabalhador, em especial as reformas previdenciária e trabalhista, e a perseguição ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo juiz de primeira instância Sergio Moro.

Os manifestantes pedem também a saída imediata de Michel Temer da chefia do Executivo, como relatou o membro do Núcleo em Defesa da Democracia, Alfredo Alencastro: "O ato em defesa da democracia é fundamental para sintetizar a vontade popular, na convocação de eleições diretas e pelo fim da perseguição a Lula."

O aposentado Francisco Xavier criticou a perseguição midiática e jurídica ao ex-presidente Lula e afirmou estar preocupado com o avanço conservador no país. "Este é um momento muito perigoso e triste da história nacional. Vi coisa parecida na época da ditadura e não esperava que fosse reviver algo do tipo. O povo precisa reagir", disse.

PORTO ALEGRE

Nem mesmo o frio de 13° que atingia Porto Alegre (RS) impediu a população gaúcha de se reunir na Esquina Democrática, tradicional ponto de manifestações populares no centro da cidade, para protestar contra as reformas previdenciária e trabalhista de Michel Temer (PMDB).

A concentração para o ato começou por volta das 17h e reuniu centenas de trabalhadores, estudantes, militantes de sindicatos e de movimentos populares, que pediram a saída de Temer da Presidência.

Roberta Coimbra, dirigente estadual do MST do Rio Grande do Sul, destacou a unidade entre a classe trabalhadora urbana e rural no enfrentamento das reformas: "Isso é fundamental para que a gente possa fazer a denúncia para a sociedade, mas também para se articular para enfrentar esse momento político difícil do nosso país."

BELO HORIZONTE

Em Belo Horizonte, a manifestação ocorreu na Praça Afonso Arinos, ponto tradicional de protestos da capital mineira. Para Ana Carolina Vasconcelos, do Levante Popular da Juventude, este é mais um dia de denúncia dos retrocessos do governo golpista de Michel Temer, contra "a reforma trabalhista que foi aprovada, e que a gente luta tanto para que ela seja revertida; para denunciar a tentativa de desmonte da Previdência social; para denunciar a PEC que congela os gastos. E para dizer que agora nós não vamos nos calar", afirmou a militante.

BELÉM, MOJU E MARABÁ

No estado do Pará, a capital, Belém, teve protesto dos movimentos da FBP, que realizaram uma ação de corpo a corpo e panfletagem no Mercado Ver-o-Peso, pela manhã. Ainda ocorreram atos no final da tarde em Moju e em Marabá, interior paraense.

FORTALEZA

Na capital cearense, um ataque à sede da CUT estadual fez com que a manifestação convocada para a tarde desta quinta-feira fosse adiada.

Pela manhã, cerca de oito homens encapuzados e armados invadiram o local em que dirigentes da central e membros da Frente Brasil Popular realizavam uma reunião para acertar os últimos preparativos da manifestação.

A ação durou por volta de 40 minutos e o presidente da CUT-CE, Will Pereira, e outras pessoas que estavam no local foram mantidas reféns. As entidades vão definir uma nova data para o ato.

Edição: Vivian Fernandes