Democracia

Petro volta a denunciar planos de golpe na Colômbia e pede que povo defenda o governo

Presidente acusa MP de querar derrubá-lo por 'vias judiciais'; movimentos de esquerda marcam ato para dia 8

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Petro apresentou sua lista tríplice para novo procurador em agosto de 2023, mas Suprema Corte não chegou a um consenso sobre o substituto de Barbosa - Raul ARBOLEDA / AFP

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, voltou a acusar o Ministério Público do país de tentar derrubar seu governo “pelas vias judiciais” e pediu uma mobilização popular em defesa de seu mandato. Na última sexta-feira (02), o mandatário mencionou as investigações contra a Federação Colombiana de Educadores (Fecode), nas quais o MP apura supostas doações do grupo à campanha eleitoral do presidente, em 2021.

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O chefe do Executivo publicou um texto na rede social X afirmando que as investigações representam uma “ruptura institucional” e pediu atenção dos outros países à “tomada do MP pela máfia”. No texto, Petro compara a ação do MP com a perseguição ao partido político União Patriótica (UP). Em 30 de janeiro, a Corte Interamericana de Direitos Humanos responsabilizou o Estado colombiano pela perseguição violenta, desaparecimento forçado, assassinatos e torturas contra 6 mil integrantes da legenda de esquerda UP na década de 1980 e 1990.

No sábado, o presidente afirmou que a Fecode fez uma doação de 500 milhões de pesos colombianos (R$ 635 mil na cotação atual) ao seu partido Colombia Humana, mas que isso não foi destinado à sua campanha eleitoral.

Em resposta às investigações, a Fecode convocou uma manifestação para quinta-feira (8) juntamente com outras entidades progressistas que apoiam Petro contra a ação do MP e em defesa do governo. Em comunicado, o grupo disse que não pode permitir “que os poderes mafiosos sigam cooptando instituições, menos ainda o MP, para se perpetuar no poder” e que o protesto tem como objetivo denunciar a perseguição contra o movimento sindical.

Investigações e crise política

A crise política no país que tem como atores centrais o chefe do Executivo e o representante do MP se estende há meses e esquentou há duas semanas, quando o chanceler Álvaro Leyva foi suspenso pela procuradoria-geral da República. Ele é acusado de ter “excedido suas funções” depois de cancelar, em 13 de setembro, uma licitação para escolher a empresa que emitiria os passaportes colombianos.  

Segundo o MP, o ministro das Relações Exteriores não tinha nenhuma fundamentação técnica para isso. A única empresa que restava no processo era a Thomas Greg & Sons de Colombia SA. Petro defendeu o ministro, disse que essa é uma manobra do MP e que Leyva seguiu suas ordens.

O aumento da temperatura na relação entre Petro e Barbosa também se deu nas redes sociais. Na última semana, uma publicação em uma conta falsa do procurador-geral Francisco Barbosa afirmava que abriria investigação contra Ricardo Roa, presidente da empresa petrolífera colombiana Ecopetrol. Petro respondeu e disse que o MP busca um “golpe de Estado”. Em nota, o MP disse que o procurador-geral não tem nenhuma conta em redes sociais. 

Atritos também ocorreram em agosto, no debate sobre a sucessão de Barbosa. O mandato do procurador termina em 12 de fevereiro e o presidente Petro apresentou a sua lista tríplice ao Supremo Tribunal de Justiça há 5 meses. Para ser empossado, o novo chefe do MP precisa receber ao menos 16 votos dos 23 magistrados que compõem a Corte. A votação se alongou e terminou só em 25 de janeiro. Os ministros não chegaram a um consenso sobre o novo nome porque 13 votaram em branco.

Caso a Corte não chegue a um consenso até 12 de fevereiro, a atual vice-procuradora Marta Mancera assume o cargo. Ela também está envolvida na crise entre Petro e Barbosa. O atual procurador afirmou em entrevista à rádio Blu no último dia 29 que Petro pediu a troca da vice-procuradora. Ela é considerada braço direito de Barbosa e foi investigada por proteger funcionários corruptos que trabalhavam no distrito de Buenaventura.

Histórico de ataques ao presidente

Essa não é a primeira vez que Petro denuncia uma tentativa de golpe contra seu governo. Em março de 2023, John Marulanda, ex-diretor da Associação de Oficiais Reformados das Forças Militares da Colômbia, disse em uma entrevista que faria “de tudo para destituir um sujeito que foi guerrilheiro” e insinuou que o país deveria seguir o exemplo do Peru, onde o então presidente Pedro Castillo fora afastado do poder. Petro respondeu. Chamou de tentativa de golpe de Estado e pediu investigação sobre o caso.

Em junho, Petro exigiu a renúncia de sua então chefe de Gabinete, Laura Sarabia, e do embaixador colombiano na Venezuela, Armando Benedetti, em meio a ameaças trocadas por ambos que envolviam supostas escutas telefônicas, roubo de dólares e doações de campanha. O presidente colombiano chamou o episódio de "golpe suave para interromper a luta contra a impunidade".

No mesmo mês, intelectuais e líderes políticos de 20 países assinaram uma carta denunciando a tentativa de congressistas de sabotar o governo barrando reformas propostas pelo presidente como a da saúde, a trabalhista e a da previdência. Eles também classificaram esse movimento como "golpe suave". Petro havia rompido com três partidos de direita que compunham sua coalizão após enfrentar essas travas no Congresso. A decisão levou a uma reformulação ministerial e perda de interlocução com setores de centro e de direita no Legislativo. Petro, então, convocou manifestações em apoio às reformas e uma "mobilização permanente" da sociedade.

Edição: Lucas Estanislau