Editorial

Quem quer o impeachment?

Existe um grande interesse da classe patronal em um novo governo que permita tornar a mão de obra brasileira mais barata

São Paulo

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O assunto é polêmico, há parcelas consideráveis da população que apoiam o afastamento da atual presidente, e há também quem o recuse com veemência. Entre estes dois setores opostos, há um número maior ainda de cidadãos que não têm uma opinião muito bem formada sobre o assunto ou sequer tem ideia do que motiva essa "guerra". Entre os que saem às ruas pedindo a saída de Dilma, muitas vezes falta informação sobre como funciona o processo, e quem assume no caso do afastamento.

Alguns fatos nos dão pistas do que pode vir junto com um impeachment.

A FIESP (que é a Federação que reúne os patrões da indústria em São Paulo) tem apoiado os chamados "amarelos", inclusive servindo filé mignon de almoço e oferecendo a rede wi-fi para quem estivesse favorável à causa. Portanto, já temos uma pista: existe um grande interesse da classe patronal em um novo governo que permita tornar a mão de obra brasileira mais barata, com a aprovação de vários projetos que reduzem direitos dos trabalhadores, entre eles o projeto de lei que amplia as terceirizações, reduzindo salários. Não se engane: quando foi que seu patrão te deu alguma coisa de graça?

Propostas da oposição

Junto com o PSDB, maior partido da oposição, o PMDB já apresentou um plano com medidas a serem executadas após o impeachment. Nesse pacote também está a privatização de diversas empresas estatais, e a entrega do petróleo brasileiro a empresas estrangeiras.

Outras teses dão conta de que o afastamento de Dilma ajudaria a abafar as investigações da Operação Lava Jato, livrando a cara das centenas de pessoas – peixes grandes da política. Entenda: a corrupção sempre existiu na história do Brasil, mas o fato é que foi neste governo que houve um direcionamento para trazer tudo isso à tona. Cabe lembrar que a Odebrecht declarou pagar propinas desde 1980, ou seja, desde a ditadura militar.

Democracia

Estamos no período mais longo de democracia ininterrupta da história brasileira, portanto temos a oportunidade de aperfeiçoarmos nossos mecanismos de participação. Dilma Rousseff foi eleita com 54 milhões de votos, se dentre estes milhões o seu voto não está, espere até a próxima eleição. Se você pede a saída de alguém legitimamente eleito e que não cometeu nenhum crime de responsabilidade (única justificativa para um impeachment, de acordo com a Constituição), você está do lado de quem quer um golpe. E, diga a verdade, você quer mais um golpe na história do seu país?