Mobilizações

Porque Pernambuco é pela Democracia?

Pernambuco levou milhares de pessoas as ruas nos dias 18 e 31 de março

Recife

,
Ato em Recife dia 18 de março de 2016 / Anderson Girotto

O povo pernambucano é de luta. A defesa da democracia brasileira tem referências de mobilizações populares históricas no estado. Ao lançar um olhar para o cenário atual, os dois últimos atos contra o golpe, que aconteceram em Pernambuco nos dias 18 e 31 de março, mobilizaram milhares de pessoas na capital e em várias cidades do interior. Só no Recife, o ato do dia 18 reuniu cerca de 200 mil pessoas. Ambas as mobilizações foram puxadas pela Frente Brasil Popular e a última também pela Frente Povo Sem Medo.

"É um momento político histórico que estamos vivendo no país, no qual movimentos populares e partidos de esquerda, que lutam pela democracia e contra o golpe, se unem para fortalecer a defesa dos direitos da classe trabalhadora", pontua Gleisa Campigotto, uma das coordenadoras da Frente Brasil Popular. O povo já estava nas ruas durante todo o ano de 2015 para barrar uma série de retrocessos e as mulheres foram protagonistas desse processo, como observa Gleisa: "Muito antes das mobilizações contra o golpe, nós, mulheres, estávamos nas ruas pelas nossas vidas e para garantir que nossos direitos não fossem retirados".

A Frente Brasil Popular, ampla articulação da esquerda, que reúne movimentos populares, sindicatos, coletivos e partidos políticos, foi lançada nacionalmente no dia 3 de outubro de 2015. Aqui em Pernambuco, o lançamento aconteceu no final do mesmo mês. O secretário de comunicação da Central Única do Trabalhadores (CUT), Fabiano Moura, afirma: “Essa unidade é muito significativa para as cidades do interior. A frente tem promovido reuniões, plenárias e debates sobre a importância de defender a democracia". Cidades como Caruaru, Petrolina, Afogados e Ouricuri tem levado muita gente às ruas.

Pessoas que não estão organizadas em movimento popular, sindicato ou partido também estão participando das mobilizações recentes. É o caso de Guadalupe Freitas, advogada de 53 anos, por exemplo. Ela esteve no ato do dia 31, na capital pernambucana, por entender a importância de fortalecer a luta em defesa da democracia nesse momento. "A atual conjuntura do país, na qual um grupo que tem hegemonia no poder, na mídia, que tenta barrar qualquer tipo de transformação social e que não garante a participação do povo, mostra sua cara sem disfarce, fez com que eu sentisse a necessidade de ir para rua", explica.

O técnico em Informática Thiago Wanderley Alves, de 27 anos, esteve nos dois últimos atos que aconteceram no Recife e acredita que a juventude tem papel fundamental nesse momento. “Acho que a juventude tem que se inteirar mais sobre o que acontece no cenário político brasileiro, pois esse legado será nosso. Depois passaremos ele para uma outra geração, e assim sucessivamente”, expõe.

As massas que vão às ruas, hoje, são frutos de mobilizações anteriores e se referenciam nelas, como coloca Gleisa: “Somos filhas e filhos da luta pela terra e pela reforma agrária aqui em Pernambuco. Inicialmente com as Ligas Camponesas e, há 30 anos, com a atuação do MST". Fabiano lembra também das mobilizações nas Diretas Já e no processo da eleição de Lula.

 

Lutas populares históricas

As Ligas Camponesas surgiram em 1946 e foram importantes representantes dos interesses das trabalhadoras e dos trabalhadores rurais, unindo grande parte deles e apresentando propostas para o futuro do país. Na cidade de Vitória de Santo Antão, a liga específica se chamava Sociedade Agrícola e Pecuária de Pernambuco (SAPPP). Logo foi acusada como socialista e proibida de agir na região. A legalidade só veio em 1955. As ideias reformistas, contudo, não foram bem recebidas pelo regime militar, que travou uma intensa caça aos movimentos identificados como de esquerda. Vários membros de Ligas Camponesas foram presos ou assassinados.

Uma figura importante na resistência à Ditadura Militar é a de Dom Helder Câmara. Arcebispo emérito de Recife e Olinda e grande defensor dos direitos humanos. Por sua atuação voltada para os pobres e para a não violência, recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais. Entre 1964 e 1985, período que estava na diocese de Olinda e Recife, fortaleceu as comunidades eclesiais de base e criou a Comissão de Justiça e da Paz. Na sua luta contra o regime militar, utilizou todos os meios de comunicação para denunciar as injustiças. Por isso, foi perseguido pelos militares, sendo acusado de comunismo.

 

O povo segue na luta

As mobilizações seguem em todo estado. A partir da sexta (15) até o domingo (17), Recife e várias cidades do interior farão atos e vigílias pela democracia e contra o golpe. A jornada Popular pela Democracia começará na tarde desta sexta-feira, na Praça do Derby, no Recife, com a realização de um ato político- cultural e a montagem do acampamento permanente. Na manhã do domingo, todos se dirigirão para o Marco Zero, para acompanhar a votação do impeachment. "O povo pernambucano é aguerrido e não vai retroceder", conclui Gleisa.