Chile

Mapuches denunciam militarização por parte do Estado nos conflitos por terras

Segundo especialistas, o Estado chileno tem autorizando empreendimentos que violam os diretos dos povos tradicionais

Redação

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Os povos Mapuches lutam pela recuperação de suas terras ancestrais / El ciudadano

Forças especiais da polícia têm montado um operativo de segurança que ameaça povos Mapuches na zona sul do Chile, nas regiões do Bio Bop, Araucania e Los Rios. Isso é o que denunciam organismos de direitos humanos do país. Segundo eles, cerca de 1.390 oficiais, duas bases militares – de Pidima y Pailahueque –, além de 50 carros blindados, tanques, helicópteros e um arsenal de armamento de guerra estariam atuando no local.

Um informe elaborado pelo Observatório de Direitos Humanos dos Povos Indígenas e o Grupo de Trabalho pelos Direitos Coletivos, feito no ano de 2015, intitulado “Os impactos nos Direitos Humanos dos projetos de investimentos hidrelétricos nos territórios mapuches da região da Araucania”, indica o enorme impacto que os projetos energéticos têm sobre as comunidades tradicionais que moram no sul de Chile.

O documento, que indica a violação de direitos dos povos tradicionais, questiona o papel do Estado e a insuficiência da legislação ambiental sobre o tema. De acordo com o informe, sejam extrativos, produtivos ou de infraestrutura, “[os projetos] têm sido promovidos e autorizados pelo Estado e autoridades públicas, sem levar a cabo processos adequados de consulta aos indígenas e sem obtenção de consentimentos prévios e informando as comunidades Mapuches afetadas”.

As organizações que atuam com os indígenas advertem que há décadas ocorre “a militarização do território por parte do Estado chileno”. As denúncias realizadas pelas entidades indicam que essas movimentações se destinam à vigilância e à repressão das comunidades tradicionais que mantém a luta pela recuperação das terras ancestrais e pela autodeterminação como nação.

Presos políticos

Recentemente, conforme noticiou o portal Resumen Latinoamericano, a comunidade Mapuche Kawellü Ko (Cauñicú), que no último dia 27 de fevereiro recuperou uma terra no Alto Bío Bío, denunciou que sofreu espionagem com drones sobre seu território. Em nota pública, a comunidade responsabiliza o ex-detentor da área, Pedro Esquerré, e policiais pelos atos. Segundo líderes comunitários, esta ação responde aos interesses dos empresários que querem instalar centrais hidrelétricas na zona. De acordo com dados divulgados pelo Ministério de Energia de Chile, existem pelo menos 17 locais ao longo do Rio Queuco que apresentam “potencial hidroelétrico”.

Segundo defensores de direitos humanos e lideranças Mapuches, a transferência das demandas indígenas ao âmbito jurídico e policial, a aplicação da Lei Antiterrorista – herdada da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990) e a atuação da grande mídia no país, têm sido fundamentais aos interesses do grande empresariado e feito com que se lide com o conflito de maneira a criminalizar os Mapuches, o que justifica a ação militar.

Um levantamento realizado pela organização Meli Wixan Mapu, indica que, atualmente, existam 30 presos políticos Mapuches no Chile. Sergio Catrilaf, presidente da Comunidade Juan Catrilaf II, do setor Ñilquilco da comunidade de Padre Las Casas, está preventivamente preso, acusado de “homicídio de caráter terrorista”, devido a um incêndio no qual morreram duas pessoas. Numa carta pública dirigida à presidenta chilena Michelle Bachelet, Sérgio manifesta que a perseguição do povo Mapuche atravessa a história do país e se repete hoje, no que parece como uma “política de Estado”.

“Presidenta, por que o dialogo com o povo Mapuche tem que ser com a militarização na Araucania? Com armas de fogo? Com perseguição e falsas testemunhas? Em algumas comunidades mora-se quase que em Estado de sítio. Se nos julga pelo que somos, não pelo que fazemos. Trabalhamos com pecuária e com agricultura, mantemos nossa espiritualidade, nossa língua, nossas cerimônias e, como povo pré existente ao Estado Chileno, pedimos e exigimos liberdade, já que estamos na cadeia por provas inválidas, falsas, que tentam encarcerar pessoas inocentes Mapuches”, expressou Sergio na carta publicada a partir da cadeia.