Crise política

"A elite brasileira vai dar a cabeça de Eduardo Cunha", aposta Ciro Gomes

Em coletiva de imprensa na noite desta quinta (28), o ex-ministro opina sobre episódios da conjuntura nacional

São Paulo

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"E eu fico torcendo para o Eduardo Cunha fazer uma delação premiada e levar 250 picaretas com ele" / Roosevelt Pinheiro/Agência Brasil

— Aí, vem a rebordosa, vem a ressaca. E a elite brasileira, essa plutocracia tão calhorda, vai dar a  cabeça de Eduardo Cunha. Anote o que estou dizendo!

Essa foi a projeção do ex-ministro da Integração Nacional do governo Lula e pré-candidato à Presidência em 2018, Ciro Gomes, sobre o cenário político após uma possível votação pela cassação do mandato da presidenta Dilma Rousseff. O comentário foi feito durante a coletiva de imprensa que antecedeu o debate "Diagnósticos da crise: alternativas para o desenvolvimento", promovido por estudantes da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

"E eu fico torcendo para o Eduardo Cunha fazer uma delação premiada. Vai ser a maior da humanidade! Levará 250 deputados picaretas com ele, que ele comprou, e levará também o vice-presidente Michel Temer, que é seu sócio em todos os malfeitos", completou Gomes, que se posiciona contra o processo de impeachment.

Ele duvida que o Supremo Tribunal Federal (STF) barre o processo em andamento, mais ainda diz ser contrário à proposta de eleições gerais antecipadas, uma ideia "muito charmosa em tempos de golpe". "Mas no fim é uma besteira, uma 'marinice'", afirmou em referência à Marina Silva, da Rede.

"Para passar uma eleição geral, teríamos que, em tese, votar uma emenda à Constituição. Três quintos na Câmara Federal presidida pelo Eduardo Cunha, três quintos de um Senado presidido por Renan Calheiros, em dois turnos, com intervalo de 15 dias [entre as duas votações em ambas as casas]. Depois disso, qualquer político poderia arguir junto ao STF [Supremo Tribunal Federal] que esta emenda é inconstitucional por ferir direitos adquiridos", detalhou.

Ciro Gomes opinou sobre uma série de assuntos polêmicos da atual conjuntura. Confira:

Cuspe no Bolsonaro

"Sou mil vezes Jean Wyllys, né. Mas não sou obrigado a ficar de um lado, nem de outro. Tenho meu lado. Acho que Jean Wyllys quando cuspiu fez o que qualquer homem ou mulher pode e deve fazer quando se é agredido. Do ponto de vista do direito, não há nada ilícito. E do ponto de vista moral, eu acho um gesto grande. Evidentemente, que a aristocracia política brasileira não concorda comigo", opinou.

PMDB e PSDB

"Eu distinguo o PMDB do PSDB. No primeiro, temos pessoas boas, como o Jarbas Vasconcellos, [Pedro] Simon, [Roberto] Requião… Pessoas com quem não concordo, mas respeito. Mas a hegemonia do partido, de muitos anos pra cá, é de quadrilha. São bandidos, ladrões, pura e simplesmente salteadores do dinheiro público. (…) Agora o PSDB não é, por regra, um partido de ladrões. Jamais imaginei o Aécio [Neves] envolvido em corrupção. Até agora.  Mas eles hoje estão cumprindo um papel imundo de coadjuvante de um golpe, e serão os grandes responsabilizados pela história por esse assalto".

Pedaladas fiscais

"As pedaladas fiscais são um truque, absolutamente errado, mas que não caracteriza crime, muito menos de responsabilidade. Dezesseis governadores simultaneamente, inclusive os do Rio e de São Paulo… O próprio relator do impeachment, quando era governador de Minas Gerais [Antonio Anastasia (PSDB)], fez os decretos exatamente iguais [aos de Dilma], e o Tribunal de Contas nunca censurou. Portanto, não há o que discutir. Não há base jurídica. É um assalto golpista, com base parlamentar e infelizmente controlado por uma quadrilha de ladrões. Essa é claramente nossa tragédia".

Dilma

"O grande erro ancestral de Dilma, pensando em como se constituiu essa maioria contra ela, foi ter assumido o governo em antagonismo com o que pregou e falou. Ela abandonou toda a agenda e desconstituiu sinais de legitimação. Nomeou Levy a pretexto de dar sinal a uma fantasmagórica entidade que não vota e prepotente, que é o mercado".

Lula

"A esquerda partidária deve fazer um mea-culpa, pois essa crise foi semeada pelo Lula, o grande responsável por colocar essa quadrilha na linha de sucessão do país. Avançamos pouco na participação da população, porque o modelo do PT sempre dependeu de um líder carismático, pai das massas, contra o que [modelo] eu sempre me posicionei".

Edição: Camila Rodrigues da Silva