Especial

"Filhos do Fogo": especial mostra cotidiano de trabalhadores dos fornos de cal do RN

Quase ninguém tem carteira assinada e os que têm também possuem direitos, pois recebem apenas pelos dias trabalhados

Repórters de rua

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Os foguistas enfrentam as labaredas pelo menos 140 vezes a cada turno de 12 horas / José Bezerra

A boca de pedra parece querer engolir tudo que se aproxima, mas nem seus 800 graus de calor afugentam os foguistas que se revezam na produção. Durante três dias e duas noites ininterruptas, às vezes mais, cerca de dez homens enchem de lenha a garganta da caieira até que ela arrote. Depois saem de perto e descansam.

Os foguistas enfrentam as labaredas pelo menos 140 vezes a cada turno de 12 horas para garantir a produção do óxido de cálcio, a cal, como conhecemos. Movimento repetitivo que não pode parar. Como a estrutura é arcaica, quase medieval, a fuga de calor intensa pode botar toda a produção a perder e o prejuízo para o industrial é imenso. Pior ainda para os trabalhadores que ficarão sem dinheiro.

Trabalhar na queima da cal é como ir ao inferno. De dia, com o calor do semiárido nordestino, a situação é ainda pior. Principiantes costumam desistir, dizem os mais velhos, mas depois voltam por não conseguirem outro emprego. Trabalhar neste ramo não é questão de se acostumar, mas de sobreviver.

Longe da modernidade crescente na indústria, em pequenas cidades do Nordeste, homens forjados no fogo enfrentam ainda um cenário ultrapassado, seja nas condições de trabalho ou nas relações com aqueles que os empregam.

Sem equipamentos de proteção, os trabalhadores envelhecessem cedo. As mãos engrossam logo e a pele ganha uma pigmentação escura. Os pulmões precisam ser fortes, do contrário adquirem uma gripe sem cura. Além do calor intenso, a poeira da cal resseca as narinas e os lábios. O risco de queimaduras graves, de acidente ou de topar com animais peçonhentos preocupa mais os trabalhadores do que a ausência de banheiros, bebedouros ou refeitórios nas instalações.

A remuneração é por dia trabalhado. Entre R$ 60 e R$ 70, dependendo da região. Quase ninguém tem carteira assinada e os que têm também não usufruem de seus direitos, já que continuam recebendo apenas pelos dias que trabalham. Essas irregularidades que beiram o absurdo não são segredo para ninguém, mas eles dizem que não adianta denunciar. Alegam que, além de não resolver nada, os órgãos de fiscalização ainda tiram seus empregos ao fecharem as caieiras.

É assim a vida de muita gente em cidades do interior do Nordeste, onde a forma rudimentar de produção da cal persiste e submete trabalhadores a condições grosseiras de trabalho, risco de acidentes e morte, e salários que nem dá para chegar ao fim do mês. No Rio Grande do Norte, os municípios de Governador Dix-sept Rosado e Apodi são os que possuem, hoje, o maior número de fornos de cal em atividades. Foi lá onde a equipe do Repórter de Rua conheceu as histórias contadas nesta reportagem.

Capítulo 1: Uma noite na caiera

Sábado. Dez da noite. Quatro foguistas se revezam para dar conta do último dia de serviço. Três dias com duas noites e a pedra já está cozida. Domingo será o único dia de descanso. Na segunda, tudo de novo. Um rádio pendurado na parede, uma luz amarela e a boca da caieira a 800 graus iluminam o ambiente. Cada vez que o forno é abastecido, o fogo sobe a quase oito metros de altura, clareando os arredores.

Sem luvas, óculos de proteção nem botas adequadas, os foguistas tateiam de um jeito peculiar. É preciso cuidado. Cobras e escorpiões aparecem com frequência na lenha. No forno, o fogo pode saltar e incendiar alguém.  Há dez anos neste serviço, Damião de Paiva, 46, esquece tudo, durante a queima, menos a água.

-Se não souber trabalhar direito, cozinha o sangue, diz. Por isso, é um minuto no fogo, cinco longe dele.

Nas regiões das caieiras é sempre comum histórias de gente que morreu porque seu corpo “cozinhou” por dentro. Mentira? Quem vai duvidar?

Antônio Barbosa, 42, o Cuca, Edivan da Costa, 50, e Antônio Sobrinho, 49, são seus parceiros. Histórias parecidas, inclusive pela condição. Nenhum tem carteira assinada.

-Prefiro trabalhar solto, diz Edivan, que está nesta função há 30 anos.

Mas isso é o que todos dizem. O medo de afrontar os patrões e perder a única ocupação que sabem fazer, cria neles discursos idênticos e repetitivos de proteção.

Foguistas se revezam no abastecimento do forno, em jornadas que duram uma noite inteira

Perto da meia noite, o filho do patrão traz as quentinhas. Eles comem ali mesmo, uns em pé, outros sentados em tocos de madeira. Param de comer várias vezes para voltar ao fogo. Atiçam, apanham mais lenha e, como engrenagens de uma máquina, se repetem em movimentos contínuos.

Cobertos de cinzas e carvão, os caieiros atravessam os dias nesta pisada. Trabalham 12 horas sem parar até o próximo turno, quando outros chegam para continuar o serviço. Figuras idênticas enroladas em trapos que, em suas cabeças, substituem os equipamentos de segurança que não têm. Falam pouco e estão sempre preocupados de falar o que não devem. Resignados, se submetem a seus patrões por uma questão de sobrevivência, mas, sobretudo, por falta de apoio.

Alheios ao que acontece no mundo, os caieiros integram um grupo de trabalhadores esquecidos. Um grupo feito em sua maioria por jovens de até 30 anos, ou de pessoas que estão há várias décadas trabalhando nas mesmas circunstâncias insalubres e de ausência de direitos. Homens que mantêm ativas economias de comunidades e cidades inteiras, mas que seguem invisíveis e assim temem desaparecer um dia.

Entre agosto e fevereiro, o trabalho nas caieiras dobra. É durante o período da cana de açúcar, no litoral, que se ganha mais dinheiro, mas também quando mais se trabalha. Somente no distrito de Soledade, comunidade de 2 mil habitantes do município de Apodi, a produção sobe de 700 para 3 mil toneladas por mês. Dezesseis das 22 caieiras produzem ininterruptamente.

De acordo com a Associação Brasileira de Produtores da Cal (ABPC), 70% da cal virgem produzida, é usada nas indústrias siderúrgicas, de açúcar e de celulose. A cal hidratada (30%) é embalada para construção civil e outras atividades. Segundo o empresário Elson Marinho, no entanto, a cal potiguar é praticamente toda utilizada na indústria açucareira. O fornecimento para a siderurgia é quase que total dos estados do Paraná, São Paulo e Minas Gerais, que têm parques industriais modernos, cumprem as leis e produzem mais barato.

Do que é produzido no Rio Grande do Norte, apenas uma pequena parcela é consumida aqui. O restante segue para Piauí, Alagoas, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Bahia, principais clientes das caieiras dessa região.

Depois de queimada, a pedra da cal é retirada dos fornos e encaminhada para as usinas de beneficiamento

Depois de queimada, a pedra da cal é retirada dos fornos e encaminhada para as usinas de beneficiamento

O Brasil está entre os cinco maiores produtores da cal no mundo, com mais de 8 milhões de toneladas por ano, segundo o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). O Rio Grande do Norte representa apenas 6% desse montante, graças à presença de depósitos de rochas carbonáticas que ocorrem na formação Jandaíra, que abrange uma área aproximada de 21 mil quilômetros quadrados.

Todo esse depósito de calcário que chega a espessura de 400 metros abaixo do solo é predominante nas regiões do alto e médio Oeste, Seridó e Agreste. Os municípios de Governador Dix-Sept Rosado e Apodi, que possuem dezenas de caieiras em atividade, são os líderes deste mercado.

Essas quatro regiões concentram aproximadamente 180 caieiras, embora metade, ou mais, esteja desativada. Ainda assim, são responsáveis por uma média de 900 empregos, diretos e indiretos, podendo chegar a uma produção média de 6,9 mil toneladas da cal por mês.

Nenhum dono de caieira nega a dificuldade de cumprir as leis e garantir os direitos a seus funcionários. Embora tenham altos faturamentos, reclamam não ter condições de assinar carteiras ou melhorar a segurança.

A ausência de regularidade na produção é o principal argumento, principalmente agora depois que as cimenteiras imprimem uma concorrência difícil de ser superada. Enquanto dependem de madeira, parte dela de baixa combustão ou extraída de forma ilegal, as cimenteiras utilizam como combustível o coque, material carbonáceo sólido obtido a partir da destilação do carvão mineral, importado da China. Embora chegue em navios, a compra em grande quantidade deixa o preço muito competitivo, sobretudo porque é usado em fornos de alta eficiência para produzir não apenas a cal, mas principalmente o cimento.

De acordo com o presidente da Associação dos Produtores da Cal de Soledade (Aspocal), Elson Marinho, essa concorrência não irá acabar com as caieiras, mas forçará uma transformação. Segundo ele, depois que as cimenteiras entraram no ramo da cal, ele perdeu 50% de seus contratos e a produção na sua região caiu quase 70%.

Em Governador Dix-Sept Rosado, o forneiro Josean Carlos disse que houve desaceleração geral em toda a produção na cidade. Membro da Associação dos Produtores da Cal e Fornecedores de sua cidade, ele conta que os 35 associados estão muito preocupados. Empresário do setor há 15 anos, ele diz que o setor não tem mais como se sustentar, o que será um desastre para o município.

-Se as caieiras pararem, mais da metade dos trabalhadores de Governador ficarão sem emprego, conclui.

Degradação ambiental

São inúmeros os impactos ambientais causados pela produção da cal. Estudo apresentado pelo bacharel em contabilidade Francisco Magno de Albuquerque Vianna aponta que os setores cerâmicos, da panificação e da cal do Rio Grande do Norte transformam em cinzas 175 mil metros cúbicos de lenha por mês.

Atualmente, os donos de caieiras dizem utilizar podas de cajueiro, cascas de castanha e pneus velhos para manter os fornos acesos, mas alguns confessam que sem a lenha nativa o custo da produção fica muito alto. Diversas pesquisas realizadas pelas universidades do Estado denunciam que a permanência dessa ação predatória provoca uma catástrofe sem precedentes.

As pedreiras de onde se extraem o mármore, a pedra da cal e o paralelepípedo colocam em risco a vida e a saúde de muitas pessoas, mas o que fica na comunidade não é suficiente para transformá-la ou melhorá-la.

Em Soledade, por exemplo, a exploração do calcário destruiu grande parte do que é hoje o segundo mais importante sítio arqueológico do Brasil. O Lajedo de Soledade guarda resquícios de animais pré-históricos que viveram na região há mais de 90 milhões de anos, além de indícios dos primeiros homens no continente americano. Muitas ravinas foram extintas e continuam ameaçadas.

Fiscalização sobre uso de madeira ilegal nas caieiras tem sido ampliada visando o combate ao desmatamento. Foto: Esdras Marchezan/Repórter de Rua



Confíra os outros dois capítulos da reportagem multimídia aqui: Filhos do fogo