Entrevista

“Primeiro de Maio sempre foi um dia de luta aguerrida para o povo pernambucano”

O sindicalista e ex-prefeito do Recife João Paulo Lima conversa com o BF sobre o 1º de maio

Recife

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João Paulo foi o primeiro presidente da CUT em Pernambuco / Tarsio Alves

João Paulo Lima foi o primeiro presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Pernambuco, no ano de 1988 e também vereador do Recife no mesmo ano. Eleito três vezes deputado estadual por Pernambuco, em 1990,1994 e 1998. No ano 2000 foi eleito prefeito do Recife pelo Partido dos Trabalhadores (PT), sendo reeleito em 2004. Foi eleito deputado federal em 2010. Nas eleições de 2014, disputou a vaga de senador, mas não saiu vitorioso. Em julho de 2015, assumiu a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

1.Historicamente, em Pernambuco, quais são as principais pautas do primeiro de maio?

Primeiro de Maio sempre foi um dia de luta aguerrida para o povo pernambucano. Quem vem do chão de fábrica, da agricultura e dos canaviais dessa terra, aprende rápido que a luta precisa ser permanente para manter os direitos conquistados e conseguir avançar um pouco mais a cada dia. Aprende que as bandeiras não podem ser baixadas nunca, em respeito aos tantos trabalhadores perseguidos, violentados e assassinados em nome do capital.

 As questões trabalhistas, tanto no campo quanto na cidade, sempre foram resolvidas com muita violência: famílias eram expulsas, lavouras destruídas, pessoas desaparecidas sem haver qualquer investigação policial. Os direitos garantidos - e hoje ameaçados pela tentativa de golpe – foram conquistados com muita coragem, suor, força e sangue. Lutamos muito e sempre pela redução da jornada de trabalho, por condições mais dignas, pela estabilidade no emprego, pela reforma agrária, pelo direito a educação e a creches, pela igualdade salarial de homens e mulheres, pelo direito dos negros e homossexuais, por uma distribuição mais igual de renda.

2.    Nacionalmente, a CUT, definiu como tema desse ano: "Por mais direitos e democracia". Qual o papel da manifestação do 1º de maio na conjuntura atual?

Este Primeiro de Maio terá um sentido muito especial na nossa luta. Somente as ruas e a organização popular poderão evitar o golpe e a usurpação de direitos tão essenciais.  Por isso, esse domingo entrará para história como um marco político e sindical. A ameaça do retrocesso  fez unir novamente os movimentos da esquerda, fez ferver nosso sangue, erguer com força as nossas bandeiras. Estamos unidos em torno da defesa de democracia, que é o único ambiente possível para o progresso social e novas conquistas no mundo do trabalho.  Esse Dia do Trabalhador será a forma de mostramos que exigimos respeito ao nosso voto e a Constituição.

3.    Há em curso uma ofensiva aos direitos já conquistados pelos trabalhadores no Brasil. Como você avalia esse cenário?

 O governo ilegal e ilegítimo que Temer e Cunha pretendem instalar no Brasil, a partir dessa manobra política suja e sem precedentes em nossa história, irá retirar conquistas históricas dos trabalhadores. Essas mudanças poderão atingir de forma dramática a vida do trabalhador. Estamos falando da entrega do petróleo a grupos estrangeiros, da privatização de estatais como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, da massificação da terceirização, do aumento da carga horária, da diminuição da massa salarial, da negociação direta entre patrões e empregados valer mais que o que está previsto na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), mesmo que isso signifique prejuízo aos trabalhadores. Mas, não iremos abrir mão de um direito sequer, nossas lutas não podem ser apagadas e desprezadas dessa maneira.

4.    Já se fala em uma possibilidade de Greve Geral. Qual o impacto disso para a luta social no país?

 Acredito que a greve geral é o principal instrumento de luta dos trabalhadores. Como já dizia Lenin: “Os males da greve podem ser comparados aos males da guerra”. A classe trabalhadora não pode se omitir neste momento tão grave. A decretação de uma greve geral é uma iniciativa necessária, justa e revolucionária diante do golpe, porque é uma ação política para mostrar a força daqueles que realmente constroem o país. As manifestações de rua, a batalha nas redes sociais, o apoio internacional são cruciais no atual momento político. Mas a greve geral é a resposta mais adequada contra o modelo desumano de economia que se pretende implantar no País. Só lembrando que durante o período da ditadura militar, costumávamos dizer: “Greve geral derruba até general”.

5.    Em Pernambuco quais suas principais lembranças sobre o 1º de maio?

Sou ex-metalúrgico com muito orgulho, fui fundador da CUT em Pernambuco e eleito o primeiro presidente da entidade. Participei de muitas greves, fiz piquete de portas de fábricas, lutei muito pelos direitos que eram constantemente desrespeitados. Ganhamos grandes batalhas, perdemos tantas outras. Apanhei muito. Minha especialidade era agitação de massa, ficava sempre à frente, animando os companheiros para não desistirem da briga que nunca foi fácil. Foram anos de muita luta de fortes amizades, de formação revolucionária e de construção de da consciência política.  

6.    Que fatos são importantes destacar na história do sindicalismo pernambucano?

 A força do sindicalismo pernambucano veio primeiramente do campo. As lutas rurais marcaram a história do Estado, com o surgimento das Ligas Camponesas, lideradas por Francisco Julião, num ambiente rural extremamente violento. Foi ali que começou de fato um processo de embate direto pela terra. Depois, veio o golpe de 1964 que foi um forte baque para a luta trabalhista. Entidades foram perseguidas e seus líderes presos e mortos.

Na década de 1980, é que começou a surgiu novamente um movimento de retomada da luta de classe, ondei atuei fortemente. Os sindicatos nessa época eram comandados por ‘pelegos’ e começamos a montar uma oposição consistente. Ganhamos primeiro o urbanitários, depois o dos metalúrgicos e foi crescendo uma onda que culminou com a criação da CUT. A CUT teve um papel extremamente importante nas mobilizações e conquistas dos trabalhadores urbanos.

O sindicalismo pernambucano esteve sempre presente nos momentos políticos importantes. Foi assim no golpe de 1964, em que as entidades foram duramente perseguidas e seus líderes presos e mortos; na campanha das Diretas Já, quando fomos às ruas pedindo a volta da democracia; e será assim agora, diante da ameaça de um novo golpe que coloca em risco não só a democracia, mas também ameaça retirar direitos duramente conquistados.