Tecnologia

3ª edição da CryptoRave acontece entre sexta e sábado em São Paulo

Neste ano, o evento está focado no Marco Civil da Internet e na CPI dos Cibercrimes

Redação

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O evento termina às 19h deste sábado (7), no Centro Cultural São Paulo (CCSP), na capital paulista / Reprodução

Mais de 40 atividades sobre segurança, criptografia, hacking, anonimato, privacidade e liberdade na rede marcam a 3ª edição da CryptoRave, evento inspirado no movimento internacional das CryptoParties, que acontece no Centro Cultural São Paulo (CCSP) entre às 19h desta sexta-feira (6) e às 19h do sábado (7). A inscrição para o evento é gratuita e pode ser feita online, pelo site do evento.

O evento é fruto de um esforço voluntário das organizações Actantes, Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, Escola de Ativismo e Saravá, que contou também com a colaboração de centenas de pessoas por financiamento coletivo online. O objetivo é difundir conceitos fundamentais relacionados à privacidade e à liberdade na internet, além do uso de ferramentas de segurança digital.

Os debates sobre as diferentes temáticas acontecerão em seis espaços, que homenageiam programadores e cientistas da computação que foram perseguidos ao longo da história, como o contemporâneo Edward Snowden, ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) que revelou dados sigilosos de interesse público; e a condessa Ada Lovelace, uma matemática britânica nascida no século 19 e conhecida por ser a primeira pessoa e escrever um algoritmo para ser processado por uma máquina.

Terrorismo e vigilância

Um dos destaques do evento é David Miranda, companheiro do jornalista britânico Glenn Greenwald, responsável por publicar os vazamentos de Edward Snowden. Em 2013, Miranda ficou detido no aeroporto na Inglaterra sob a acusação de possuir em seu laptop documentos vazados por Snowden. Junto com a ativista alemã Anne Roth e o administrador de sistemas estadunidense Nick Calyx, Miranda relatará sua experiência vivendo como inimigo de Estado na mesa "Terrorismo e Vigilância". Os três convidados já foram enquadrados em leis antiterroristas por seu trabalho ou militância.

Segundo Marina Pita, conselheira do Intervozes e representante do coletivo na Cryptorave, a criminalização da criptografia por justificativas de ações terroristas será uma das principais pautas desta edição do evento.

“Cada vez mais a gente vê países tentando impedir o uso da criptografia, e os órgãos policiais querendo ter acesso a dados sem pedido judicial. No Brasil, em 2013, com as Jornadas de Junho, os pedidos de acesso à informação do Facebook pelo governo aumentaram muito. Além disso, também foi sancionada a Lei Antiterrorismo [em março deste ano], o que mostra que essa tendência da Europa e dos EUA também vai chegar aqui. Isso é muito perigoso no momento em que a gente vive de repressão aos movimentos sociais”, declara Pita.

Marco civil

A segunda mesa abordará o Marco Civil e a CPI dos Crimes Cibernéticos. Aprovado na última quarta-feira (4), o relatório final produzido pelo deputado federal Esperidião Amin (PP-SC) recomenda propostas de lei para a regulação da rede e é considerado pelos ativistas uma censura à liberdade de expressão, neutralidade da rede e o “enterro” do Marco Civil da Internet (Lei n° 12.965/14), aprovado em 2014 e internacionalmente elogiado.

Pita destaca que é importante notar o quanto a internet tem sido censurada no meio da atual crise política. "E isso está diretamente ligado com a CPI dos crimes cibernéticos. Ela permite que, com uma simples notificação dos usuários, o conteúdo publicado saia do ar. Dessa forma, quem tem mais poder, inclusive políticos corruptos, podem tirar qualquer material do ar. O que a gente defende é a retirada somente com pedido da Justiça, conforme o Marco Civil estabelece. Nesse momento em que a democracia brasileira está sendo atacada, esse tema é muito importante”.

Preconceitos

Além dos temas principais, o Intervozes está organizando uma mesa sobre algoritmo e igualdade. “Esse mundo dos códigos e da automatização parece super neutro. Mas, na verdade, está cheio de preconceitos, já que a maioria dos programadores são homens brancos, norte-americanos. Dessa forma, quem sofre mais com a entrega de dados são os mais pobres, estigmatizados, e quem já sofre naturalmente com preconceitos. A ideia é começar a fazer essa ponte entre privacidade, preconceito e desigualdade. Sabemos, por exemplo, que mulheres são muito mais vulneráveis na internet do que os homens”, destaca Pita.

Além de palestras, a Cryptorave contará com o lançamento do documentário Freenet, sobre liberdade e censura na Internet, com uma balada na qual será realizada uma intervenção artística digital, com uma competição do tipo Capture de Flag, que reúne desafios de segurança da informação e com a instalação de sistemas operacionais livres baseados em GNU/Linux.

Edição: Camila Rodrigues da Silva