Impeachment

Afastamento de Dilma marca início do retrocesso, afirmam senadores

Sessão no Senado que decide sobre aprovação do processo de impeachment deve passar da meia-noite

Brasília

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“Isto é um colégio eleitoral de exceção”, disse a senadora Vanessa Graziottin (PCdoB-AM) / Antonio Cruz/ABr

A sessão do Senado Federal que decide sobre o afastamento temporário da presidenta Dilma Rousseff segue em sua segunda etapa na tarde desta quarta-feira (11) em meio ao clima de instabilidade e disputa que tomou conta do Congresso Nacional. Para governistas e opositores, é dada como certa a aprovação do processo de impeachment, que pode afastar Dilma do cargo por até 180 dias.

Em um exercício de projeção, parlamentares da oposição esperam conseguir cerca de 54 votos e governistas falam em, no mínimo, 21. Para que se confirme a autorização, é necessária a maioria simples dos votos dos 81 senadores; quatro deles estão ausentes, incluindo o suplente do senador Delcídio Amaral (sem partido-MS), Pedro Chaves dos Santos (PSC-MS), que não assumiu o cargo. A sessão pode passar da meia-noite.

“Isto é um colégio eleitoral de exceção”, disse a senadora Vanessa Graziottin (PCdoB-AM), sustentando a tese de que o movimento oposicionista orquestrou um golpe contra o governo e de que o processo estaria viciado e tecnicamente falho.

Para ela e outros governistas, o possível resultado de hoje sinaliza a existência de um retrocesso para o país. "O que está em curso no Brasil não é um processo de impeachment. É um golpe para mudar o projeto político-econômico da nação", completou, destacando ainda a previsão de uma flexibilização dos direitos trabalhistas em um eventual governo Temer.

Para o senador Humberto Costa (PT-PE), líder do governo na Casa, a sessão transcorre dentro do esperado. “Nós vamos continuar batendo fortemente na tecla de que se trata de um golpe parlamentar porque não há crime de responsabilidade provado contra a presidenta Dilma, o que sinaliza uma enorme injustiça”, declarou.

Ele acredita que, se confirmada a previsão de afastamento, com o PMDB no poder, o PT deverá fazer uma “oposição firme” a Temer. “Porque os partidos de oposição patrocinaram as chamadas pautas-bomba para gerar desequilíbrio fiscal e orçamentário no nosso país e se associaram ao corporativismo mais atrasado para criar dificuldades para o Brasil, gerando esta instabilidade política e econômica”, argumenta.

Na mesma linha de Graziottin, o parlamentar projeta ainda que, confirmada a previsão de aprovação do impeachment, o país deve experimentar um governo mais conservador, inclusive na política externa. “Os eventuais membros de um governo interino são francamente favoráveis a uma mudança no sentido de privilegiar uma política que dependa mais dos Estados Unidos e dos países europeus em detrimento dos latino-americanos e africanos”, afirmou.

O senador Lindbergh Farias, vice-líder do PT na Casa, acredita que Temer enfrentaria um problema de baixa popularidade por não estar legitimado pelo voto do cidadão. Questionado sobre o assunto, o senador Ronaldo Caiado, líder do DEM no Senado Federal, acredita que isso seria “relativo”. “Ele vai precisar ter coragem. Eu sou otimista. Os partidos estão sendo caudatários de uma decisão que é da sociedade brasileira”, defende.

Expectativa

Mas, apesar da previsão para o resultado de hoje, o governo acredita que a disputa não está perdida. “Se nesta sessão eles tiverem 56 ou 57 votos, por exemplo, isso mostra o quanto pode ser apertado no final do processo porque tem vários senadores que estão votando pela admissibilidade, mas ressaltam que deverão avaliar o impedimento definitivo mediante fatos e provas”, afirma Lindbergh, explicando que isso compromete o sucesso dos oposicionistas, já que não haveria crime de responsabilidade. “Isto aqui é apenas uma batalha; a guerra final é a votação que deve ocorrer daqui a 180 dias”, declarou.

Para o senador Jorge Viana (PT-AC), a situação atual é “grave” e “histórica”. “‘É lamentável estarmos vivendo isto, que diminui a democracia brasileira, diminui o país. Não haverá tranquilidade nem estabilidade num eventual governo Temer. Dependendo da composição, esse governo pode até virar um caso de polícia no dia seguinte”, afirma.

Segundo ele, a crise de governabilidade atual é atribuída “a uma classe política fisiológica que envergonha e diminui a democracia brasileira”, o que compromete, portanto, a imagem do país. “Essa mesma classe vai a todo custo cassar duas coisas hoje: a presidenta Dilma e os 54 milhões de eleitores que votaram nela. Diante disso, não tenho dúvidas de que vamos ter um governo absolutamente ilegítimo”, disse, ressaltando ainda que o provável resultado poderia ser combustível para o país voltar a uma eleição direta.

Edição: Camila Maciel