RESISTÊNCIA

Escola de samba para protestar contra os manicômios

No dia 18 de maio, avenidas de BH se enchem com as fantasias das pessoas portadoras de sofrimento mental

Belo Horizonte

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Todos os anos, atos festivos e combativos pautam o dia 18 de maio / Fernando Barbosa e Silva

Neste 18 de maio, pessoas portadoras de sofrimento mental ocupam as ruas de todo o Brasil para se manifestar contra os manicômios e as políticas de encarceramento. Em Belo Horizonte, o Movimento Antimanicomial escolheu como tema “Eles passarão, Nós passarinho” para fazer a crítica à internação compulsória e de longo prazo. “Algumas pessoas carregam sérias marcas pelos 20 ou 30 anos que passaram nesses lugares, e grande parte nem sequer sobreviveu”, conta Marta Soares, profissional de terapia ocupacional e trabalhadora da Rede Municipal de Saúde Mental.

Os mais fortes exemplos de violações de direitos aconteceram na cidade mineira de Barbacena. As situações foram relatadas no livro “Nos porões da loucura” do jornalista Hiram Firmino, que agora se transforma em peça teatral nas mãos do diretor Luiz Paixão. “Barbacena é um ponto de partida para se discutir não só o tratamento de portadores, mas também os cruéis métodos de degradação do ser humano”, afirma Paixão.

As cenas da peça mostram como os usuários eram tratados. Colocados juntos em salas, precisavam ficar perto e às vezes em cima dos outros para se aquecerem, situação que levava à morte daqueles que ficavam embaixo. O eletrochoque, que hoje é altamente criticado, era rotina na vida dos pacientes. 

A prática da liberdade

Contra toda a violência dos hospícios, iniciou-se no Brasil um movimento com novas propostas para tratar as pessoas com sofrimento mental. A criação do Sistema Único de Saúde (SUS), na Constituição de 1988, foi uma impulsionadora dessas propostas, à medida que passou a ser possível a criação de serviços substitutivos. 

“A melhor forma de tratar o sofrimento mental é com liberdade”, reforça Marta, “por isso as internações de longa duração foram sendo substituídas por atendimentos diários e noturnos apenas quando ocorrem urgências”. O tratamento prevê também que a pessoa não seja afastada da família, dos amigos e da sociedade em geral.

Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte,  atualmente “o trabalho de assistência à saúde mental segue a lógica antimanicomial”. A verba antes destinada aos hospícios, agora é enviada aos serviços substitutivos. São 58 Equipes de Saúde da Família com acompanhamento de saúde mental, 11 Centros de Referência em Saúde Mental (CERSAMs) com atendimento profissional e atividades de cultura e lazer, nove Centros de Convivência e Moradias Protegidas, uma espécie de república onde moram usuários que perderam vínculos familiares.

Arte e loucura: um casamento que deu certo

O Dia da Luta Antimanicomial tem uma característica peculiar: além de ser um protesto, é também uma celebração da alegria. As pessoas com sofrimento mental e os funcionários das instituições que os acolhem organizam uma escola de samba com fantasias, alas, bateria e concurso de samba enredo. 

Insirados pelo verso de Mario Quintana, o tema deste ano será “Eles passarão, nós passarinho”, em referência ao atual momento político do Brasil. Marta explica que “eles”, mesmo que demore, deixarão de existir, enquanto o “nós” continuará a ser leve, como um passarinho. 

Para Altinho Folha Seca, um dos organizadores do espaço Suricato e usuário da Rede de Saúde Mental, a arte é “o lugar daqueles que enxergam uma forma diferente de ver o mundo”. 

Origem do dia 18 de maio

O dia 18 de maio foi instituído como Dia Nacional da Luta Antimanicomial em 1987, a partir de relatos de espancamentos, fome, e até mesmo morte por abandono acontecidos dentro dos hospícios no Brasil. Segundo o livro “Holocausto no Brasil”, de Daniela Arbex, 70% das pessoas internadas nesses locais não tinham diagnóstico de problemas mentais. Eram mulheres que queriam se divorciar, filhos rebeldes, homossexuais, pessoas internadas como forma de “castigo”.

Valencius exonerado

O Coordenador de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, Valencius Wurch, foi exonerado do cargo na última semana pelo ministro da Saúde substituto, José Agenor Álvares. Desde sua nomeação em dezembro do ano passado, Wurch foi constantemente alvo de protestos de setores da saúde ligados à reforma psiquiátrica, por entenderem que ele tem posições retrógradas em relação aos avanços da reforma psiquiátrica brasileira.