Reorganização

“As ruas progressivamente voltarão a pressionar as instituições”

Em análise abrangente, jornalista fala sobre o cenário presente e futuro da luta política no Brasil

Belo Horizonte

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Breno Altman: "Os Estados Unidos precisam reagrupar o sul do continente ao seu domínio geopolítico" / Vitor Toscano

Apesar do cenário tenso, há perspectiva de que haja uma nova escalada de mobilização social contra as medidas conservadoras do governo Temer. Essa é a avaliação de Breno Altman, diretor editorial do site Opera Mundi e da revista Samuel e militante histórico do PT. Ele comenta ainda sobre as perspectivas para a esquerda e as lições que se pode tirar dessa crise.

Brasil de Fato - De um lado, o cenário político não está favorável para as forças populares e para o povo trabalhador, com a perspectiva de consumação do impeachment. De outro, parece crescer a capacidade de reação e resposta, com muitas organizações e pessoas indo frequentemente às ruas. Você avalia que o Brasil pode assistir a um ascenso das lutas sociais no próximo período?

Breno Altman - A consumação do afastamento da presidente Dilma Rousseff tende a provocar, a curto prazo, um período de refluxo nas lutas populares e na resistência democrática, em relação à forte mobilização de março e abril. Historicamente as massas entram em combate quando têm um objetivo claro e chances de vitória. As medidas concretas do governo usurpador, associadas às denúncias e disputas contra o golpe institucional, poderão levar à nova escalada de mobilização, contra a política econômica e pela derrubada do golpista Michel Temer.

Com a admissibilidade do processo do impeachment e o afastamento por 180 dias da presidenta, que tipo de medidas Michel Temer deve tomar? Ele terá condições de fazer avançar o projeto do PMDB na presidência?

Temer foi escolhido pelas frações dirigentes da burguesia e das forças conservadoras para impor uma agenda ultra-liberal que permita o relançamento da acumulação capitalista no país. Exigem dele que não seja candidato à reeleição, para que possa tomar as medidas antipopulares encomendadas sem ter que raciocinar com base na conquista de votos. Obviamente que essa sua tarefa depende da unidade entre as correntes golpistas, do grau de resistência democrática e social, da confiança que conquistar junto às corporações empresariais e centros imperialistas, além do cenário econômico internacional. 

O que se espera para o cenário institucional depois desses 180 dias?

Muita turbulência. As ruas progressivamente voltarão a pressionar as instituições, com as forças antigolpistas recuperando protagonismo. A Operação Lava Jato poderá atingir o núcleo duro do golpismo com mais intensidade. As contradições entre as forças usurpadoras poderão se aprofundar rapidamente, estimuladas pelos distintos projetos para as eleições presidenciais de 2018. A reação negativa da economia carrega o risco de inviabilizar o próprio governo Temer e envolve-lo em dramáticos conflitos sociais. 

Como você vê esse impulso de unidade dos movimentos, como a articulação de frentes? O que se aponta de novo em termos de alternativa à esquerda?

Precisamos de um novo mapa para a esquerda brasileira, em um cenário no qual o PT, apesar de continuar como sua principal coluna, não é mais força hegemônica. A formação da Frente Brasil Popular faz parte dessa reorganização, forjando uma coalizão político-social que permite um espaço comum de articulação para os movimentos sociais e os partidos políticos progressistas. A experiência poderá avançar rapidamente se abrir canais para a militância individual, para além da representação de entidades e agremiações partidárias, e se avançar para uma clara definição programática sobre os destinos do país. 

Parece haver um descrédito com a via eleitoral para a realização de mudanças mais profundas. Qual é o caminho que vem sendo apontado por essas articulações?

Uma combinação entre as lutas populares e institucionais, fórmula originalmente defendida pelo PT e que se perdeu na estratégia levada a cabo depois da ascensão ao governo. A via eleitoral continua a ser o caminho para a conquista do poder de Estado, mas deve ser concebida como resultado de um poderoso movimento popular e cultural, além de sustentada pela mobilização social quando essa senda devolver o governo nacional às forças progressistas.

Na sua avaliação, a população de modo geral concorda com a interpretação de que está em curso um golpe no país?

Uma parte da sociedade acha que essa é a melhor caracterização da situação política atual, graças à resistência popular, à ação dos partidos de esquerda e à resposta da presidenta Dilma Rousseff diante da ofensiva antidemocrática. Mas não seria correto afirmar que essa posição seja majoritária, ainda há muito o que fazer para consolidar esse ponto de vista. 

A votação do dia 17 expôs o quão despolitizados e desprovidos de compromisso público são a maioria dos deputados federais. Qual a saída para mudar o sistema político?

Antes de mais nada, as forças democráticas terão que construir um pacto de unidade ao redor do sistema que desejam defender. As pessoas não serão convencidas primordialmente por uma "saída", mas por propostas que expressem um conteúdo mais democrático e transparente que o sistema atual. Até podemos e devemos acenar com a convocação, por plebiscito, de uma Constituinte exclusiva para a reforma política, mas o mais relevante é ter um programa definido sobre o que se deseja mudar e para onde.

Vem sendo muito questionada e criticada a atuação da mídia hegemônica nesse momento de construção da crise. Você acha que o cenário está mais favorável para a imprensa alternativa? Quais as perspectivas para o avanço da democratização da comunicação nesse contexto?

O golpe institucional colocará a mídia alternativa às beiras do colapso, porque perderá as fontes estatais de publicidade e financiamento. Um dos principais objetivos dos golpistas, aliás, é eliminar vozes dissidentes na imprensa. Pagaremos um alto preço por jamais os governos petistas terem agido para efetivar medidas estruturais que garantissem a pluralidade de informação. Mesmo fora do poder, em situação de resistência, o tema da comunicação continua central para a esquerda e somente poderá ter solução se houver empenho dos partidos, dos sindicatos e dos movimentos sociais para sustentar uma resposta potente aos grupos monopolistas. 

Quais os interesses geopolíticos, especialmente dos Estados Unidos, por trás da deposição da presidenta Dilma e na desestabilização de outros países da América Latina?

Os principais centros imperialistas, mesmo reagindo discretamente, estão bastante contentes com a possibilidade de recolocar o Brasil sob sua hegemonia. Saberemos, no futuro, se participaram diretamente ou não da conspiração contra o governo Dilma. A deposição da presidenta, de toda forma, enfraquece o BRICS e a integração da América Latina, além de facilitar a internacionalização do pré-sal e de nossas demais riquezas naturais, incluindo a água. Os Estados Unidos, em particular, que precisam reagrupar o sul do continente ao seu domínio geopolítico, para enfrentar a crise mundial do capitalismo, são beneficiários diretos do golpe que está devolvendo o poder às velhas oligarquias brasileiras.

Quais lições a esquerda pode tirar desse momento político?

Precisamos reaprender uma velha lição: mesmo reformas moderadas, como as conduzidas pelos governos de Lula e Dilma, são incompatíveis com os interesses dos setores nevrálgicos da burguesia brasileira. Toleradas quando os tempos são de vacas gordas, tornam-se impensáveis quando estas mudanças representam algum perigo para a concentração de renda e riqueza. O capitalismo brasileiro vive da superexploração do trabalho, base também para irrigar os extratos mais altos das camadas médias. Sempre que as forças progressistas ameaçam arranhar esse sistema de privilégios, as forças conservadoras reagem com alta intensidade, se preciso for atropelando a democracia e rasgando a Constituição. O PT e o conjunto da esquerda não tiveram em conta essa tendência e não se prepararam, sob qualquer ponto de vista, para o atual momento de enfrentamento.