FUTEBOL

Futebol feminino continua no escanteio

Atletas enfrentam dificuldades para construir carreira no futebol

Pernambuco

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Soberano em Pernambuco, Vitória de Santo Antão é viabilizado através de parceria com faculdade. / Luciano Abreu

Campeã pernambucana e vice-campeã da Copa do Brasil. Titular absoluta no meio de campo e faixa de capitã no braço, Fabiana Carla lidera sua equipe na busca por um inédito título estadual para a equipe do Joias Raras. Aos 34 anos e com passagens pelos principais clubes do estado, a atleta e professora de educação física lamenta as dificuldades enfrentadas no caminho para a profissionalização do futebol feminino. "Nenhum clube fez nada por nós. Nunca".

No início dos anos 2000, aos 17 anos, Fabiana estreou nos gramados pela Seleção de Jaboatão. Passou pelo Cruzadinho, do bairro de Afogados, de onde seguiu para Santa Cruz, Náutico e Sport. No clube rubro-negro ela foi vice-campeã da Copa do Brasil de 2008, maior feito de um clube pernambucano no futebol feminino. As leoas foram derrotadas pelo forte time do Santos. Em 2011, com a camisa do Vitória de Santo Antão, Fabiana levantou a primeira taça do Tricolor das Tabocas. Desde lá o clube não foi mais batido e hoje busca o hepta campeonato pernambucano justamente contra o time de Fabiana.

Azarão diante do Vitória, o "Joinha" ilustra bem o cenário do futebol feminino no Brasil: muita garra e qualidade dentro de campo, mas pouca estrutura e quase nenhum dinheiro, mantendo as atletas no amadorismo. O time do Joias Raras surge em 2012, composta por atletas sem clube e que passaram por Náutico, Santa Cruz e Sport. O objetivo era disputar o torneio Recife Bom de Bola, organizado pelo poder público municipal. Foram três títulos de campeonato de várzea até ganharem a chance de disputar o campeonato estadual. Sem estrutura de clube e com muitas das garotas trabalhando e estudando, o time não consegue treinar e só se encontra para os jogos.

"Não temos tempo para o futebol feminino. Todas nós sonhamos ser atletas profissionais, em fazer o que gostamos e ser remuneradas por isso. Mas somos atletas fora de atividade porque infelizmente tivemos que sair do futebol para começar a trabalhar noutros cantos", lamenta a vice-campeã brasileira. Ela afirma que a situação do futebol feminino não mudou muito nos últimos anos. As atletas não ganham salários e no máximo recebem passagens de ônibus para irem aos treinos. "Se for para representar os clubes nessas condições não queremos, não temos interesse".

A goleira do Joias Raras, Renata Franciele, a Baby, vê o machismo como empecilho para a profissionalização do futebol feminino. "Somos discriminadas por conta do sexo, dessa ideia de que menina não pode jogar futebol". A atleta afirma que os clubes não têm compromisso com o esporte das mulheres. "Se quisessem fazer o futebol feminino crescer dariam a estrutura do masculino, com academia, preparação física. Mas não fazem isso", se queixa. "Eu sonho com a Seleção Brasileira. Mas sei que é muito difícil. Alguns clubes, mesmo possuindo estrutura, não a disponibilizam para as equipes femininas. O masculino mirim tem mais estrutura do que nós".

Baby começou no futsal aos 7 anos e ingressou na Seleção de Caruaru aos 14. No ano seguinte trocou a quadra pelo campo, onde jogou no Central, Seleção de Pesqueira, Seleção de Surubim e Seleção de Santa Cruz do Capibaribe. Este ano estreou pelo Joinha. Mesmo sem ter atuado pelos clubes mais estruturados, ela afirma que conhece atletas que passaram situações delicadas em clubes. "Eles não oferecem assistência para cirurgia. Aconteceu com uma amiga que se lesionou e teve que recorrer ao SUS para conseguir uma operação. Se o clube contrata deveria oferecer assistência total".

No Santa Cruz o futebol feminino é tratado como categoria de base. O clube não possuía um time feminino há 11 anos e voltou a formar equipe este ano. O responsável pela categoria é o diretor Geral da Base Bleno Cruz, que afirma dar ajuda de custo maior para as garotas do que para a base masculina. "Nós encaramos elas como jogadoras pré-profissionais. A evolução para o profissional depende da aceitação do público, de se a FPF quer fazer essa categoria dar certo", afirma. Ele avalia a retomada do grupo feminino no Santa como uma experiência. "Traçamos uma meta de custo baixo. Queremos primeiro ver o cenário, porque não podemos sair rasgando dinheiro. Ainda é uma experiência, mas que torcemos para dar certo."

O cenário se reflete no discurso da experiente Fabiana. "Não entendo porque o futebol feminino não sai dessa situação. Dizem que é porque não é divulgado na mídia, que não dá retorno financeiro. Pode ser que os clubes mesmo não queiram contribuir para que o futebol feminino evolua. Não sei e cabe também à Federação essa responsabilidade". Diretor Executivo de Futebol Feminino desde 2005 na Federação Pernambucana de Futebol (FPF), Elias classifica como "excepcional" o apoio da federação.

"As equipes não têm custo a não ser a logística. A FPF paga a arbitragem e a cada jogo dá 8 bolas para dividir entre as equipes", afirma. As despesas são pagas com verbas da CBF. O torneio custou em torno de R$ 280 mil. Elias destaca que nos jogos da final e disputa de terceiro lugar a Federação, através de parcerias com as cidades de Carpina e Vitória de Santo Antão, ofereceu ônibus e alimentação a todas as equipes. Na primeira fase do campeonato o Joias Raras precisou enviar ofícios solicitando à Prefeitura do Recife ônibus para disputarem partidas em Camaragibe e Ipojuca.

Presente no primeiro jogo da final entre Joias Raras e Vitória, no Estádio Municipal Paulo Petribu, em Carpina, a reportagem do Brasil de Fato observou a ausência de polícia ou ambulâncias no estádio. Segundo Baby uma atleta de sua equipe se machucou durante jogo nos Aflitos e também não havia ambulância no local para socorrê-la. A FPF é a 3ª no ranking nacional de futebol feminino.

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Equipes realizam jogos sem a presença de policiais ou uma ambulância no local.

Questionado sobre os desafios para a profissionalização do futebol feminino, Bleno afirmou que é bem mais difícil encontrar parcerias para o futebol feminino. A falta de exposição na mídia, segundo ele, torna a categoria desinteressante para os patrocinadores. "Começamos a procurar parcerias, mas é difícil. Por enquanto as despesas têm sido do clube, com ajuda de colaboradores e conselheiros", informa. Elias concorda que a imprensa pouco se interessa pela categoria. "É um pouco de preconceito, machismo. Os caras não admitem mulher jogando futebol".

Bleno lembra que o clube só vai investir se vir possibilidade de retorno financeiro. "Profissionalizar o esporte é aumentar os custos em tudo. Para fazer isso precisamos ter estrutura, federações e confederações precisam fazer campeonatos nacionais e internacionais, atrair mídia. Sem esse aparato não dá para profissionalizar, porque estaria trazendo despesas e obrigações sem retorno em mídia, ingressos e patrocínios. Esse cenário precisa mudar para o futebol feminino decolar. É uma luta e não vai ser fácil", diz. Pouco otimista, Bleno opina que se nos próximos 5 anos o futebol feminino se profissionalizar e for 20% do que é o masculino, já há motivo para comemorar.

PROFUT - Em 2015 a presidenta Dilma Rousseff assinou a Medida Provisória 671, a MP do Futebol. De acordo com o documento os clubes que aderiram ao Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro - PROFUT estão obrigados a terem equipes femininas a partir de 2017. Bleno pondera, no entanto, que muitos clubes seguirão se esquivando da responsabilidade. "Muitos clubes cedem suas camisas para que equipes 'informais' atuem, livrando os clubes das reponsabilidades". Elias opina que "se começar a exigir de verdade, vai funcionar. Mas se isso não for levado a sério…".

Para ele, o caminho para o crescimento do futebol feminino em Pernambuco passa pela interiorização". Já Bleno sugere que os jogos das mulheres aconteçam como preliminares dos jogos masculinos, como ocorria com os torneios juniores há alguns anos.