Ex-ministro

Temer busca se legitimar pela economia, mas é impossível dar certo, diz Carvalho

Ex-ministro afirma que governo interino quer vender a ideia de retomada da economia, às custas de perda de direitos

São Paulo (SP)

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Henrique Meirelles é o ministro da Fazenda do governo interino de Michel Temer / Valter Campanato/Agência Brasil

Atual presidente do Conselho do Serviço Social da Indústria (Sesi), Gilberto Carvalho foi um dos nomes fortes dos governos petistas. Chefe de gabinete durante os dois mandatos de Luiz Inário Lula da Silva, foi ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República durante a gestão Dilma Rousseff, de 2011 até 2015.

Considerado uma das pontes entre o governo e os movimentos populares, Carvalho concedeu uma entrevista ao Brasil de Fato analisando o momento pelo qual passa o país. Para ele, o fator fundamental que levou aos atuais impasses da política nacional é a “sede de poder da elite brasileira”, incapaz de respeitar “os tempos democráticos”.

Ele, por outro lado, não poupa autocríticas à atuação do PT nos últimos anos, destacando a timidez nas iniciativas em combater o oligopólio midiático: “nós permitimos que a massa ouvisse só um lado”, pontua.

Para Carvalho, os primeiros dias de governo interino capitaneado por Michel Temer demonstram que o peemedebista dificilmente terá sucesso, apesar das tentativas de “pisar na classe trabalhadora” e nos seus direitos. “Esse governo não tem perigo de dar certo”, prevê.

Confira a entrevista abaixo:

Brasil de Fato: Que fatores contribuíram para se chegar ao atual cenário?

Gilberto Carvalho: Eu não tenho dúvida que o primeiro fator é a sede de poder da elite brasileira e a sua incapacidade de esperar os tempos democráticos. A necessidade que eles tinham de interromper um processo de crescimento com distribuição de renda, de mudar a lógica de governo – que sai de permitir a eles lucrarem tanto como lucraram o tempo todo, internacional como nacionalmente – levaram a isso. A mídia participando fortemente e manipulando as massas; eu não tenho dúvida que isso foi fundamental. Mais a corrupção da classe política brasileira, fisiológica, que levou a esse processo.

Do nosso lado, temos que reconhecer que nós facilitamos o golpe, na medida em que não conseguimos enraizar na massa a lógica do nosso projeto: as pessoas – se soubessem o que estariam perdendo, como disse o [teólogo] Leonardo Boff – inundariam as ruas em defesa do nosso governo, mas não conseguimos fazer esse processo de conscientização. Além dos processos internos errados, de corrupção, de burocratização e a dificuldade que o nosso governo teve de diálogo a partir da nossa própria presidenta; mas também nos componentes principais do nosso governo, houve uma enorme falta de diálogo, isso também reduziu nossa possibilidade de uma reação mais forte.

Nesse processo de golpe, qual a avaliação que você faz da reação nas ruas?

Eu acho uma reação maravilhosa, se se pode dizer que toda crise tem um lado bom, esse é o lado bom dessa crise: não só movimentos sociais – claro que eles têm um papel fundamental –, mas muita gente que não tem nada a ver com movimento, muito menos com o PT e muito menos com o governo, foi à rua para defender a democracia e os direitos sociais, e evitar essa pauta regressiva, homofóbica, que exclui direitos, e que eles querem implantar. Acho que isso é a grande primavera, é o grande desafio desse momento, nós temos que saber entender esse processo, conseguir juntar essas forças da unidade de ação, nenhum partido querendo ter a hegemonia nesse processo, mas sim em um novo jeito de política. A gente pode, no meu juízo, não só fazer resistência a esse governo ilegítimo, golpista, como também construir um novo jeito de fazer política. E a Dilma voltando, voltar também diferente o governo.



Levando-se em consideração a política de conciliação do governo do PT, em que momento o capital se sentiu realmente confrontado?

Na verdade, toda a lógica nossa de crescimento com distribuição de renda foi tolerável para eles quando eles não perdiam, e o país em uma conjuntura internacional possibilitava esse tipo de crescimento. Quando na crise internacional foi se estreitando os espaços e aí se viu que, para continuar distribuindo, precisava desconcentrar, diminuir lucratividade, eles não perdoaram.

Para mim, isso se dá em setembro de 2012, quando a Dilma corta os juros drasticamente, reduz o spread bancário e não faz o leilão das companhias elétricas, que era o sonho do capital internacional. A partir daí, eles tomam uma decisão, eles começam a perceber que se continuar a distribuir eles perdem, e perder não é uma palavra que cabe no dicionário deles. Aí, começam a conspirar; em 2014, tentam ganhar de todo modo, são derrotados, mas aí, como já disse, não tem paciência para esperar a democracia.



De saída, o que o governo interino tem mostrado?

Eu sempre digo que um governo com Geddel Vira Lima, (Eliseu) Padilha, (Romero) Jucá e companhia, com esse novo ministro da Justiça, que é uma espécie de cara da guerra contra os pobres… Esse governo não tem perigo de dar certo. Agora, eles vão tentar, de todas as formas, tomar medidas econômicas que passem de alguma forma, com o apoio da imprensa, a sensação de que estamos retomando o crescimento econômico. É o desespero de um governo ilegítimo tentando conquistar legitimidade a partir da economia, esse vai ser o foco.

Agora, para isso, eles terão que pisar muito na classe trabalhadora, pisar em direitos sociais e aí eu tenho certeza que a reação não será do PT, não será da CUT [Central Única dos Trabalhadores], é a reação dessa população que não é mais a mesma de antes do nosso governo. Nós "acostumamos mal", dizendo de forma irônica, as pessoas a ter direitos, a ter inclusão, é muito difícil eles domesticarem essas pessoas, essa grande massa, como já fizeram no passado. Então, eu tenho muita expectativa de que nós voltaremos, porque vai ficar claro. E eles começaram já assim, excluindo mulheres, excluindo negros, fazendo um ministério já envelhecido, politicamente falando. É uma pressa em tentar se legitimar por medidas econômicas artificiais. Eles nunca vão se legitimar, porque são frutos de um golpe e de uma conspiração.



Qual papel os meios de comunicação têm nesse cenário de golpe?

Eu reputo que um dos erros fundamentais que nós cometemos foi exatamente não dar para os meios de comunicação a importância do papel que eles têm na formação ideológica, na formação da cultura das pessoas. Nós, olimpicamente, não fizemos, não só a reforma dos meios de comunicação, acabando com os oligopólios e os monopólios da mídia, mas, acima de tudo, demos todo o apoio para a expansão dessas redes. Demos recursos governamentais para esse tipo de imprensa, não cuidando de cultivar outro tipo de imprensa, não governista, não chapa branca, não partidária, mas que dê um tratamento democrático para a informação. Deixamos a mingua estes meios e eles são tão vigilantes que aqueles que tentaram mudar foram chamados de blogs oficialistas, blogs estatais. Uma das primeiras medidas que o governo Temer está fazendo é cortar, inclusive, o pequeno apoio que esses meios recebiam.

Ao não fazer esse apoio, ao não consolidarmos algumas vertentes de uma imprensa democrática no Brasil, nós permitimos que a massa ouvisse só um lado e, ao ouvir só um lado, elas foram convencidas de que nós somos ladrões, de que nós estamos expropriando os bens públicos para benefício próprio ou partidário, quando a realidade é oposta: houve sim gente nossa que errou, foi punida, porque nós instituímos um modelo de liberdade à Polícia Federal e para o Ministério Público, que eles já estão falando em mudar isso hoje – o novo ministro da Justiça já fala em mudar o critério de escolha do procurador. E fizéssemos que quem errasse fosse punido, o que não acontecia no Brasil quando se tratava de grandes ou de governos. Então, esse processo todo de dominação ideológica fez com que as pessoas não se revoltassem tanto diante desse golpe, mas aos poucos eu tenho certeza que nós vamos reverter essa situação.