Transporte

Empresas de ônibus usam trabalho semelhante à escravidão no Rio

Ex-superintendente Regional do Trabalho, Robson Leite denuncia situação precária dos trabalhadores do transporte

No audio source provided.
Empresas de ônibus operam com jornada de trabalho de até 12 horas por dia
Empresas de ônibus operam com jornada de trabalho de até 12 horas por dia | Crédito: Empresas de ônibus operam com jornada de trabalho de até 12 horas por dia

Cargas excessivas de trabalho, descontos ilegais na folha de pagamento e demissões sem respeitar os direitos trabalhistas são algumas das ilegalidades identificadas por auditores-fiscais do trabalho da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego no Rio de Janeiro.

A situação precária dos trabalhadores rodoviários foi denunciada pelo ex-superintendente regional do Trabalho, Robson Leite, em relatório de 20 páginas. “Durantes as fiscalizações, verificamos situações muito próximas à escravidão”, confirma Robson Leite.

Funcionários confirmam a situação. “Empresários, como Jacob Barata, estão fazendo fortuna às custa da exploração do trabalhador. Nós nunca recebemos o salário integral, devido a descontos ilegais que eles fazem na nossa folha de pagamento”, denuncia a cobradora Maura Gonçalves. Ela foi uma das líderes da greve dos rodoviários de 2014, que paralisou o Rio.

Maura explica que esses descontos vêm em forma de “vale-filmagem” cada vez que alguém entra pela porta de trás dos ônibus, mesmo o passageiro pagando a passagem.

A lei que regula as gratuidades prevê que as pessoas que têm esse direito podem usar o transporte coletivo portando apenas a identidade, sem a necessidade do cartão. Entretanto, quando isso acontece as empresas descontam o valor da passagem do salário do motorista.

“Tem muito trabalhador que no final do mês recebe quase nada. Isso é trabalho escravo”, critica Maura.

Além disso, a jornada contratual dos motoristas é de sete horas diárias. Mas a fiscalização constatou que a prática habitual em todas as empresas avaliadas é de jornadas superiores a nove horas por dia. Muitas vezes chegam a ser superiores a 12 horas, segundo o relatório da Superintendência.

“Outro problema identificado é a falta de banheiros na maioria dos pontos-finais. Ouvi relatos de trabalhadores que tiveram que fazer suas necessidades na roupa, para não ter que parar o ônibus e ser prejudicados. Isso é inadmissível, fere a dignidade humana”, critica Robson Leite.

Próximos passos

O relatório que aponta uma série de irregularidades trabalhistas foi entregue à Prefeitura do Rio de Janeiro, que mantém às concessões de empresas de ônibus, e também ao Ministério do Trabalho.

Entre os meses de setembro do ano passado e abril deste ano, os auditores aplicaram mais de 900 multas às empresas de ônibus que apresentavam irregularidades trabalhistas. Foram fiscalizadas 30 empresas de ônibus e nenhuma estava em dia com o repasse do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e todas apresentavam jornada excessiva de trabalho, entre outras irregularidades.

Resposta

O consórcio Rio Ônibus esclarece que apresentou à Superintendência Regional do Trabalho uma proposta para a definição de um período de adequação que permita que as empresas realizem os ajustes necessários para o cumprimento de todas  as determinações estabelecidas.

A entidade informa ainda que vem mantendo contato com os auditores e que foi solicitada uma mesa de entendimento, para a discussão e definição de ajustes, junto ao Ministério do Trabalho e a Procuradoria Regional do Trabalho.  

Sobre a denúncia citada pelo ex-superintendente regional do Trabalho, o Rio Ônibus diz que tratase de acusação muito grave e que, a despeito dos encontros de entendimento para solucionar os problemas nas empresas, não foi comunicada em momento algum ao sindicato.

Editado por: Redação

|

Newsletter