Índia

Sem líderes nem sindicatos, costureiras se mobilizam e barram mudanças na Previdência

Quase 100 mil operárias da indústria do vestuário realizaram o protesto trabalhista mais importante do século no país

Calcutá | OperaMundi

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Operárias do setor de vestuário decidiram parar de trabalhar e fechar a rua para protestar contra a reforma / The News Minute

Em uma pesquisa recente, a maioria das mulheres em Bangalore disseram preferir homens altos para estabelecerem relações estáveis. Não gostam muito de aventuras, mas gostam de homens empreendedores. Cerca de 30% delas quer que seus maridos sejam bons ouvintes e que tenham, na vida em geral, um coração liberal. Nessa metrópole da tecnologia no sul da Índia elas também preferem um engenheiro com mestrado ou qualquer título universitário semelhante.

Essas mulheres buscam perfis em sites de encontros e bebem coquetéis em restaurantes exóticos da capital do Estado de Karnataka esperando pessoas como Girish Kenodi. No dia 18 de abril pela manhã, saindo de carro de seu escritório em Electronic City (o distrito da modernidade por excelência), Kenodi ficou preso entre milhares de mulheres pobres que não têm tempo de prospectar amores pela internet ou responder pesquisas.

Kenodi e mais quatro milhões de pessoas tiveram suas atividades interrompidas de maneira instantânea naquela segunda-feira. Dono de uma empresa de marketing digital, o engenheiro estava a caminho de uma reunião com um cliente e, ao se dar conta da magnitude do protesto que o rodeava, tuitou durante algumas horas para alertar os motoristas e outras pessoas sobre a situação, que parecia ter surgido do nada.

 Para as trabalhadoras, reforma nos fundos de previdência era uma mudança inaceitável |  The News MinuteEm Bommanahalli, uma área de fábricas de roupas que cruzam as principais vias ao sul da cidade, a jornalista Sarayu Srinivasan viu a mobilização tomar forma. “Eu estava no ponto de ônibus para ir ao meu local de trabalho”, explicou a Opera Mundi, “quando vi umas 10 mil pessoas, em sua maioria mulheres, caminhando em minha direção.”

Srinivasan começou a perguntar o que estava acontecendo. “Cada vez que interrogava uma das mulheres, muitas se aproximavam de mim e falavam todas ao mesmo tempo”, continua. Todas tinham algo a dizer a respeito da vida nas fábricas, dos turnos de 12 horas e das condições de trabalho precárias, seus futuros casamentos e suas vidas. Quase todas muito jovens, em torno de 20 anos de idade, provenientes das pequenas comunidades rurais de Karnataka e de alguns Estados do norte e do nordeste da Índia.

O motivo principal da mobilização: o governo central estava a ponto de implementar uma reforma nas regras dos fundos de previdência dos trabalhadores. As costureiras, por exemplo, recolhem R$ 26 por mês de seu salário, e uma quantia similar é depositada pelo empregador. Até então, um trabalhador poderia recorrer a esse fundo quando estivesse desempregado por dois ou mais meses ou em alguma emergência.

Sem líderes nem sindicatos

Na segunda-feira, 18 de abril, às 9 da manhã, tudo indicava ser um dia de trabalho normal em Bangalore. As fábricas continuavam produzindo roupas para grandes empresas como Zara, GAP ou Tommy Hilfiger para serem vendidas em Europa, Estados Unidos ou Austrália. Mas as quase 100 mil mulheres que trabalham na Shahi Express, talvez a maior indústria do setor nessa cidade, decidiram parar de trabalhar e fechar a rua para protestar contra a reforma.

Nem 5% do meio milhão de costureiras são sindicalizadas. Quase todas são obrigadas a trabalhar de forma totalmente precária e são despedidas antes de cumprir 5 anos de trabalho, tempo máximo permitido por lei para manter um trabalhador sem previdência social e benefícios. Recontratadas aqui e ali, vivem dividindo pequenos quartos, às vezes propriedades de seus patrões, sem economizar muito: os fundos de previdência são suas poupanças.

A notícia se espalhou como um incêndio. Primeiro, nas fábricas perto da Shahi Express, mas em seguida em todos os centros industriais. Aproximadamente um quarto das costureiras (pelo menos 120 mil) começou a tomar as ruas. Até mesmo a rodovia que leva às áreas de arranha-céus e centros de convenções se encheu de mulheres.

A polícia correu assustada, não tinha oficiais suficientes disponíveis naquela manhã. As costureiras repeliram sua presença a pedradas. Os sindicatos tentaram contê-las (ou fazê-las levar seu protesto para canais aceitáveis, como admitiu um dirigente do maior sindicato de trabalhadores têxteis), sem êxito. Durante as seis horas seguintes, turistas ficaram estacionados, rodeados de vozes e cantos. Nada se movia em Bangalore, nem os ônibus com ar condicionado – que custam 11 reais, três vezes mais que em Nova Déli –, nem os comerciantes que costumam ir e vir durante o dia entre Bangalore e Chennai, na costa leste da Índia.

A cidade mais cara do país ficou paralisada por milhares de mulheres sem escolaridade, quase todas falando apenas kannada (uma língua com 38 milhões de falantes) e sem querer dar seus nomes ou aparecer nas fotografias que a imprensa pedia.

Não passa nada, nem ninguém

Tudo parecia voltar à normalidade no final da tarde. Talvez por isso, ninguém pensou que os protestos continuariam no dia seguinte, com mais força. Na terça-feira, 19 de abril, nos quatro pontos estratégicos de Bangalore, as costureiras voltaram às paralisações. Dessa vez, além disso, muitos homens se uniram a elas: os trabalhadores das fábricas da cidade (várias manufaturas e empresas eletrônicas). E a polícia começou a interferir.

Os meios de comunicação da Índia dizem que os protestos se tornaram violentos, como provam os seis ônibus destroçados, a viatura queimada e os destroços em comércios e avenidas. As 216 pessoas presas nesse dia são prova, diz a polícia. Muitas delas eram costureiras e quase todas foram acusadas de distúrbios; mas algumas de “tentativa de assassinato”, motivo pelo qual não tiveram direito à fiança.Governo desistiu das mudanças na previdência após protesto das operárias |  The News Minute

Em sua declaração ao jornal indiano The Hindu no dia seguinte, V. Srinivasulu, trabalhadora de uma fábrica de montagem elétrica, disse: “Depois do protesto de segunda, percebemos como nós vamos sofrer também. Por isso, vamos nos unir a elas na terça-feira”. O que detonou o enfrentamento com a polícia, ao que tudo indica, foi a intenção de marchar em direção do escritório do governo que trabalha com os fundos de previdência.

Ninguém comandava, como confirmou até o comandante da polícia N. S. Megharikh, que não pôde localizar nenhum dirigente para negociar a dissolução do protesto. Sem dúvida, fartos de tentar dispersá-las – ou das pedradas –, os policiais começaram a golpeá-las com seus cassetetes. Entre feridas e presas, as costureiras denunciaram assédio sexual, golpes e maus-tratos durante seu confinamento. 

Pouco a pouco, as costureiras pagaram suas fianças e se retiraram para suas comunidades em silêncio. Esperando que tudo se acalme. Sabem que o poder de seu protesto foi suficiente para que o governo de Modi detenha a reforma e deixe as coisas como estão. Elas poderão usar seu fundo de previdência, como costumam fazer.

“Até então”, explica Sarayu Srinavasan, “as mulheres sabiam muito pouco a respeito dos fundos de previdência. Apenas recebiam seus salários (cerca de 570 reais por mês) e sabiam que, em alguns anos, poderiam usar essas ‘poupanças’ que estavam tentando tirar delas.”

Uma delas, empregada da Shahi Express, disse no dia 18 de abril que, para receber esse fundo se matava em um trabalho “que é como de carregador”. O fato de tentarem impedi-las de ter acesso a esse dinheiro detonou o protesto trabalhista mais importante do século na Índia.