FUTEBOL

Criminalização das torcidas organizadas resolve o problema?

Presidente da ANATORG avalia criminalização como equívoco, pois torcidas são o reflexo da sociedade.

Recife (PE)

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Decisão judicial baniu a Torcida Jovem do Sport dos estádios. / Reprodução da internet

No último mês de abril o juiz Edvaldo Palmeira, da 5ª Vara da Fazenda de Pernambuco, determinou que a Torcida Jovem do Sport está banida de todos os eventos esportivos envolvendo o clube rubro-negro. Caso a torcida descumpra a medida, terá de pagar multa de R$ 10 mil por jogo. A decisão vale para amistosos, jogos locais, nacionais e internacionais. Mas será que a medida resolve o problema da violência urbana e nos estádios?

Diretor da Torcida Jovem do Sport, Thullyo Lima avalia que não, mas faz uma autocrítica quanto ao esforço da torcida em coibir atos que incriminem a agremiação. “Acredito que as torcidas no Recife sofrem muito por não terem amadurecido. Até há pouco não discutíamos os direitos e deveres dos torcedores”. Na Inferno Coral a opinião é parecida. O diretor Ezequiel Santos reconhece que “a violência e a depredação são a realidade das torcidas organizadas”, mas afirma que a torcida parou de se envolver em situações do tipo há meses. “O que aconteceu com eles [a Jovem do Sport] poderia ter sido com a gente. Serviu para darmos um freio”.

O presidente da Associação Nacional de Torcidas Organizadas (ANATORG), André Azevedo, classifica como “burra” a medida da Justiça de Pernambuco. “O único propósito da medida é impedir uma camisa dentro do estádio, mas o infrator continua frequentando. Então não tem eficácia. A má educação continua e a violência também”, avalia.

Uma das medidas sugeridas por Thullyo para conter a violência dentro de campo é o investimento em formação para a Polícia Militar, criando grupos especializados como o Grupamento Especial de Policiamento nos Estádios (GEPE), da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Segundo Ezequiel, uma etapa fundamental para superar a violência entre torcedores é o diálogo com as lideranças dos bairros. “As brigas de torcidas são conflitos de bairros. Quando conseguimos ônibus para levar os torcedores ao estádio, evitamos os confrontos”, afirma.

Também é comum ouvir que os demais torcedores deixaram de ir aos estádios por temer as TOs. André reage. “Há uma tentativa de elitização e o futebol brasileiro está sentindo o impacto, porque o consumidor do futebol no Brasil não é a elite que foi à Copa do Mundo, mas sim aquele que pagava R$ 5 para ir ao jogo. Quem o tirou do campo não foi a violência, mas o preço do ingresso”.

A ANATORG é uma rede com mais de cem torcidas do país. Em sua nota de fundação a Associação afirma que quase 2 milhões de brasileiros integram TOs. E questiona: “as pessoas acham que nessa quantidade de gente teríamos um comportamento diferente da sociedade brasileira, onde convivemos com violência em todas as esferas além do futebol?”.