Coluna

Arte de ocupar

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A recriação do Ministério da Cultura foi uma derrota de Temer

No atual momento de ilegitimidade por que passa o país, o setor cultural vem mostrando sua evolução e maturidade política. E com isso dando exemplo para outros movimentos e interessados em geral pela recuperação da democracia no Brasil. Foi uma das primeiras áreas a serem atacadas pelo governo conspirador de Michel Temer, que mal “assumiu” anunciou a extinção do Ministério da Cultura. A pasta foi fundida com a da Educação, entregue nas mãos de um inexpressivo representante do atraso, Mendonça Filho. O setor soube reagir rápido e forma articulada.

Nenhuma das duas ações, nem o ataque nem a resistência, se deram no vazio da história. A perseguição evidencia as raízes do pacto regressivo que tomou o poder do Estado de assalto. Em primeiro lugar pela própria base intelectual de seus representantes. A foto da “posse” de Temer flagrou o instantâneo de uma composição classista, branca, machista, oligarca e comprometida com os reais interessados, o capital financeiro e seus braços, que comemoravam longe dali. Até a alegria de Aécio Neves, que marcava ali sua indefectível posição de coadjuvante jogado do último vagão do trem da história, dava conta do clima de festa de firma. Os patrões não comparecem, os bobos se divertem.

Além de composto por pessoas sem trato com a inteligência, a sensibilidade e a democracia, o governo golpista chegou alimentando um rancor – que parece ser o comportamento dominante da turma – em relação aos artistas e intelectuais, que na sua mais legítima expressão fizeram parte da consciência desperta da nação. Neste caso, sequer foi suficiente buscar seus aliados no mesmo campo – o puçá jogado nas águas da cultura só trazia peixe pequeno, de Lobão a Frota (que logo cobrou seu reconhecimento em audiência patética com o ministro da Educação).

O exemplo vem de cima. Temer fala empolado, dá gravidade a platitudes, suas mesóclises são a metáfora de sua concepção de cultura beletrista e vazia: usa formas em desuso, para dar voz a um discurso velho e embasbacar ouvintes ultrapassados. A volta atrás na decisão de recriar o Ministério da Cultura, elogiada pela mídia hegemônica como prova de sensibilidade, nada mais foi que uma derrota política, a primeira de muitas que passou a colher logo nos primeiros dias de trabalho como posseiro do gabinete que não lhe pertence. A prova mais expressiva de que não estava lidando com um setor sedento de poder de barganha a qualquer preço foi a recusa seguida de cinco mulheres em ocupar a pasta. Elas deram prova de que a dignidade da luta feminista não iria calçar o machismo inaugural, nem dar sinal verde de que a retomada do interesse pela cultura era legítimo.

O segundo aspecto, a organização do setor para a resistência, que se pode ver em ocupações de órgãos e representações do MinC em todo o país, também ecoa uma postura de ativismo e cidadania que vem caracterizando a Cultura nos últimos anos. Longe de ser um setor pacificado e, até mesmo formado exatamente pela própria diversidade, a Cultura soube amadurecer em meio a debates internos. Nesse aspecto, as gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira devem ser destacadas, pela incorporação de diferentes atores, num processo democrático e continuado de diálogo. Tal trajetória acabou por possibilitar uma vertente forte de ativismo, que fluía das questões mais específicas, como o financiamento do setor, para as grandes bandeiras de fortalecimento da cidadania.

Em Belo Horizonte, por exemplo, partiu do setor cultural a mais consequente articulação em oposição à administração do prefeito Marcio Lacerda (PSB), em suas práticas higiênicas e em seu propalado modelo empresarial de gestão. Administrador alçado ao papel de gestor público, em conluio até hoje sombrio para a cidade, Lacerda se tornou conhecido por sua ojeriza ao povo, aglomerações, uso de espaços públicos, além do prazer em culpar as vítimas por enchentes e os usuários do transporte público pelos ônibus ensardinhados de gente.

No atual movimento de ocupação do setor cultural em todo o país, merecem ser destacadas, até agora, algumas boas atitudes em sequência: a rapidez em marcar posição contra a extinção do MinC; a capacidade de recomposição do setor, que vinha dividido dos últimos movimentos políticos de Dilma Rousseff; a mescla de denúncia política e ocupação criativa dos espaços, um patrimônio que a Cultura não pode desprezar. E, sobretudo, a destemida atitude de não negociar com o interventor de plantão, Marcelo Calero, apontando o horizonte político para o restabelecimento da legalidade. Ou Dilma ou nada.

A Cultura, em alguns momentos, é o espelho do nosso tempo. Muitas vezes, tem a obrigação de ser o farol.

 

 

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