Transporte público

Quatro milhões disputam mil postos de recarga do Bilhete Único no RJ

Diante da dificuldade para recarregar o cartão, muitas pessoas acabam pagando o deslocamento no dinheiro

Rio de Janeiro

,
Dificuldades para encontrar postos de recarga fazem usuários perderem direito à integração / Pablo Vergara

Os usuários do Bilhete Único encontram vários impedimentos para fazer valer, na prática, a integração do transporte público no Rio e na região metropolitana. Entre os impasses apontados está a recarga do cartão. É grande a dificuldade para encontrar postos para recarga perto de casa e do trabalho, além das grandes filas que se formam nos locais. Diante desse problema, muitas pessoas acabam pagando o deslocamento no dinheiro. Isso faz com que os usuários não tenham acesso à integração promovida pelo Bilhete Único. 

De acordo com a Secretaria de Estado de Transportes do Rio (Setrans), existem aproximadamente mil postos de recarga na cidade do Rio e região metropolitana, enquanto o número de usuários é de 4,1 milhões. Em conta matemática simples, são mais de quatro mil usuários para cada posto de recarga. 

“Sempre tenho dificuldades para utilizar o Bilhete Único porque em Niterói o principal ponto de recarga fica nas barcas e as filas são muito grandes. Já aconteceu de pagar com dinheiro o ônibus por não ter tempo de recarregar. Muitas vezes também perdi a barca porque meu atendimento demorou muito”, afirma o economista Daniel Cardoso, de 26 anos.

Para o jornalista Eduardo Miranda, 34 anos, além da pequena quantidade de postos de recarga para o alto número de usuários, não há assistência. “No metrô da Carioca, percebi que algumas pessoas não sabem fazer a recarga sozinhas. Ainda assim, não vejo funcionários para auxiliar no procedimento. Isso também gera filas. Esse é um dos motivos para me fazer desistir da recarga muitas vezes e pagar mais caro”, afirma.

Recarga difícil

De acordo com a Setrans, um sistema de recarga online para o Bilhete Único, chamado “Recarga Fácil”, foi inaugurado para melhorar o atendimento. Através dele, o usuário compra créditos pela internet, que são enviados aos terminais de autoatendimento para que sejam validados no cartão. Porém, hoje existem apenas 30 equipamentos espalhados pela capital e região metropolitana para realizar esse serviço. 

“É muito difícil encontrar uma máquina por perto quando temos que desbloquear o crédito no cartão. Não há informação sobre elas. Na Central elas ficam em um lugar escondido, distante de onde as pessoas estão circulando. Além disso, sempre tem filas enormes”, afirma Leonardo Guimarães, 23 anos, estudante de Direito da UFRJ. 

Extinção de linhas

Outra dificuldade apontada pelos usuários é a racionalização dos ônibus municipais. A medida teve início no ano passado com a extinção de 70 linhas, fazendo com que muitas pessoas peguem mais de dois ônibus para chegar ao destino final. Essa mudança deixou a tarifa mais cara do que os R$ 6,50 cobrados no Bilhete Único em deslocamentos intermunicipais. 

Segundo Juciano Rodrigues, pesquisador do Observatório das Metrópoles do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR), o Bilhete Único não representa integração, nem do ponto de vista físico nem do tarifário. “É zombar da nossa cara dizer que temos um sistema de integração. Temos uma tentativa. E o que está por trás da racionalização das linhas é uma reação das empresas para forçar o usuário a pagar mais uma passagem. Está havendo o desmonte de uma tentativa de integração, antes mesmo de ser consolidada”, conclui.