Coluna

Futuro do pretérito

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A tarefa urgente é assumir o presente

De repente, não mais que de repente, o projeto da modernidade se liquefez. O que era valor se tornou problema. Onde havia esperança na emancipação se colhe o atraso orgulhoso da reação. A crença na autonomia se revelou o avesso da liberdade num tempo de servidão voluntária e traições habituais. Os fracassos reiterados do mercado em todas as latitudes ganharam a inviável aura teológica da salvação, ainda que gerem continuamente infelicidade e miséria. A criação e a crítica, que um dia definiram o palco do espírito, se viram transformadas em consumo. O mundo ficou um lugar terrível para se viver. Em vez da contestação iracunda, parece sobrevir uma acomodação cínica.
O que parecem ser observações de natureza muito teórica, quase filosófica, na verdade se mostram completamente integradas à força dos nossos dias e circunstâncias. O Brasil oficial se tornou um cenário que realiza, no seu cotidiano, um ataque cada vez mais destrutivo às conquistas da civilização. A recente onda anticultura é um exemplo dessa operação. Depois de ver a contestação ao golpe surgir no interior do setor artístico e da reflexão, a reação não tardou. A recente onda de condenação da Lei Rouanet é um exemplo do que pode a má-fé aliada com o poder da mídia.
Criticada pela esquerda em seus fundamentos desde o nascedouro, a lei de incentivo à cultura no Brasil tem problemas estruturais que fizeram dela um mecanismo concentrador em termos regionais e de classe, e conservador no que toca ao conteúdo. Arte sempre para os mesmos, a mesma arte sempre. No entanto, em vez de enfrentar a fera da desigualdade, foi mais viável para os mercadores da criação a busca da convivência com o poder, seja ele político, ideológico ou de mercado. Uma casta se estabeleceu e toda a discussão consequente só se deu por mobilização da categoria e de seus artistas e pensadores mais críticos.
Agora, ao apresentar os desvios da Lei Rouanet, o que se oferece ao banquete moralista da classe média é a atividade cultural em si, não seus chacais. Em vez de aproveitar o momento para levar adiante uma profunda reformulação do instrumento, criminaliza-se a própria atividade artística. Os desvios não seriam exceção, mas a regra de um setor sem controles, limites e função numa sociedade de mercado. Não se levou sequer em conta que o pedido de fiscalização de desvios já vinha sendo feito pelo próprio MinC (o de verdade, não o golpista), inclusive com pedidos de diligência encaminhados à CGU (a de verdade, que depois foi extinta pelos golpistas).
O mesmo efeito paradoxal se observou no campo da comunicação. Assim como a criação deixou de ser crítica para atender aos ditames do marketing das empresas, a informação deixou de ser objetiva para cumprir os desígnios da propaganda e do proselitismo. Nunca o jornalismo foi tão corrompido por interesses externos como na “cobertura” da conspiração que instalou o interregno antidemocrático vivido hoje pelo país. Não é um acaso que o golpe tenha conquistado uma sequência de adjetivos que começa com “parlamentar”, passa por “jurídico” e se complete com “midiático”.
A própria justiça perdeu no país algumas de suas mais assentadas bases, como a presunção da inocência e o respeito às provas. Empurrada por ações espetaculares, os processos passaram a ser alimentados pela denúncia sem evidências, obtidas na maioria das vezes por encarceramentos que antecedem o julgamento e funcionam como acicate da deduragem premiada. Prende-se, como se torturava antes, para forçar a delação. Como na história nonsense de Alice no país das maravilhas, a rainha inverte a ordem da justiça: “Cortem-lhe a cabeça”. Primeiro a sentença, depois o julgamento. Não se sabe bem o que isso pode vir a significar no plano moral.
Tal procedimento antecipatório da culpa chegou ao extremo de validar a abertura do processo de impeachment na Câmara por um condutor que, tão logo executou sua tarefa, se viu impedido de agir politicamente dentro da ordem vigente pela corte maior do país. Além disso, de forma cada vez mais decisiva, as próprias instituições e pessoas responsáveis por informar e conduzir o julgamento, como ministros do STF, peritos do Senado e ministros do Tribunal de Contas da União, repetem de forma cândida que não se encontram mais os motivos para o julgamento.
Mesmo assim, a trama prossegue por inércia, com sua inevitável sensação de engodo. Não há crime, mas há pena.
Por fim, nesse caminho perverso de esvaziamento de valores de civilização, chega-se à própria democracia e seu mais pétreo fundamento: o povo. Depois de cassar mais de 54 milhões de votos, parece ter entrado em cena um projeto de contestação da vontade popular, retroagindo a momentos de escolha censitária e classista. O medo das urnas é tamanho que invade todo o tecido social, criando planos de inviabilização de candidaturas e criminalização da política feita em bases populares.
Cultura sem crítica.
Jornalismo sem informação.
Justiça sem presunção da inocência.
Processo sem crime.
Democracia sem povo.
No entanto, nunca precisamos tanto de cultura, jornalismo, justiça e democracia. Não podemos aceitar o papel de testemunhas apáticas de um fracasso civilizacional. Há uma transição sobre a qual não se pode garantir nada, nem em termos políticos, nem econômicos ou mesmo culturais. O futuro já começou e não era o que se esperava dele. Em vez de se estarrecer com a antecedência regressiva do porvir, a tarefa urgente é assumir o presente. Com as armas da razão, quando for o caso; com as iluminações da arte, quando possível; com as urgências da vontade, sempre.  

 

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