Música

Transexualidade com a cara no sol e nos palcos do Brasil

Banda “As Bahias e a Cozinha Mineira” apresenta o espetáculo "Mulher" em turnê pelo país

Curitiba (PR)

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Grupo se apresentou na última quinta-feira (21) no Teatro Paiol e conquistou público curitibano / Fotos: Annelize Tozetto Fotografia

"Mulher é uma palavra que nos atravessa e nos constitui diretamente", revela a vocalista Assucena Assucena sobre o título do disco que dá nome à turnê da banda “As Bahias e a Cozinha Mineira” pelo Brasil. Com uma mistura de virgens, mães, putas, retirantes, negras, indígenas e transexuais, as canções trazem à tona o questionamento sobre a imagem e o papel das mulheres na sociedade. Até o sol vira “estrela sol” e todas as palavras invadem o universo feminino. "É preciso mudar a linguagem para mudar ideologicamente tudo", defende Assucena. 

Com o protagonismo de duas cantoras transexuais, o grupo quebra estigmas e busca encontrar seu lugar na música brasileira. "As travestis e transexuais eram vistas ou de forma jocosa ou hipersexualizada, mas aparecemos em um momento de empoderamento das mulheres e de todo o movimento feminista no Brasil, de modo geral”, explica Assucena. Para ela, a população transexual começa a "botar a cara no sol". "Isso significa sair da escuridão da madrugada, dos quartos escuros, trancafiadas para que ninguém nos veja", desabafa.

 

Na opinião de Raquel Virgínia, também vocalista da banda, a cena cultural tem permitido que as pessoas convivam com a diversidade. Ela conta a própria experiência: “O movimento se fortalece quando vamos entrando nos lugares, passando pelos hotéis. "Ainda não possuímos o nome de registro igual ao nome social, então vamos brincando que é o nosso nome falso", conta, "e as pessoas entram na brincadeira".

Apesar da descontração, ambas as cantoras sabem o que é sofrer o preconceito na pele. Raquel Virgínia, Assucena Assucena e Rafael Acerbi (guitarra), criadores do primeiro álbum, da banda, se conheceram no curso de História da Universidade de São PAulo (USP), em 2011. E foi ali que tudo começou. No início, o grupo, que  se apresentava para o público universitário, obteve destaque no repertório e na encenação artística. Mas Raquel e Assucena ressaltam que o ambiente da universidade é machista e racista. "O disco é fruto de muita alegria, dor e resistência. E de muita inspiração", explica Assucena, sobre o processo criativo que se iniciou naquela época. 

"Espetáculo trans"

 

Embora a visibilidade e a representatividade transexual sejam pautas urgentes no contexto da violência de gênero no Brasil, as vocalistas questionam a espetacularização da imprensa em relação ao assunto. "Há jornalistas e linhas editoriais que querem trabalhar de fato para trazer dignidade e ampliar a discussão sobre os direitos humanos, mas dentro disso também há o sensacionalismo. É um problema, porque quando precisamos fazer um espetáculo para discutir a dignidade humana, ha algo errado", avalia Raquel. 

Ao mesmo tempo, Assucena reforça que debater a transexualidade foi uma opção delas para contribuir com um debate inviabilizado, mas que o objetivo central das entrevistas deve ser a obra produzida pelo grupo. "Uma obra não brota do nada, ela reflete muito o que nós somos e pensamos. Só que deve haver equilíbrio entre o nível de curiosidade em relação a nós e a obra", complementa Raquel, que diz compreender, de certa forma, o interesse do público e da imprensa em relação à identidade de gênero. Mas logo avisa: “Eu vou dar a minha contribuição, mas um dia eu vou cansar˜. 

Arte e ideologia 

 

Da construção de Brasília pelos candangos até o processo de preparação do Acarajé. As letras de “As Bahias e a Cozinha Mineira” fazem o público parar para pensar em diversas questões da história e da cultura brasileira. E para as vocalistas, apaixonadas por arte, esse é um dos grandes poderes da música. "Tenho muita vontade de trazer para o debate publico quais são as músicas que a gente escolhe como cultura e comunidade", revela Raquel. Para ela, é preciso entender o motivo pelo qual alguns artistas dominam o mercado da indústria fonográfica enquanto outros se mantêm apagados. "O sertanejo universitário domina 90% do show business no Brasil, sendo que o país é fruto de criações ricas e heterogêneas", questiona. 

Assucena se posiciona de forma crítica em relação a este assunto. Para ela, o sucesso de alguns produtos estão ligados a questões estruturais: “As ideias encontram um conforto para se assentarem ideologicamente”, afirma, descrevendo o cenário de concentração de terras no Brasil e comparando com o "latifúndio" dominado pelas rádios e televisões do país. "Nossa luta também deve ser contra o monopólio da concessão pública", defende. 

Formação 

A banda “As Bahias e a Cozinha Mineira” é composta por Raquel Virgínia (voz), Assucena Assucena (voz), Rafael Acerbi (guitarra), Carlos Eduardo Samuel (piano e teclado), Rob Ashoffen (baixo), Vitor Coimbra (percussão) e Dividi Santos (produção musical). 

O grupo estreou seu primeiro álbum "Mulher", em março de 2016, em São Paulo. Além das faixas próprias, a banda faz uma releitura de clássicos de Caetano Veloso, Gal Costa, Milton Nacimento e Ronaldo Bastos. Após última etapa da turnê, que ainda passa pelo Sesc São José dos Campos (30/07) e pelo Sesc Iatquera (31/07), em São Paulo, o grupo se prepara para o lançamento do segundo álbum"Bixa".