Empoderamento

“A internet é a nossa voz para o mundo”, diz rapper Preta-Rara

Cantora falou sobre a questão da mulher negra e a hashtag criada para denunciar preconceito contra empregadas domésticas

Brasília (DF)

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Joyce Fernandes, mais conhecida como Preta-Rara, é exemplo de engajamento na luta pelos direitos das mulheres negras / Divulgação

Ela faz do rap e da internet canais de protesto, de onde ecoam os desabafos de quem resolveu transformar a dor em música e luta. Cantora, militante, turbanista, dona de uma marca de roupa e professora de História, a multifacetada Joyce Fernandes, mais conhecida pelo nome artístico de Preta-Rara, é exemplo de engajamento na luta pelos direitos das mulheres negras. 

A rapper, que até 2009 trabalhou como empregada doméstica, tem se destacado no meio virtual nos últimos dias pela criação da campanha #EuEmpregadaDomestica, cujo objetivo é possibilitar que mulheres que vivem desse ofício denunciem abusos praticados por patrões, compartilhando os mais diversos enredos de humilhação que se repetem no cotidiano.

Criada no último dia 19, a página da campanha no Facebook já contabiliza cerca de 110 mil curtidas e mais de 4 mil relatos enviados por internautas. “A internet é importante porque a gente pode falar o que quiser lá. É a nossa voz pro mundo”, diz, mencionado a importância da plataforma. 

De passagem por Brasília para participar do Festival Latinidades 2016 nessa sexta-feira (29), a rapper conversou com o Brasil de Fato sobre a campanha, racismo virtual e outros temas.

Confira abaixo a entrevista.

Brasil de Fato: De onde surgiu a ideia de criar uma página para tratar dos preconceitos sofridos pelas empregadas domésticas?  

Preta-Rara: Eu estava em casa um dia fazendo o almoço quando comecei a ter algumas lembranças de quando era empregada doméstica, aí pensei que nunca tinha ouvido ninguém falar sobre isso. Como eu tenho várias pessoas acessando meu perfil pelo fato de ser rapper, de cantar, pensei em fazer essa provocação. Aí falei para a galera que estavam vindo algumas coisas na minha mente e que iria começar a escrever sobre isso e que, se alguém tivesse relato parecido, utilizasse a hashtag #EuEmpregadaDoméstica pra eu poder também ter acesso e ler. Em menos de uma hora o post teve mais de 500 curtidas no meu perfil pessoal. Recebi vários relatos e criei a página para fazer essa provocação. A ideia era abrir essa discussão com as empregadas domésticas, para que elas se sentissem representadas e pudessem expelir tudo isso que acontece dentro de casa, que é algo fechado entre a patroa e elas, e também um desabafo para fazer essas provocações com as patroas.

Como tem sido a interação com essas mulheres que enviam mensagens com relatos para você?  

Elas enviam os relatos por e-mail e a gente está agora montando uma equipe para cuidar disso, porque, até então, só eu tinha acesso à página. Eu copio esses relatos da forma como elas enviaram, mas leio antes, até porque os racistas começaram a escrever também. Eles põem um relato bonitinho e lá no meio me atacam, achando que eu não leio, e colocam ofensas do tipo “macaca”. Então, eu vejo se o relato está de acordo com a página. Às vezes até recebo relato de patroas, mas falo para elas criarem a página delas e falarem lá, porque a minha página é para as empregadas. Elas mandam vários relatos falando que não é bem assim, etc. É fácil falar isso, né…

Como explicar o sucesso que a página tem tido?

Na realidade, o que você chama de sucesso eu chamaria de voz, de respostas. O fato de ter vindo tudo isso à tona é que ainda hoje acontece isso. Há 40 anos minha avó foi empregada doméstica, há 30 anos minha mãe também foi, eu há seis anos fui, então, as pessoas sentiram a necessidade de falar sobre o assunto. E não é algo que eu comecei. Na realidade, essa luta é muito antiga. A Laudelina de Campos Melo, por exemplo, é uma mulher preta que foi a primeira pessoa a criar um sindicato das empregadas domésticas. Ela criou essa luta em Campinas e depois ela foi na minha cidade de origem, que é Santos. Veja, ela já articulava isso antes de 1960. É que hoje a gente tem a internet para usar como meio, como ferramenta para fazer com que, dentro de uma semana, as pessoas fiquem sabendo – no Brasil e até no mundo – dessa nossa iniciativa, porque a página vem repercutindo em outros lugares. Mas essa luta já é bem antiga, inclusive de outra mulher preta que se empoderou numa época que era bem mais difícil do que é hoje.

Você percebe a internet como uma plataforma que ajuda na capilaridade dessas ações e no empoderamento da mulher negra, então?  

Sim, a internet é importante porque a gente pode falar o que quiser lá. É a nossa voz para o mundo. Enquanto varias mídias – jornais e TVs – querem censurar ou querem vender notícias não verdadeiras, lá eu posso postar o que realmente aconteceu e as pessoas acabam se identificando, e isso tem um alcance bem maior. Hoje em dia o meu alcance na internet é bem maior do que quando eu estou na mídia. Na internet eu posso falar o que quero e penso e outras mulheres acabam se identificando. É nisso que ajuda.

No caso do racismo virtual, ele tem alguma faceta diferente deste racismo cotidiano que a gente vê no Brasil?

Racista é racista em qualquer lugar. A questão é que, no caso da internet, a galera acha que é terra sem lei, que pode fazer o que quiser e ninguém vai ficar sabendo. Até mesmo pessoas que falam que não são racistas e que nos apoiam têm varias atitudes racistas lá. Para mim, o racismo está no olhar. Ele tem forma, tem corpo, é uma forma de olhar a pessoa quando entra no ambiente. Quando eu era educadora num museu em Santos, as pessoas chegavam perguntando quem era que ia acompanhar a visita e eu falava ‘sou eu’, aí elas perguntavam: ‘Mas quem vai falar sobre a história do local?’. E eu dizia: ‘então, você quer que eu desenhe?’. Eu fiquei tanto tempo sendo silenciada que hoje em dia é assim. Uns chamam isso de agressividade, mas eu chamo de me impor mesmo.

As mulheres negras geralmente lidam com uma dupla opressão, que é o racismo em si e a própria condição de mulher. No caso daquelas que exercem o ofício de empregadas domésticas, há aí uma outra problemática, relacionada à questão de classe social. Você foi empregada doméstica. O que você tirou dessa experiência?

Na realidade, não sei nem calcular a quantidade de opressões, porque a gente nem existe na sociedade. Na verdade, mulher preta não existe. Mas eu falo e reafirmo todos os dias que é a mulher preta que sustenta tudo isso aqui. Pra gente estar aqui, pra gente ter condições de sair de casa, houve uma mulher preta sempre presente na nossa vida. Então, pra gente, fica essa luta de resistência porque a gente tem que ser visível, sabe. Em vários lugares, quando a galera da academia me chama pra falar, eles têm necessidade de me apresentar como a Joyce Fernandes, a professora de Historia, rapper, negra, né. Então, a minha condição, a minha cor da pele vem antes de qualquer coisa, tanto para as coisas boas quanto para as ruins. Quando tem uma outra pessoa que não é negra, ninguém fala “a professora branca”. Isso não é elemento do discurso, então, nem consigo calcular as opressões – se é mulher, preta, gorda, lésbica, bissexual, enfim.

Você não acha que essa profissão de empregada doméstica deveria acabar?

Isso é uma utopia, porque nem mesmo a escravidão terminou. Hoje em dia eu saí desse campo da utopia. É algo que infelizmente não vai acabar porque ter empregada doméstica é uma questão de status social no Brasil. Tenho esperança que diminuam as opressões e que as empregadas domésticas possam ser tratadas de forma igual, sendo vistas como prestadoras de serviço, da mesma forma como um médico é respeitado por ser doutor. Eu não vejo nenhuma diferença entre os dois. São pessoas que estão prestando serviço e aí, na questão da empregada, temos que lutar por uma relação trabalhista humanizada.  

Você hoje é professora de História… Em que medida esse conhecimento acadêmico dialoga com o trabalho de protesto que você faz na música?

Olha, não vou falar que o que aprendi na faculdade foi inválido, mas o que é apresentado lá não é a real história, né. Eu me identifico com pouquíssimas coisas. O que eu aproveitei foi a forma como pesquisar, porque acredito muito mais na história oral no que na história documentada, até pelo fato de que, se eu for procurar a história do meu povo, cadê? O Rui Barbosa, por exemplo, que é nome de rua, mandou queimar todas as certidões de nascimento dos africanos que vieram para o Brasil à força pra serem escravizados e, na faculdade, é o grande Rui Barbosa, que é nome de praça. Então, o que ele representou na minha vida? Nada.

Um verso de uma música sua diz “trago no sorriso a resistência de um povo sofrido”. Qual a importância da resistência diante dessas adversidades?

A gente sangra todo dia. A resistência é importante para mostrar que estamos vivos, que estamos aqui. Nós queremos ser ouvidas e ninguém tem que dar espaço pra gente. O espaço já é nosso por direito. A gente chega, ocupa, rouba a cena e fala mesmo. Quando eu digo roubar a cena, é isto, chegar nos lugares… É visível, por exemplo, quando um preto ou uma preta chega nos lugares e todo mundo para pra ver. Falam que 53% da população são de negros, mas eu nunca fui atendida por uma médica negra, então, cadê o reflexo desse percentual, né? Na minha classe ainda tinha bastante, porque eram quatro negros de 45 alunos. Mas a gente não é 53% da população? Então, é aquela parada: você estuda a vida inteira numa escola pública e quando tem que ascender e estudar numa universidade pública, aí já são apagados todos os seus direitos. Então, tipo, a faculdade publica é só para quem já teve todos os privilégios. Tem uma questão de classe social também, porque o branco pobre ainda consegue ascender mais do que o preto pobre. Então, nós queremos ser vistos.